''Obediência suprema'' somente a Deus, defende religiosa em encontro de superioras-gerais

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08 Maio 2013

Abordando o papel da autoridade na vida religiosa em um encontro de lideranças religiosas femininas mundiais, a Ir. Martha Zechmeister, da Congregação de Jesus, disse às religiosas que elas devem uma obediência suprema somente a Deus.

A reportagem é de Thomas C. Fox, publicada no sítio National Catholic Reporter, 07-05-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"A obediência religiosa, finalmente, só pode responder à autoridade de Deus", disse ela. "Na linguagem tradicional, cumprir a vontade de Deus é a única razão legítima para a obediência religiosa".

Zechmeister, austríaca, é professora de teologia sistemática da Universidade Centro-Americana de San Salvador. Ela falou em um encontro de cerca de 800 mulheres que se reúnem sob a égide da União Internacional das Superioras Gerais (UISG).

Ela disse que aqueles que obedecem a vontade de Deus são "verdadeiramente livres" e são "uma ameaça aos poderosos".

"Cientes de que eles são incondicionalmente dedicados à autoridade suprema, eles estão livres de todos os tipos de servilismo. Mesmo arriscando suas próprias vidas, eles têm a coragem de enfrentar qualquer situação: eles são livres para examinar em profundidade e para andar nos passos de Jesus", afirmou, acrescentando que a "questão decisiva é, então, saber como descobrimos a vontade de Deus na realidade cotidiana das nossas vidas sem enganar a nós mesmas".

A vontade de Deus, disse, respondendo à sua própria pergunta, pode ser encontrada na "autoridade do sofrimento".

Descobrir e seguir essa autoridade, disse ela às religiosas, levará rumo a uma vida "que é ao mesmo tempo autêntica e fecunda. E os nossos irmãos e irmãs mais vulneráveis se tornarão nossos verdadeiros mestres e guias para o mistério de Deus".

O foco da vida religiosa, insistiu Zechmeister ao longo de sua palestra, é manter uma obediência máxima a Deus sendo sensíveis às necessidades dos pobres.

Falando a um grupo de superioras de ordens religiosas internacionais, ela disse que, com autoridade, devemos proteger os abandonados dos exploradores, tanto dentro quanto fora da comunidade, "sem cair na armadilha do paternalismo ou do maternalismo".

Ela advertiu contra os sistemas autoritários, dizendo que eles são mantidos por "pessoas oprimidas que buscam se sentir poderosas". Ela acrescentou que essa condição foi uma das raízes do abuso sexual cometido por padres e religiosos.

"As pessoas com autoridade real não se incomodam tentando preservar o seu próprio poder, mas, ao contrário, são movidas pelo desejo de que as outras pessoas cresçam na autodeterminação ou autonomia, e na liberdade de ação. A verdadeira autoridade cresce na medida em que faz com que os outros cresçam".

Enquanto isso, as religiosas líderes, segundo ela, precisam evitar uma resposta de "tamanho único" para a vida religiosa. Ela perguntou às religiosas: "Não há ainda uma preocupação dominante para que as pessoas 'se encaixem' ou se sujeitem, ao invés de estarmos dispostas a acompanhar cada uma das aventuras fascinantes de encontro com o mistério de cada um e de autodesenvolvimento e autorrealização ao máximo? Não há um medo predominante daqueles que divergem da norma?".

Uma variante particularmente triste dessa atitude, segundo ela, tem sido encontrada na forma como os religiosos trataram os povos nativos africanos e latino-americanos. "Em nome da formação religiosa, os seus modelos culturais foram destruídos e submetidos a uma violenta 'europeização'".

"Na verdade, será que a arrogância do eurocentrismo e a sua mania de superioridade foram superadas? Nós, europeus, realmente já abrimos mão da 'soberania da interpretação' sobre o que é e o que deve ser a vida religiosa? Podemos aceitar e respeitar com um espírito sereno o processo de 'deseuropeização' e a riqueza da diversidade cultural: uma diversidade de abordagens para viver em comunidade, para realizar a missão e para expressar a nossa relação com Deus?"

Ela disse que responder a essas questão é necessário "porque elas afetam a forma como as relações humanas são vividas nas congregações".

"No fim, uma comunidade estruturada ao longo de linhas de controle e de uniformidade não tem nenhuma utilidade para a sua missão evangélica. O único modelo de comunidade que pode nos envolver é o movimento de Jesus: simples, fraterno e com grande calor humano, como acolher e partilhar a vida com todos os excluídos do banquete dos ricos e poderosos".

Olhando para fora da vida religiosa no mundo, a mesma obediência à vontade de Deus, encontrada no exemplo de Jesus, tem a sua aplicação, afirmou, contrastando o caminho de Lúcifer e o caminho de Cristo.

"Lúcifer ensina os seus demônios táticas sutis de sedução. Ele os manda a despertar em seus seguidores, acima de tudo, uma avidez por riquezas, depois a pressioná-los ao desejo de honra vã e de um orgulho imenso. O seu truque astuto consiste em seduzir com a falsa promessa de que aqueles que se submetem ao seu domínio irão crescer em poder e prestígio. Mas, na verdade, essa dinâmica leva a um sistema de dependência, que destrói a autodeterminação e subjuga de uma forma brutal."

"Nós vemos isso na indústria armamentista, nos mercados de ações e nas agências de avaliação, com suas liturgias bombásticas e símbolos de poder, condenando inúmeros seres humanos à miséria. Assim como os demônios, os indivíduos que atuam, como os agiotas e lobistas, não têm rosto: eles permanecem escondidos atrás de uma fachada enganosa, atrás da 'fumaça e do fogo'."

Ao contrário, o chamado de Cristo à pobreza e à humildade, afirmou, é um convite a reverter o curso da lógica do mundo de uma forma radical.

Ela citou o falecido padre jesuíta Ignacio Ellacuría, que, em um discurso em Barcelona dez dias antes do seu assassinato, em 1989, disse: "Só utópica e esperançosamente podemos ter o ânimo para tentar, com os pobres e os oprimidos do mundo, reverter a história".

Ela disse às mulheres aquilo que a Igreja mais precisa é de líderes não para a sede de poder, mas sim para "uma paixão pela vida e uma paixão pelas vítimas do poder, que é a paixão pelo próprio Deus".

Os primeiros cristãos compreenderam isso, continuou ela. Eles morreram, vítimas de poderes externos. Mas, com o crescimento da Igreja ao longo do tempo e do seu próprio poder, ela perdeu essa compreensão da autoridade e da obediência, construindo falsos sistemas de autoridade.

Até o século IV, disse ela, a comunidade dos cristãos deixou de ser uma Igreja do martírio, seguindo Jesus, e se tornou "cada vez mais parte do mundo que produz vítimas, ou ao menos tolera que elas sejam tratadas como 'dano colateral'".

"Essa simbiose entre o poder político e eclesiástico envolve um sério risco de que a Igreja traia a sua essência, a sua missão, e perca a sua autoridade, que tem o seu fundamento único em Jesus e no Evangelho. E, ao fazer isso, torne-se uma instituição poderosa que defende, acima de tudo, os seus próprios interesses. No entanto, desde as suas origens como comunidade de Jesus, a Igreja tem apenas um único direito para existir: tornar presente o Evangelho – com a autoridade de Jesus – como uma realidade salvadora e libertadora em situações que afligem e escravizam, de uma forma concreta, os seres humanos neste mundo".

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