Bergoglio e a política: ''O dever de agir sem ser partidário''

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31 Março 2013

Um país que "não sabe fazer jogo de equipe" e "vive em um clima de permanente de encontro perdido", onde domina a fragmentação das "correntes políticas", e em que se prefere "notar o que nos separa ao invés do que nos une", e em que se tende a "potencializar o conflito em vez do acordo". As reflexões de Bergoglio não remontam aos últimos dias, e ele também não estava se referindo à Itália, embora não pareça. Ele está falando da Argentina. Mas as suas considerações sobre a sociedade como polis, a política em sentido elevado, no livro-entrevista Papa Francesco, têm um significado que vai muito além da sua pátria: rumo à construção daquela que ele define como uma "cultura do encontro".

A reportagem é de Gian Guido Vecchi, publicada no jornal Corriere della Sera, 30-03-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Aos jornalistas Francesca Ambrogetti e Sergio Rubin, o então arcebispo de Buenos Aires explicava a sua ideia de política. Para a Igreja, "a questão é não se meter na política partidária, mas sim na grande política que nasce dos Mandamentos e do Evangelho". Porque "denunciar violações aos direitos humanos, situações de exploração ou exclusão, carências na educação ou na alimentação não é fazer partidarismo. O Compêndio da Doutrina Social da Igreja está cheio de denúncias e não é partidarista".

Acontece que um bispo, quando fala, é acusado de fazer política: "Eu respondo: sim, fazemos política no sentido evangélico da palavra, mas não partidarista", esclarece Bergoglio. "É muito diferente quando começamos a fazer política partidária".

O Evangelho, portanto. E a espiritualidade de Santo Inácio de Loyola, que, em Bergoglio – não por acaso o livro, no original em espanhol, se intitula El Jesuita –, é central. Um princípio cardeal do fundador da Companhia de Jesus é "buscar e encontrar a Deus em todas as coisas" e fundamenta o estilo dos grandes missionários jesuítas, de Francisco Xavier a Matteo Ricci: a ideia de que Deus está trabalhando em tudo e que toda pessoa detém uma centelha divina, mesmo que não acredite.

A "cultura do encontro" proposta por Bergoglio apela a essa visão, "qualquer pessoa que tenha algo de bom para dar e qualquer pessoa que possa receber algo em troca". É uma cultura "que pressupõe, centralmente, que o outro tem muito para me dar, que tenho que ir ao seu encontro com uma atitude de abertura e escuta, sem preconceitos, ou seja, sem pensar que, porque ele tem ideias contrárias às minhas, ou é ateu, ele não pode contribuir nada comigo".

É preciso derrubar o "muro do preconceito", que "impede de nos encontrarmos" e se torna "uma verdadeira patologia social". É uma "crise" sobre a qual Bergoglio reflete. Mas a palavra grega krisis, lembra, significa "peneirar" e, portanto, escolher: "O crivo, a peneira, permite salvar o que é preciso salvar e descartar o resto".

Em tempos de crise planetária "ou apostamos na cultura do encontro ou perdemos", insiste: "As propostas totalitárias do século passado – fascismo, nazismo, comunismo ou liberalismo – tendem a atomizar. São propostas corporativas que, sob o escudo da unificação, têm átomos sem organicidade. O desafio mais humano é a organicidade. Por exemplo, o capitalismo selvagem atomiza o econômico e o social, enquanto o desafio de uma sociedade é, ao contrário, como estabelecer laços de solidariedade".

O que torna possível o encontro na polis, argumenta o bispo jesuíta, é o sentido de identidade, de pertencimento à "pátria" como "patrimônio" que temos o dever de "transmitir aos demais, mas acrescentado". Nada a ver com a restauração, "todo patrimônio deve ser utópico", porque "as utopias fazem crescer". Assim Bergoglio indica "três horizontes" – o ritmo ternário clássico de Santo Inácio –, começando pelo "horizonte da transcendência, que olha para Deus e possibilita a transcendência para os demais". E quem não crê? "Pode transcender, ao menos, através dos outros, o que permite evitar o isolamento".

Depois, há o "horizonte da diversidade" e o de "projeção ao futuro". Três horizontes que significam "'não' ao ateísmo, isto é, à carência de transcendência; 'não' à supremacia dos poderosos que geram o pensamento único ou hegemônico, negador da diversidade; e 'não' aos progressismos a-históricos", conclui: "Assim se possibilita o encontro".

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