O diálogo entre o Gênesis e a psicanálise

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21 Março 2013

O segundo dia de palestras do professor e exegeta belga André Wenin reuniu dezenas de pessoas na sala Ignácio Ellacuría e companheiros do Instituto Humanitas Unisinos - IHU na noite da terça-feira, 19, para discutir o tema Leis para o ser humano. Genesis 1 – 4: exegese e psicanálise em diálogo. O evento integra a programação da 10ª Páscoa IHU – Ética, arte e transcendência e faz parte do curso Aprender a ser humano. Um estudo de Gênesis 1 – 4.

André Wenin na abertura do evento ressaltou que sua fala dizia respeito a reflexões que estabeleceu com seu compatriota psicanalista Jean-Pierre Lebrun onde debatiam de que modo entre a psicanálise e a Bíblia há um fenômeno em eco, uma ressonância. A proposta de ambos era tentar ajudar as pessoas a compreenderem as conjunturas estruturais de onde vivem. “Eu e (Jean-Pierre) Lebrun, ele a partir da psicanálise e eu a partir da Bíblia, falávamos sobre temas como poder, dinheiro, violência. No fim do evento consideramos que houve um diálogo porque nosso objetivo era debater temas contemporâneos e não fazer as pessoas lerem as Bíblia”, explica Wenin.

De acordo com o exegeta, o que houve durante o encontro com Lebrun foi um diálogo entre um psicanalista agnóstico e um teólogo e a proposta não era criar polêmica, mas sim alimentar as considerações de cada um sobre os temas abordados.

Representações

Logo no início da apresentação, André Wenin trouxe o famoso quadro de René Magritte intitulado Ceci n'est pas une pipe para explicar que quando se lê a Bíblia o que está sendo apresentado é uma certa representação da realidade e que tais representações estão ligadas às culturas. “Eu não vou tomar o que leio pela realidade, mas vou analisá-la pela representação da realidade. É preciso distinguir bem isso”, sustenta Wenin.

A questão da lei

O pesquisador trouxe dois exemplos para relacionar os primeiros capítulos da Bíblia com a psicanálise. O primeiro deles são as ordens, pois, segundo Wenin, a leis aparecem logo no início do Gênesis porque quando Deus fala do ser humano logo se fala de uma lei, como se não houvesse humanos sem lei.

“No segundo capítulo do Gênesis, versículo 16 e 17, da primeira vez que Deus fala com os homens há duas ordens: na primeira parte Deus ordena que o homem coma, que prescreve o usufruto das árvores - foi dito antes que as árvores eram boas para ver e para comer e de todo esse conjunto Ele ordena de que uma árvore Adão não comerás. Deus está estabelecendo um limite aqui. Para viver é preciso aceitar um limite para a realização do seu desejo”, esclarece o professor. Esse limite refere-se, então, a árvore de conhecer o bem e o mal, conforme Wenin. “Pensar que Deus proíbe o conhecimento e a autonomia, de que o homem não teria autonomia moral, seria interpretar de forma literal esse relato e considerar que o cachimbo do Magritte é verdadeiro. Isso funcionaria no âmbito da catequese, mas não do estudo da Bíblia”, complementa.

Limites

Para o estudioso, a aceitação do limite determinará a vida ou a morte dos indivíduos. No fundo o que aparece nesse diálogo é que Adão não sabe se as palavras de Deus se tratam de uma frustração abstrata ou um conselho de amigo. “Não existe uma lei que levante uma impossibilidade de possuir um saber sobre o bem e o mal. Existe uma sabedoria para apreciar as coisas. Quando somos levados a fazer escolhas imaginando fazer a melhor das escolhas, a experiência ensina que aquilo que pensávamos ser bom deu maus frutos. Em outras vezes estamos em situação ruim e três anos mais tarde ficamos gratos de ter passado por isso, pois não foi tão ruim quanto pareceu. Não conhecemos o bem e o mal. Podemos nos aproximar pela sabedoria e pela ética, mas não se trata de saber. O humano é limitado e é assumindo isso que o ser humano pode se desenvolver como tal”, avalia o palestrante.

A psicanálise

Segundo Wenin, a partir de suas leituras e diálogos com Jean-Pierre Lebrun, essas determinações divinas que mostram limites aos homens são aquilo que se chama na psicanálise da lei da castração simbólica. “O conceito da castração é designada como simbólica como aquilo que vem realizar um limite na realidade psíquica. Freud colocava isso como necessário para reprimir as pulsões impostas para entrar na cultura, pois é essa repressão das pulsões permite que o homem se insira na cultura”, salienta.

Incesto e assassinato

Ainda no caminho da psicanálise, conforme explicou o professor, o fato de o domínio ser limitado é importante porque senão levaria à morte. André Wenin recorre a Lacan para falar de dois tipos de relações: as incestuosas e as de assassinato. “No incesto eu não sou nada sem o outro e no assassinato eu não sou nada com o outro. É por isso que as leis que proíbem o incesto e o assassinato são da origem da humanidade. Quando eu ouço o psicanalista a partir do que eu digo do limite necessário, isso me remete a própria vida justamente porque na Bíblia eu leio o mesmo engajamento”, sustenta.

Caim e Abel

Conforme o exegeta, na narrativa do Éden há a diferenciação entre homem e mulher e diz que o homem deve abandonar o pai e a mãe, pois não podemos ficar colados à nossa origem. Daí que o primeiro assassino da Bíblia nasce de uma relação incestuosa com a mãe, a história de Caim e Abel. Para Wenin essa seria apenas mais uma amostra de que há uma aproximação entre a psicanálise e a Bíblia.

“Aqui parece termos uma história banal, mas o modo de ser escrito em hebreu é muito preciso. Começa contando o nascimento de dois meninos, mas descrevendo a relação de um homem e uma mulher. O texto não julga, descreve. O homem completo e a mulher que é possuída sexualmente. Depois nasceu um filho que a  mulher tem para seu, Caim - em hebraico significa adquirido, possuído -, considerado como homem. A mulher estabelece uma relação cujo filho é a posse da mãe e o marido é excluído. Há ai uma relação fusional entre a mãe e filho, relação do tipo incestuosa. Ela 'continuou' a dar a luz a seu irmão, Abel. Ou seja, ele é a continuação do irmão e não é situado em relação à mãe. Abel em hebraico é vapor, ar, ele não é feito do pó, não tem peso”, argumenta o pesquisador.

Reequilíbrio

Na avaliação de Wenin, Deus quando dá atenção a Abel e não olha para Caim, está procurando equilibrar uma situação que é totalmente favorável a Caim, pois ele tem toda a consideração da mãe. Quando Deus atribui importância a Abel, ele provoca Caim a perceber que tem um irmão, forçando alguém que sempre esteve preso ao mundo da própria mãe a perceber que um terceiro existe. O que acontece nesse momento é chance de Caim se abrir para alteridade, para o outro.

“A prova do limite é complicada porque Caim era tudo para o outro, nesse caso a sua mãe. Ele também sempre foi considerado a totalidade pela sua mãe. Vejam que Caim está sofrendo (Capítulo 4, versículo 5). Caim não e mal, é alguém que sofre porque foi envolvido em uma situação por ter que tolerar uma falta. Ele não olha mais diante dele, ele esta fechado em seu sofrimento. Se ele sofre ele foi vitima do excesso de sua mãe”, contextualiza Wenin.

Opção pela morte

O professor explica que Deus oferece uma oportunidade de Caim refletir sobre a situação quando está furioso, embora não tenha uma postura moralista. “Por não ser capaz de entrar em diálogo com Deus e com seu irmão, Caim, antes de optar pela vida, optou por matar. Essa é a maneira como Deus se coloca como terapeuta a Caim. Não se deve dar a solução deve-se ajudar a falar para que ele próprio encontre suas respostas”, frisa Wenin.

Apontamentos finais

Por fim, o pesquisador destacou que as grandes narrativas propõem, cada uma a sua maneira, uma ferramenta para a reflexào do que é o ser humano e do que que significa viver juntos. A psicanálise que é baseada em “teorias da Bíblia”, para Wenin, é baseada em grandes narrativas. “A Bíblia é um mundo literário de um humano muito próximo. Para entender a grande narrativa é preciso preencher certa distancia cultural que requer esforço e cada uma delas nos oferece reflexões”, finalizou o palestrante.

Quem é André Wenin

André Wenin, SJ, nasceu em 1953, em Beaurang, e é teólogo belga. Ensina a exegese do Antigo Testamento e as línguas bíblicas (grego e hebraico bíblicos) na faculdade de teologia da Universidade Católica de Louvain, da qual foi decano de 2008 a 2012. Também professor convidado de teologia bíblica do Pentateuco na Universidade Gregoriana de Roma e secretário da Rede de Pesquisa em Análise Narrativa dos Textos Bíblicos (RRENAB).

Diplomado em filologia clássica pelas Faculdades Universitárias Notre-Dame de la Paix, em Namur (FUNDP), em 1973, obteve o título de Bacharel em teologia pela Universidade Católica de Louvain (UCL), em 1978, e de Doutor em ciências bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma, em 1988. Sua tese de doutorado intitulou-se Samuel e a instauração da monarquia (1 S 1-12), foi defendida em junho de 1987 com Summa cum Laude e publicada em 1988. Coordenou o Seminário “Tradições bíblicas” (Paul Beauchamps) no Centro Sèvres (Paris 1983-1986).

Privilegiando a análise narrativa e retórica do Antigo Testamento, suas pesquisas se dedicam principalmente a Bíblia Hebraica, em particular, ao Gênesis e aos livros dos Juízes e de Samuel. Interessa-se também pela antropologia e pela teologia dos textos bíblicos. É orientador de pesquisas nestas áreas.

É autor de extensão produção bibliográfica, da qual destacamos, em português, De Adão a Abrão. Ou as errâncias do humano (Loyola); José ou a invenção da fraternidade e O homem bíblico (Loyola).

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