“Por muitos” ou “por todos” no momento da consagração? Há quem não se renda

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Por: Jonas | 31 Janeiro 2013

A nova tradução das palavras da consagração, desejada pelo Papa, está próxima de chegar também à Itália, embora já tenham sido anunciados protestos e desobediência.

A reportagem é de Sandro Magister, publicada no sítio Chiesa, 29-01-2013. A tradução é do Cepat.

Enquanto se conclui a “recognitio” vaticana, da nova versão italiana do missal romano, o debate sobre a tradução do “pro multis”, na fórmula da consagração eucarística, registrou novos empuxos. O último tem como autor o teólogo e bispo Bruno Forte.

Num artigo publicado em “Avvenire”, no dia 19 de janeiro de 2013, Forte novamente se posicionou, decidido, pela tradução do “pro multis” como “por muitos” ao invés de “por todos”, forma como vem sendo utilizada há mais de quarenta anos na Itália e, semelhantemente, em muitos outros países.

“Por muitos” é a tradução que o próprio Bento XVI exige que se adote nas diferentes línguas, como explicou numa carta direcionada aos bispos alemães, em abril de 2012.

Efetivamente, há algum tempo a tradução “por muitos” está sendo utilizada em vários idiomas e países, sob o impulso das autoridades vaticanas e, pessoalmente, do Papa. Entretanto, ainda são registradas resistências.

Tem se destacado, por exemplo, que em Londres, em Canterbury e em outras localidades inglesas, vários sacerdotes modificam intencionalmente o “for many” da nova versão inglesa do missal, aprovada pelo Vaticano, e dizem: “for many and many”. Na Itália, a nova versão ainda não entrou em vigor, mas, para quando aqui também se tornar lei o “por muitos” – como certamente acontecerá – já foram anunciados protestos e desobediência.

Defendendo com unhas e dentes a versão “por muitos”, desejada pelo Papa, o bispo-teólogo Forte enfrentou, conscientemente, a posição que prevalece numa ampla maioria, não apenas entre os teólogos e liturgistas, mas também entre os próprios bispos italianos.

Em 2010, reunidos em assembleia geral, os bispos italianos votaram quase por unanimidade pela manutenção do “por todos” na fórmula da consagração. Nessa ocasião, segundo os atos oficiais da Conferência Episcopal Italiana, Forte também se pronunciou em favor do “por todos”.

Contudo, agora ele diz que essas suas palavras não expressavam seu verdadeiro pensamento. Forte recorda que num encontro particular anterior – apenas com a direção da Conferência Episcopal Italiana – expressou sua preferência pelo “por muitos”. E se depois, na assembleia geral, pareceu voltar à manutenção do “por todos”, foi porque colocou em primeiro plano as “dificuldades pastorais” que uma mudança de tradução ocasionaria, semeando nos fiéis o temor de que a salvação de Cristo não é oferecida, de fato, “por todos”.

Membro da Comissão Teológica Internacional, anteriormente, e ordenado bispo em 2004 pelo então cardeal Joseph Ratzinger, Forte é hoje arcebispo de Chieti-Vasto. Contudo, há anos se destaca na carreira para sedes cardinalícias de alto nível, as últimas das quais seriam Palermo e Bolonha, cujos atuais arcebispos alcançam o limite de idade em 2013. Não apenas isto. Fala-se também de uma possível nomeação dele como secretário da Congregação Vaticana para a Doutrina da Fé, em substituição do atual titular, Luis Francisco Ladaria Ferrer, destinado para uma grande diocese da Espanha. E há quem relacione estas esperadas promoções com a insistência pela qual Forte defende o “por muitos”, desejado com firmeza pelo Papa.

No entanto, voltando à polêmica sobre o “pro multis”, em seu artigo em “Avvenire”, Forte se define contrário também às traduções sugeridas, nos meses passados, por dois biblistas e liturgistas italianos, Silvio Barbaglia e Francesco Pieri, calcadas sobre a versão “pour la multitude”, em uso na Igreja da França, “por multidões imensas” ou “por uma multidão”.

Os argumentos desses dois estudiosos – ambos inicialmente favoráveis em manter a versão “por todos” – se resumiram, no verão passado, num serviço de www.chiesa que colocava em relevo sua aproximação com as posições de Bento XVI.

Apesar disso, o segundo dos dois, Francesco Pieri, sacerdote da diocese de Bolonha e docente de liturgia, de grego bíblico e de história da Igreja Primitiva, tem contestado esta interpretação. Nega querer se aproximar das posições do Papa e continua considerando “ruim” e “falsamente fiel” a versão “por muitos”. Explica que propôs a versão “por uma multidão” como única alternativa aceitável diante do já “irreversível” abandono do “por todos”, decidido pelas autoridades vaticanas.

Inclusive, na segunda das duas notas por ele publicadas sobre este assunto, em 2012, na revista “Il Regno”, Pieri foi muito além. Escreveu que os estudiosos pelos quais Bento XVI fez referência, baseando-se neles em sua carta aos bispos alemães, não apenas são “pouquíssimos”, como também não são confiáveis: “Não são exegetas de profissão e mostram, além disso, uma mentalidade abertamente tradicionalista e preconceituosa, bastante crítica no que concerne à reforma litúrgica promovida pelo Vaticano II”.

Pieri, sobretudo, concluiu a nota com uma explícita ameaça de insubordinação, endereçada com um sarcástico chamado à libertação do rito romano antigo da missa: “Devido a já anunciada tensão que se derivaria da entrada em vigor da tradução “por muitos”, não está nada distante o risco de não poucos celebrantes burlarem este obstáculo, com adaptações ou utilizando ainda a fórmula precedente. Com qual credibilidade, com qual esperança de aceitação poderia ser invocado, então, o princípio de unidade pastoral, justamente na estranha estação eclesial que fortemente vê voltar, inopinadamente, uma forma do rito romano já substituída por sua reforma e, portanto, juridicamente “ab-rogada”? Ou, ao contrário, deveríamos invocar um motu próprio que permita utilizar uma subsequente forma extraordinária do rito romano em favor de quantos consideram que não podem aceitar, em consciência, a tradução “por muitos”? Mais do que nunca, seria oportuno que os fiéis e pastores da Igreja italiana e, em particular, os teólogos e as pessoas de cultura, manifestassem com franqueza, em todas as sedes com possibilidade de alimentar o mais amplo debate público, suas reservas em relação a esta temida escolha de tradução”.

Curiosamente, esta última convocação feita aos dissidentes se tornou realidade, precisamente, na mesma página de “Avvenire” – o jornal da Conferência Episcopal Italiana –, em que Forte defendeu as razões de “por muitos”. Junto ao artigo do bispo-teólogo há, com efeito, uma intervenção de sinal contrário, assinada pelo teólogo Severino Dianich, vigário episcopal da diocese de Pisa para a pastoral da cultura e da universidade, que conclui assim:

“Nesta altura me pergunto se não é justo se preocupar com apenas uma coisa, ou seja, pela verificação de uma possível mudança nos fiéis, sobretudo, nos menos doutos, nos mais pobres, naqueles que mais acolhem as coisas com a sensibilidade do que mediante o razoamento e que, inevitavelmente, ficariam perturbados com a mudança. Se não é indispensável, por que criar problemas? Vários bispos compreenderam muito bem a questão pastoral propondo, com grande sentido comum, que tudo permaneça como antes e que as palavras importantes, que há quarenta anos ressoam em nossas igrejas e que proclamam que o sangue de Cristo foi derramado “por todos”, não sejam mudadas.

Dianich é também quem escreveu o prefácio do livro em que Pieri defendeu sua tese: F. Pieri. “Per uma moltitudine Sulla traduzione dele parole eucaristiche”, Dehoniana Libri, Bolonha, 2012.

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