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O sentido da ordenação e como as mulheres foram gradativamente excluídas. Artigo de Gary Macy

"Finalmente, no início do século 13, os canonistas e teólogos sustentaram que as mulheres jamais haviam sido e jamais poderiam ser ordenadas, pois eram física, mental e espiritualmente inferiores aos homens", aponta Gary Macy, teólogo, em artigo publicado no jornal New Catholic Reporter, 16-01-2013. A tradução é de Sander Jeanne.

Segundo Macy, "Indícios ou provas do século 4 até o 11 indicam que algumas poucas mulheres dirigiam liturgias com a aprovação de ao menos alguns bispos. O melhor exemplo sobrevivente disso é um entalhe em pedra, datado entre os séculos 4 e 6 e encontrado perto de Poitiers, na França; ele recorda que 'a sacerdotisa [presbytera] Martia [Márcia] fez a oferenda junto com Olybrius e Nepos'".

Eis o artigo.

Há dois aspectos importantes a ressaltar no desenvolvimento de papéis de liderança na igreja no período que vai do século 5 ao 13. Em primeiro lugar, a definição de ordenação mudou radicalmente durante o século 12. Em segundo lugar, as mulheres eram consideradas capazes para a ordenação até o século 13. Tendo dito isso, é importante entender o que a ordenação significava do século 5 até o 13. Só então poderemos entender o que significava ordenar mulheres durante esse período.

Durante o primeiro milênio do cristianismo, a ordenação significava eleição e instalação de uma pessoa para exercer uma função específica em uma comunidade cristã. Não só os bispos, sacerdotes, diáconos e subdiáconos, mas também os ostiários, leitores, exorcistas, acólitos, cônegos, abades, abadessas, reis, rainhas e imperatrizes eram, todos eles, tidos como ordenados igualmente. Isso faz muito sentido. Um ordo (ordem) era um grupo na igreja (ou sociedade) que tinha uma tarefa ou profissão/vocação específica. Na verdade, qualquer tarefa ou profissão/vocação era chamada de ordem, e o processo pelo qual a pessoa era escolhida e designada para essa vocação era uma ordenação.

Segundo o Cardeal Yves Congar, teólogo dominicano francês que morreu em 1995 aos 91 anos de idade, “a ordenação abrangia, ao mesmo tempo, a eleição como seu ponto de partida e a consagração como seu término. Mas, em vez de significar, como aconteceu a partir do início do século 12, a cerimônia na qual um indivíduo recebia um poder que possuía daí em diante de tal modo que nunca podia perdê-lo, as palavras ordinare, ordinari e ordinatio significavam o fato de ser designado e consagrado para assumir uma certa posição, ou melhor, uma certa função, ordo, na comunidade e a serviço dela.” A ordenação não dava a uma pessoa, por exemplo, o poder irrevogável e portável de consagrar o pão e o vinho, ou de dirigir a liturgia; antes, uma comunidade específica encarregava uma pessoa de desempenhar um papel de liderança dentro daquela comunidade (e só dentro dela), e essa pessoa dirigia a liturgia por causa do papel de liderança que ela exercia dentro da comunidade. Assim, esperava-se que qualquer líder de uma comunidade dirigisse a liturgia.

Como indica a citação de Congar, foi só nos séculos 12 e 13 que os teólogos e canonistas elaboraram, depois de debates prolongados, uma outra definição de ordenação. De acordo com essa definição – e é aquela que melhor conhecemos atualmente – a ordenação concedia à pessoa que a recebia não uma posição dentro de uma comunidade, e sim um poder que ela pode exercer em qualquer comunidade. O poder central concedido pela ordenação era o de consagrar o pão e o vinho junto ao altar, e assim, com o passar do tempo, passou-se a pensar que a ordenação só incluía as ordens que serviam junto ao altar, ou seja, as ordens de sacerdote, diácono e subdiácono.

Todas as demais ordens anteriores não eram mais consideradas ordens de modo algum.
Na esteira dessa redefinição, as mulheres foram excluídas de todas as ordens, incluindo as de sacerdote, diácono e subdiácono. Na verdade, ensinava-se e acreditava-se – o que acontece até hoje – que as mulheres jamais desempenharam qualquer um dos papéis agora limitados àquelas três ordens. Sob a definição mais antiga de ordem, entretanto, as mulheres exerciam diversos papéis litúrgicos e administrativos agora reservados aos diáconos, sacerdotes e bispos. Indícios ou provas do século 4 até o 11 indicam que algumas poucas mulheres dirigiam liturgias com a aprovação de ao menos alguns bispos. O melhor exemplo sobrevivente disso é um entalhe em pedra, datado entre os séculos 4 e 6 e encontrado perto de Poitiers, na França; ele recorda que “a sacerdotisa [presbytera] Martia [Márcia] fez a oferenda junto com Olybrius e Nepos”. Os pesquisadores que estudaram esse entalhe  concordam que essa inscrição se refere a Martia como ministra que celebrou a Eucaristia junto com dois homens, Olybrius e Nepos.  A continuidade dessa prática é atestada em uma carta de 494 do Papa Gelásio I que admoestava os bispos que confirmavam mulheres para servir junto ao altar. O Papa Zacarias também condenou a prática de permitir que mulheres servissem junto ao altar. Em 829, o Concílio de Paris deixou extremamente claro que eram os bispos que estavam permitindo a mulheres servirem junto ao altar. Mulheres certamente distribuíam a comunhão nos séculos 10, 11 e talvez 12. Existem textos para esses serviços em dois manuscritos dessa época.

Tudo isso mudou ao longo de um período de cerca de um século entre o fim do século 11 e o início do 13. Por muitas e diferentes razões culturais, as mulheres foram gradativamente excluídas da ordenação. Em primeiro lugar, muitos papéis na igreja deixaram de ser tidos como ordenados – os mais importantes foram os de abade e abadessa. Mulheres poderosas nas ordens religiosas passaram de ordenadas a leigas. Em segundo lugar, os canonistas e depois os teólogos começaram a debater se as mulheres podiam ser ordenadas para o sacerdócio ou diaconato. Vários canonistas sustentaram, por exemplo, que no passado as mulheres haviam sido ordenadas para o diaconato, mas não o eram mais. Por volta do fim do século 12, apresentaram-se argumentos de que as mulheres nunca tinha sido “realmente” ordenadas, a despeito das referências em contrário existentes no direito canônico. Finalmente, no início do século 13, os canonistas e teólogos sustentaram que as mulheres jamais haviam sido e jamais poderiam ser ordenadas, pois eram física, mental e espiritualmente inferiores aos homens. Um teólogo franciscano, Duns Escoto (1266-1308), adotou uma abordagem diferente. Segundo ele, as mulheres eram iguais aos homens em todos os sentidos, mas, visto que Jesus nunca tinha ordenado mulheres, a igreja não podia fazê-lo. Esta é, naturalmente, a posição do Magistério até o presente.

Pouco mudou, portanto, na teologia da ordenação desde o século 13, quando teve início a solidificação da estrutura de igreja que temos atualmente. O ensinamento oficial sobre a ordenação de mulheres data de mais ou menos um século depois disso.

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