'Partidos enfrentam dilema geracional'

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29 Outubro 2012

A cientista política Maria Celina D'Araújo, professora da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio, avalia que a eleição deste ano deixou à mostra o maior desafio dos partidos brasileiros para os próximos embates: o rejuvenescimento de seus quadros. Ela diz que PT e PSDB já perceberam o dilema, mas enfrentam dificuldades para realizar a transição. Elas decorrem da ausência de jovens lideranças com brilho próprio e também do autoritarismo dos velhos líderes, segundo a professora, que é autora dos livros A Elite Dirigente do Governo Lula e Militares, Democracia e Desenvolvimento - Brasil e América do Sul, entre outros.

A entrevista é de Roldão Arruda e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 28-10-2012.

Eis a entrevista.

O que mais chamou sua atenção nas eleições deste ano?

O fato de o PT e o PSDB estarem com suas classes dirigentes envelhecidas e à procura de novas lideranças, tanto no plano nacional quanto nas disputas eleitorais nas principais capitais. Esses dois partidos vivem uma dificuldade geracional. Precisam resolver um problema de gerontocracia. Se você olhar para 2014, verá que o PSDB aposta no Aécio Neves exatamente com essa ideia de renovação dos quadros.

E o PT?

Deve continuar com a Dilma, defendendo a ideia de que não se mexe em time que está dando certo. No fundo, os dois partidos já começaram a jogar com a lógica de que é preciso renovar, mas conciliando o novo e o antigo.

Sob essa perspectiva, como viu a disputa em São Paulo?

O PSDB preferiu apostar na experiência, enquanto o PT investiu no novo. De um lado ficou o José Serra, com a biografia de uma pessoa realizadora, que fez coisas importantes como ministro, governador e prefeito. Ele tem uma biografia respeitável e o eleitor deve pensar: esse cara faz. No PT, o ex-presidente Lula percebeu a necessidade de renovação e investiu no ex-ministro Fernando Haddad. Diante de um nome novo, o eleitor é tentado pela ideia de oxigenação política e de circulação das elites no poder. O Haddad, para o eleitor que não pensa em política partidária stricto sensu, significa oxigenação política. Embora more no Rio, eu acompanhei a propaganda política em São Paulo, e vi que o embate principal foi sempre entre boa governança e renovação de quadros.

Isso significa que Lula percebeu antes essa necessidade de renovação dos quadros?

Do ponto de vista local, sim. Foi por isso que rifou lideranças tradicionais, como Marta Suplicy e o Aloizio Mercadante, e apostou no novo. No plano nacional, porém, o PSDB já percebeu a mesma coisa há algum tempo, daí a aposta no Aécio. Não se pode deixar de mencionar que é nesse mesmo cenário que o nome de Eduardo Campos, do PSB, começa a ser citado como novidade.

A busca de novidade pode gerar fenômenos como o Celso Russomanno, do PRB?

O Russomanno não estava comprometido com nenhuma estrutura partidária e o eleitorado paulistano não parece ter chegado a esse limite, no qual todas as fichas são jogadas num completo desconhecido. É inegável, porém, que o maior dilema desse eleitorado foi apostar no novo ou naquilo que já conhece. Nós, cientistas políticos, adoramos essas decisões dilemáticas.

Qual a maior dificuldade na condução dessa transição?

Os quadros novos não estão surgindo com luz própria, não são líderes de geração espontânea. A garotada nova tem que entrar ungida por algum padrinho, como o Lula, o Michel Temer ou algum outro nome da gerontocracia política. São os velhos que apontam os novos líderes, o que é patético.

A senhora parece dar muita ênfase à questão geracional.


Nenhuma democracia pode se considerar consolidada e acabada. Elas precisam evoluir sempre. No nosso caso, para avançar e obter maior estabilidade, é necessário superar essa questão. Ao derrotarmos a ditadura, nós vencemos os autoritários da direita, os generais que mandavam e que hoje estão de pijama, mas o espectro político que surgiu a partir dali também tem um viés autoritário. A gente precisa vencer essa linha do tempo. A geração que combateu a ditadura não pode continuar achando o tempo todo que está com a razão, que deve dar a última palavra.

De maneira mais ampla, como vê a ação dos partidos?

Se você deixar de lado a disputa entre PT e PSDB em São Paulo, que é também uma disputa de egos, no resto do Brasil não se vê autoestima partidária. Nenhuma. No Rio, o Eduardo Paes, do PMDB, venceu com uma coligação que incluía quase todos os partidos. Em Curitiba, o PT está apoiando o Gustavo Fruet, filiado ao PDT, cuja propaganda o apresenta como um homem corajoso por ter combatido o mensalão, que é petista.

Essa não seria uma característica típica de um sistema com tantos partidos?


As alianças às quais me referi não são espúrias, nem anacrônicas. Fazem parte da construção democrática, da disputa de interesses de grupos. O nosso sistema, que é mesmo pluripartidário e fragmentado, dá margem a vários tipos de composições locais, muitas delas antagônicas às composições seladas no nível nacional. Aos poucos, as camadas sedimentares devem se acomodar, mas no momento a lógica predominante, tanto no PT quanto no PSDB ou no PSB, é fazer alianças para ganhar.

Qual deve ser a repercussão do resultado eleitoral na capital paulista?

São Paulo é o berço de tucanos e petistas. Também é o berço do mensalão e de carreiras políticas como as de José Dirceu e José Genoino. É o lugar onde duelariam os egos de Lula e de Fernando Henrique Cardoso. Por outro lado, também é a maior cidade brasileira, o terceiro maior orçamento do País, enfim, a cereja do bolo, a joia da rainha. É preciso olhar essas coisas para entender a batalha que se trava ali. Para Lula, a vitória em São Paulo tornou-se uma questão de honra, daí o fato de ter negociado tudo, de ter feito alianças contraditórias, ter aberto mão de candidaturas próprias em outros lugares. Na minha avaliação trata-se de uma visão reducionista da política.

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