O Concílio Vaticano II nas confidências do Papa João XXIII

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Por: Jonas | 25 Outubro 2012

A revista “Civiltà Cattolica” publica os diários do padre Roberto Tucci [hoje cardeal] (foto), seu diretor nessa época. Eis aqui o relato das cinco conversas que teve com o papa que convocou o Vaticano II.

A reportagem é de Sandro Magister, publicada no sítio Chiesa, 23-10-2012. A tradução é do Cepat.

Há poucos dias, a documentação sobre o Concílio Vaticano II foi enriquecida com um novo texto, de notável valor, e inédito até esta segunda-feira. Trata-se de algumas partes dos diários do cardeal Roberto Tucci, nessa época diretor da revista “Civiltà Cattolica”.

Foi precisamente esta revista dos jesuítas de Roma que, baseando-se em tais diários, abriu seu último número com o resumo dos cinco colóquios que Tucci teve com o Papa João XXIII, entre 1959 e 1962, isto é, entre o anúncio e o início do Vaticano II.

A “Civiltà Cattolica” é uma revista muito especial. Antes de seus artigos serem publicados, são controlados pelas autoridades vaticanas, que algumas vezes os aprovam, outras os modificam e outras, ao contrário, os descartam.

No período de Pio XII, era o próprio Papa quem revisava os artigos. João XXIII passou esta tarefa ao seu secretário de Estado. Contudo, continuou se reunindo com o diretor da revista, que, após cada conversa, escrevia a esse respeito em seu diário. Portanto, graças ao diário de padre Tucci, contamos com uma descrição muito próxima de como João XXIII se preparou para o Concílio convocado por ele mesmo.

Confirmou-se, por exemplo, a surpresa do papa com o silêncio que lhe cercou após anunciar o Concílio, em 1959, aos cardeais reunidos na Basílica de São Paulo Extramuros: “Fez a proposta, pediu que lhe dissessem francamente sua opinião, e ninguém falou”.

A respeito de outros momentos de preparação do papa para o Concílio, o diário de Tucci conta com algum ponto inesperado. Por exemplo, parece que a ideia da viagem de trem, feita por João XXIII para Loreto, no intuito de invocar a proteção da Virgem para a assembleia, surgiu por cálculos políticos: “A respeito de sua viagem a Loreto, o Papa disse que tinha que fazê-la para agradar o ministro de fomento, que havia investido muito nessa área, e para favorecer a oportunidade de um encontro com o presidente Gronchi: este queria encontrar uma forma para que o Papa fosse ao Quirinal”.

Também impressionaram as bruscas palavras de João XXIII contra “o mal sutil” da Cúria, uma mistura de afã de êxito e nepotismo, como também o seu sofrimento pela ostentação do vaticano.

Uma causa de profunda irritação para o Papa João eram aqueles que foram definidos por ele como “profetas de desventura”, no memorável discurso com o qual abriu o Concílio. Contudo, há muito mais nos fragmentos do diário de seu diretor daqueles anos, fatos tornados públicos pela revista “Civiltà Cattolica”, em seu número do dia 20 de outubro de 2012. Abaixo, segue a continuação de algumas passagens importantes do artigo.

O papa João e o Concílio no diário do cardeal Tucci, por Giovanni Sale

Através do diário do diretor de “Civiltà Cattolica” da época, padre Roberto Tucci, atualmente cardeal, que em razão de seu cargo foi recebido várias vezes em audiência por João XXIII, é possível confirmar, durante os três anos que durou a preparação do acontecimento, os temas que mais importavam o papa e as estratégias que realizou para dar um maior impulso ao futuro Concílio. [...]

A primeira audiência aconteceu imediatamente após a nomeação do padre Tucci, como diretor da revista romana dos jesuítas. O encontro ocorreu em Castel Gandolfo, no dia 12 de setembro de 1959. A respeito disto, anotava o diretor: “Uma impressionante simplicidade e afabilidade que elimina qualquer sensação de coibição, e comove. Acolheu-me na porta e voltou a me acompanhou quase até a soleira”. O Papa, indo além do protocolo, tinha ido ao encontro do jovem padre Tucci, que nessa época tinha 38 anos, e, permanecendo de pé, havia dialogado amavelmente com ele: maravilhou-se do jovem que era, falou-lhe dos jesuítas que havia conhecido e da obra que ele mesmo tinha escrito sobre as visitas que, em seu tempo, São Carlos Borromeo fez à diocese de Bérgamo.

Quase finalizando a audiência, escreve o jesuíta, o Papa “voltou a falar da seriedade e segurança doutrinal de nosso periódico, e mencionou o fato de que os bons padres jesuítas franceses de ‘Études’ também tinham deixado se influenciar um pouco pelo movimento de ideias inovadoras, quando era núncio em Paris. Menciona uma espécie de neomodernismo que às vezes, ‘pelo que me dizem’, é também introduzido no ensino eclesiástico: tudo se converte em problema e os jovens acabam questionando tudo”.

O papa fazia referência aos teólogos da “nouvelle théologie” condenada em Roma, nesses anos, e vista com suspeita em alguns ambientes católicos. De fato, muitos desses teólogos eram jesuítas: entre eles estavam os padres Lubac, Daniélou, Teilhard de Chardin, Rahner e outros. Ao contrário de seus colegas romanos da “Civiltà Cattolica”, os escritores da revista jesuíta parisiense sustentavam com entusiasmo esta corrente “novatrice”. [...]

A audiência seguinte, que ocorreu cinco meses depois, ou seja, no dia primeiro de fevereiro de 1960, foi muito importante: nela o Papa falou longamente sobre o futuro Concílio. [...]

“Mostrou claramente – registrava o diretor de “Civiltà Cattolica” – que ele vê o Concílio ecumênico em conexão com o problema da reunião com, ao menos, as Igrejas orientais separadas. Não se cria ilusões, mas se constata que o clima espiritual melhorou muito, desde os dias de Leão XIII [...]. Falam-me para ficar atento, mas, como posso responder duramente a quem se dirige a mim de maneira tão amigável? Contudo, eu sempre tenho uma fresta de meus olhos aberta, para não deixar-me enganar”.

Imediatamente depois, o Papa falou da necessidade de atualizar a linguagem da teologia e a doutrina católica formulada ao longo dos séculos: “Na continuidade – segue o diretor – faz uma distinção bastante explícita entre o dogma propriamente dito, mistérios que é preciso aceitar humildemente, e as explicações teológicas”. [...] Disse, além disso, que era necessário falar do inferno aos fiéis, no entanto, ressaltando “que o Senhor será bom com tantos”. Também acrescentou, em tom de brincadeira: “Certamente, todos podemos ir, mas digo a mim mesmo: Senhor, não permitirá que vá o seu vigário, não?” [...]

Na audiência do dia 7 de junho de 1960, João XXIII se entreteve falando com o diretor da “Civiltà Cattolica” sobre a preparação do Concílio. Nessa data, a fase antepreparatória já estava concluída, e o papa já tinha nomeado as comissões encarregadas de redigir os esquemas que iria levar ao Concílio.

“O Papa tem a intenção – escrevia o padre Tucci – de envolver não apenas a Cúria Romana no esforço de preparação, mas toda a Igreja. Observa que muitas vezes, no exterior, as pessoas olham para a Cúria Romana como se a Igreja estivesse toda nas mãos dos ‘romanos’; há também tantas belas energias em outros lugares, por que não tentar envolvê-las?” [...]

“[O Papa] admite – escrevia o jesuíta – que existiu certa resistência por parte dos cardeais [da Cúria] e que ele, por outro lado, não quer atuar sem eles, porque estão ao seu lado justamente para lhe ajudar no governo da Igreja. Prevê que agora começará uma luta bastante tenaz, porque os cardeais têm seus próprios secretários ou seus protegidos, que buscarão situar nas comissões e, certamente, não por motivos sobrenaturais [...]. É o mal sutil da Cúria Romana: as prelazias, as ascensões [...]. No entanto, ele também tende a aproveitar os estrangeiros, por isso, pediu a todos os bispos e núncios que redijam algumas listas com os nomes de pessoas adequadas para este trabalho”. A Igreja – concluía o Papa – de alguma maneira deve se adaptar aos tempos, e da mesma forma a Cúria Romana e a Corte Pontifícia também devem proceder.

Também mencionava sua condição de “prisioneiro de luxo” no Vaticano e o excesso de pompa e cerimonial que rodeiam a sua pessoa. “Não tenho nada contra estes bons guardiões nobres – confiou o pontífice -, mas tantas reverências, tanta formalidade, tanta pompa, tanta procissão me fazem sofrer, acreditem em mim. Quando [na basílica] me vejo precedido por tantas guardas, sinto-me como um detido, um malfeitor; ao contrário, desejaria ser o “bom pastor” para todos, ficando próximo das pessoas [...] O Papa não é um soberano deste mundo”. Fala sobre como, inicialmente, incomodava-lhe ser levado na “sedia gestatória” [cadeira] através das salas, antecedido por cardeais muitas vezes mais anciãos e decrépitos do que ele (acrescentando, além disso, que nem sequer era muito segura, porque no fundo sempre se balança um pouco sobre ela)”. [...]

Na audiência do dia 30 de dezembro de 1961, João XXIII expressou ao diretor da “Civiltà Cattolica” seu pesar e descontentamento por um artigo que o Santo Ofício havia encarregado ao padre Antonio Messineo contra Giorgio La Pira, por conta de suas posições em matéria política, consideradas demasiadas indulgentes ou ingenuamente otimistas a respeito da esquerda. “Não se escreve desta maneira sobre um católico praticante e com justas intenções - disse o Papa ao padre Tucci -, mesmo que esteja um pouco louco e, às vezes, possua ideias que não estão bem fundamentadas doutrinalmente”. [...]

Nesta mesma audiência, o Papa também falou sobre a situação política e a necessidade de que a Igreja abandonasse os velhos esquemas de contraposição ideológica, e trabalhasse para a reconciliação dos homens.

Lamentou-se das críticas que eram lhe dirigidas, em alguns ambientes eclesiásticos, por ter respondido a mensagem de felicitação enviada pelo presidente da União Soviética, Nikita Krusciov, e acrescentou: “O Papa não é um ingênuo, sabia muito bem que o gesto de Krusciov estava motivado por fins políticos de propaganda; mas não responder seria um ato de indelicadeza injustificada. A resposta, no entanto, estava calibrada. O Santo Padre se deixa guiar pelo sentido comum e o sentido pastoral”. [...] Além disso, o Papa se queixou de que alguns detratores o acusavam de “espírito conciliatório” e disse que jamais tinha se “separado, nem sequer minimamente, da sã doutrina católica” e que quem o acusava, deveria apresentar as provas. “Incomodam-lhe também – registrava o padre Tucci – os ‘tipos zelotas’, que querem sempre atacar. Sempre existiram na Igreja, e continuarão existindo, e necessita-se paciência e silêncio!” [...]

Falando sobre a política italiana, o Papa deu indicações muito precisas e difíceis para o diretor da “Civiltà Cattolica”. “O Papa deseja - escrevia padre Tucci - uma linha de menor compromisso nas questões da política italiana”. [...]

O Papa também disse de forma tranquila, mas decididamente, que não apreciava muito o espírito militante, intransigente da revista e pediu que se adaptasse, tanto no estilo como nos conteúdos, aos novos tempos. Citando um comentário de um amigo seu, disse: “Os bons padres da ‘Civiltà Cattolica” por qualquer coisa choram e choram! E o que conseguiram?”[...] “É necessário ver o bem e o mal - comentou - e não ser sempre pessimistas sobre qualquer coisa”. [...]

Nos últimos meses, antes do final da longa fase preparatória, João XXIII esteve ocupado lendo com grande atenção os esquemas redigidos pelas comissões, antes que fossem enviados aos padres conciliares. [...] João XXIII, não muito satisfeito com esses esquemas, falou disto ao diretor da “Civiltà Cattolica”, na audiência do dia 27 de julho de 1962.

O Papa, registrou o padre Tucci, “falou-me da revisão que está fazendo dos textos conciliares. [...] Ensinou-me algumas de suas notas à margem dos mesmos: [entre outras] as de um texto em que, numa página e meia, enumeram-se apenas erros, observando que seria necessário menos dureza. Disse-me também que teve que explicitar que era sua intenção revisar os textos, antes que fossem enviados aos bispos. Porém, inicialmente não havia levado-lhes em conta, razão pela qual alguns textos já haviam sido enviados sem que ele os tivessem visto”. [...]

Voltando ao âmbito político, lembremos que nessa época, entre os católicos italianos, como também entre os próprios líderes da Democracia Cristã, havia um debate sobre a necessidade ou não de aceitar a colaboração dos socialistas de Nenni, no governo. Tal perspectiva [...] era muito criticada pelo presidente da Conferência Episcopal Italiana, o cardeal Giuseppe Siri, e também por muitos prelados da Cúria Romana. Em primeiro lugar, pelo [cardeal Alfredo Ottaviani] pró-secretário do Santo Ofício. A administração estadunidense acompanhava a questão com grande apreensão, e pressionava o próprio embaixador na Itália para que fizesse o possível para impedir o alargamento do conjunto do governo à esquerda. Naquele tempo, muitos católicos consideravam que do ponto de vista ideológico e político, entre a posição dos socialistas e a dos comunistas na prática não havia na prática muita diferença, sendo assim, aceitar a colaboração dos primeiros significava implicitamente acolher também os segundos.

“É preciso estar muito atentos – aferia o Papa ao padre Tucci – porque hoje os políticos, também os democrata-cristãos, tentam tirar da Igreja para sua própria parte e acabam utilizando-a para finalidades nem sempre altíssimas. [...] Eu não entendo disto, mas francamente não compreendo porque não se pode aceitar a colaboração de outros que tem uma ideologia diferente, para fazer coisas boas em si mesmas, sempre que não se abdique da doutrina”.

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