A causalidade de Deus e a causalidade do mundo. Roger Haight debate o Deus de “dentro” da história

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06 Outubro 2012

Refletir sobre a semântica do Mistério da Igreja hoje em uma abordagem cristológica compôs o central da proposta do teólogo jesuíta Roger Haight em sua conferência da manhã desta sexta-feira, 05-10-2012. Logo de início, afirmou que a ciência não é inimiga da fé cristã, mas sua amiga. “A ciência ajuda a religião a esclarecer a realidade”. A atividade é parte do XIII Simpósio Internacional IHU Igreja, cultura e sociedade. A semântica do Mistério da Igreja no contexto das novas gramáticas da civilização tecnocientífica.

Ele abordou cinco desafios científicos para a fé e a espiritualidade cristã em tempos de tecnociência. O primeiro deles enfatizou a relação entre Big Bang, evolução e intervenção divina. Segundo Haight, o primeiro “choque” acontece entre o Deus que age livremente no mundo, e a ciência que não admite isso. Deus é chamado de Pai, traduzido por nossa imaginação por uma pessoa a quem dirigimos oração. A ciência apresenta outro cenário. A idade e dimensão do universo proposto pela ciência proíbem que se fale de Deus como uma pessoa, ponderou.

A reportagem é de Márcia Junges.

O segundo desafio é a relação entre aleatoriedade e propósito ou finalidade. Os cristãos pensam o universo criado por um propósito e vontade específicos. Em contraposição, a ciência apresenta um universo em movimento constante. A realidade não é estática. A mudança é sua condição padrão e a criação ainda está produzindo novas formas de ser no universo.  Esse é um sistema aberto, apontou Haight (foto).

Em terceiro lugar, o jesuíta mencionou o debate entre evolução e pecado original. A evolução implica ligação da espécie humana com o universo e da vida emergente. Isso inclui a luta violenta das formas de vida para se apegar à existência. A consciência evolutiva e a evolução da humanidade excluem um pecado original concebido com acontecimento ou queda. O que aparecia como momento definidor no relato cristão é retratado pela ciência como tendência humana natural.  É assim que ela aparece à luz da evolução. O pecado original é metáfora do egoísmo humano e dos danos que causa na luta pela vida.

Em quarto lugar, Haight falou sobre Jesus e outros salvadores, mencionando que a ciência trouxe novo desafio para a doutrina básica de uma única encarnação. A ciência está sugerindo mais do que uma encarnação como algo provável. O sentido da encarnação figurou como o quinto desafio exposto por Haight. “A fé cristã caracteriza Jesus como presença divina que ocorreu uma vez, apenas. Como podemos falar de encarnação de forma inteligível?”, perguntou.

Seguindo Jesus

Num segundo momento de sua fala, Haight discorreu sobre a espiritualidade do seguimento de Jesus, dividindo o assunto em cinco pontos fundamentais:

1. A espiritualidade é um modo de vida diante da transcendência.

2. A espiritualidade cristã se fundamenta em um seguimento de Jesus.

3. Essa espiritualidade reflete o contexto histórico em que existe. Há níveis ou andares diferentes na fé cristã. O térreo é a espiritualidade do seguimento de Jesus. Isso é o que define a fé em Deus como fé cristã, a saber, o fato de que ela está baseada em Jesus de Nazaré e é moldada por ele. À medida que subimos os andares do prédio nos deparamos com diferenças. São crenças diferentes e formas, além de ênfase em valores éticos e modelos de culto na forma de seguir Jesus. O que realmente une os cristãos ao longo dos séculos não é o mesmo conjunto de palavras ou práticas, mas a mesma estrutura básica da espiritualidade que define uma pessoa ou grupo como cristão. A orientação fundamental na vida é plasmada e modelada por Jesus de Nazaré.

4. A espiritualidade cristã absorve a cultura científica, e não a refuta.

5. A espiritualidade cristã fornece a base para entender a Cristo em uma era científica.


Um Deus “dentro” da história

O terceiro grande momento da conferência de Roger Haight analisou o seguimento de Jesus numa era científica ou tecnológica. A cultura científica está dentro da lógica espiritual de seguimento de Jesus, observou. Em cinco subdivisões, o jesuíta explicou como se dá esse seguimento ao Crucificado em nosso tempo:

1. O reconhecimento da imanência de Deus

Deus não é uma entidade como outras, mas algo como um Verbo, uma ação contínua, na qual tudo o mais participa de acordo com sua própria individualidade. Deus não intervém na história, porque ele é o “dentro” da história. Para entender como Deus atua, temos que ter consciência que a causalidade de Deus é diferente da causalidade mundana. Agentes finitos na esfera da realidade criada causam o que acontece nesse mundo. Deus, pelo contrário, é o “dentro” de toda realidade que sustenta o sistema e os acontecimentos do mundo. As coisas acontecem por causa finita, que atua dentro de sua esfera.  Como se pode apreciar ou valorizar isso em termos religiosos?

2. Convivendo com a aleatoriedade

Não é preciso que cada acontecimento seja programado. Ao longo do tempo ou dentro dele pode-se perceber direção em relação à complexidade da vida. O futuro é imprevisível, mas se olharmos para trás percebemos certa direcionalidade para que aparecesse a espécie humana. A criatividade contínua de Deus não age contra a aleatoriedade. A aleatoriedade não exclui o propósito ou finalidade. Apesar da lógica aparentemente cruel da evolução, tem-se esperança de um sentido coerente que tem um caráter salvador num futuro absoluto.

3. A reorganização do relato cristão

A existência humana parece presa numa rede de pecado, observou Haight. Reconhecer a evolução em relação ao pecado contribui para dois aspectos da existência humana. Salvação não é salvar passado ou salvar um estado idealizado do ser. Os seres humanos têm papel consciente e deliberado para desempenhar nesse projeto.

4. A relevância universal de Jesus dentro do pluralismo religioso

A ciência dá acesso ao horizonte cósmico, o que torna difícil que se sustente uma concepção antropocêntrica ou cristocêntrica da realidade. “É difícil ser cristocêntrico nos dias de hoje”, admitiu Haight. O pensamento cósmico desloca a perspectiva cristã do cristocentrismo para o teocentrismo. A criação a partir do nada (ex nihillo) implica a presença de Deus dentro de toda a realidade.

5. Uma nova concepção de encarnação

Não deveríamos conceber a encarnação nos termos imaginários dos quadros de uma história em quadrinhos, ironizou o palestrante. Algo como se Deus estivesse lá em cima, descesse e voltasse para cima. A encarnação se refere a Deus como um “dentro” de todas as coisas. Deus como o poder e amor que sustenta o próprio ser finito. Deus não intervém na realidade criada porque como reconhece a espiritualidade cristã. Karl Rahner opera com essa ideia, de que Deus como criador contínuo sustenta a evolução. O espírito de Deus pode ser entendido como poder divino imanente, que possibilita a evolução dando à criação a capacidade de transcender-se em outras espécies. O sopro de Deus sopra vida para dentro de todo processo emergente. A ideia de encarnação deveria ser expandida.

Encerrando seu raciocínio, Haight pergunta que diferença faz essa espécie de reflexão faz para a comunidade cristã. Há uma função e relevância dupla, pontua. Entabular essa discussão faz com que percamos a postura ingênua antropomorfórica de Deus. Em segundo lugar, se entramos nessa discussão, tais análises podem abrir a imaginação num modo receptivo que entende o mundo e nós dentro dele, de forma positiva. Isso pode energizar continuamente nossa realidade. Uma visão criticamente sensível terá poder mais profundo e duradouro.

Quem é Roger Haight

Roger Haight
é ex-presidente da Sociedade Teológica Católica dos EUA e professor visitante no Union Theological Seminary, em Nova Iorque, uma tradicional casa de formação de teólogos fundada em 1836 como uma instituição presbiteriana e onde estudaram grandes nomes da teologia mundial. Foi professor de teologia por mais de 30 anos em escolas da Companhia de Jesus em Manila, Chicago, Toronto e Cambridge. Foi professor visitante em Lima, Nairóbi, Paris e em Pune (Índia). De sua produção bibliográfica, citamos: Jesus, símbolo de Deus (São Paulo: Paulinas, 1999); Dinâmica da teologia (São Paulo: Paulinas, 1990) e O futuro da cristologia (São Paulo: Paulinas, 2005).

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