Martini, o homem que podia ser papa. Artigo de Marco Politi

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03 Setembro 2012

Paladino dos direitos civis, Martini não dividia o mundo entre crentes e não crentes, mas sim entre pensantes e não pensantes. Irritava a hierarquia eclesiástica com as suas opiniões sobre o testamento biológico, as relações homossexuais, a fecundação artificial. Antes, Wojtyla o lançou, depois o redimensionou: não lhe agradava essa tranquila carga reformista.

A opinião é do jornalista italiano Marco Politi, especialista em assuntos eclesiais, em artigo publicado no jornal Il Fatto Quotidiano, 01-09-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O homem, que poderia ter se tornado papa, não dividia o mundo em crentes e não crentes, mas sim entre pensantes e não pensantes. Ele tinha o dom da inteligência, da fé, da humildade e a  coragem da busca. Enraizado na Bíblia e ao mesmo tempo sensível aos valores da modernidade, ele exortava os fiéis a se medir com a "liberdade individual e social, a democracia, a autonomia da busca como liberdade da inteligência individual". Houve um tempo, contava, em que havia sonhado com uma "Igreja na pobreza e na humildade, que não depende dos poderes deste mundo. Uma Igreja que dá espaço às pessoas que pensam mais além. Uma Igreja que dá coragem, especialmente a quem se sente pequeno ou pecador. Uma Igreja jovem".

Hoje, confessava depois de ter ultrapassados os 80 anos, "eu não tenho mais esses sonhos... Decidi rezar pela Igreja". A Deus, pediu para não ser deixado sozinho. A Jesus, gostaria de perguntar no momento da passagem "se ele me ama, apesar das minhas fraquezas e dos meus erros e se virá me buscar na morte, se me acolherá".

Ele morreu recusando a obstinação terapêutica, rejeitando a ideia de um corpo mantido artificialmente em existência pela tecnologia. Por outro lado, com o cirurgião católico e parlamentar do Partido Democrático Ignazio Marino, o cardeal havia abordado o tema delicado da morte não procurada, mas aceita naturalmente como rejeição do domínio da máquina sobre o corpo. Casos como o de Welby, advertiu, serão cada vez mais frequentes e será preciso refletir sobre como tratá-los.

Quer se tratasse do testamento biológico ou da compreensão sobre as relações homossexuais – ele admitia o "valor de uma amizade duradoura e fiel entre duas pessoas do mesmo sexo" –, quer se tratasse de uma nova abordagem à inseminação artificial ou do papel das mulheres na Igreja ou dos casais de fato ou da colegialidade como expressão da participação dos bispos do mundo no governo da Igreja universal, Martini irritava frequentemente a hierarquia oficial com as suas intervenções pensadas e, portanto, incômodas.

Ele poderia ter se tornado pontífice pelas suas qualidades e pelo vasto crédito de que gozava no mundo católico e entre as Igrejas cristãs. Um crédito que ia muito além das fronteiras confessionais, favorecido pela grande estima que também tinham por ele judeus e muçulmanos e não crentes. Mas no conclave de 2005 Martini chegou já curvado pelo Parkinson, e a Igreja Católica não podia se permitir dois pontífices doentes seguidos. Em todo caso, Martini parecia ser reformista demais para um conclave, que estava se orientando em uma linha de defesa identitária do catolicismo. Não teria tido os votos necessários. Assim, no fim, convidou seus seguidores a votar em Joseph Ratzinger.

Homem da Igreja, o purpurado foi, de maneira "secular", extremamente participante das convulsões italianas. Politicamente, nos anos do berlusconismo triunfante, não se poderá esquecer a sua tácita mas clara contraposição com a linha de ativismo político do cardeal Camillo Ruini, então presidente da Conferência dos Bispos da Itália. Ele não gostava do clericalismo como cobertura para facções políticas.

O arcebispo de Milão tinha o costume de intervir periodicamente e com grande insistência sobre os temas da legalidade, da justiça e da democracia ameaçada pelos interesses privados, perorando a causa de uma política para o bem comum. Contra o leguismo insolente [referente ao movimento da Liga Norte], ele falava de respeito e de acolhida aos imigrantes. Contra a tendência de despedaçar o país, ele falava de solidariedade. Os seus discursos para a festa de Santo Ambrósio eram o sinal de alarme contra a degradação do país. Do "Mãos Limpas", evento que explodiu na sua diocese, ele dizia que havia ensinado que a "desonestidade nunca vale a pena. Antes ou depois, chega-se a uma explosão. Todas as formas de apropriação do bem público, cobertas ou sutis, não podem durar muito tempo".

João Paulo II o havia lançado, levando o estudioso biblista a assumir, 1979, ao cargo difícil de arcebispo de Milão e fazendo-o cardeal em 1983. João Paulo II o redimensionou. Wojtyla não gostava da tranquila carga reformista de Martini, a quem estimava, no entanto. Wojtyla não aceitava que a visão de Igreja, da qual Martini era tenaz portador, pudesse se tornar um modelo alternativo à sua linha.

Por isso, quando o arcebispo de Milão tornou-se influente demais como presidente do Conselho das Conferências episcopais (católicas) europeias, João Paulo II fez mudar o status da organização, impondo que só o presidente de um episcopado nacional pudesse liderá-la. Assim, Martini teve que deixar o posto em 1993. Mas o cardeal não era personalidade de se desencorajar.

Em 1999 – durante o Sínodo internacional dos bispos convocado por Wojtyla para analisar a Europa após a queda do Muro de Berlim –, o arcebispo de Milão surpreendeu os seus coirmãos evocando um "sonho". O sonho de um novo Concílio, que tivesse a coragem de discutir problemas mais espinhosos: "A eclesiologia de comunhão do Vaticano II", a carência já dramática de sacerdotes, a posição da mulher na sociedade e na Igreja, a participação dos leigos em algumas responsabilidades ministeriais, o tema da sexualidade, a disciplina católica do matrimônio, o ecumenismo e as relações com as "Igrejas irmãs da Ortodoxia".

Uma agenda crucial, que o Papa Wojtyla e o Papa Ratzinger, hoje, nunca quiseram enfrentar.

Alguns anos antes, referindo-se expressamente à encíclica de João Paulo II Ut unum sint sobre o repensamento da função dos pontífices, o cardeal havia proposto que se "remodelasse" em sentido ecumênico o primado papal à luz das autonomias das diversas Igrejas cristãs. "Poder-se-ia – disse-me em uma conversa – iniciar de um modo simples. Com uma consulta de todas as comunidades cristãs convocadas pelo papa... Uma mesa em que se abordem os grandes problemas da humanidade para encontrar uma linha de ação a serviço do ser humano".

Martini era uma mina de ideias reformadoras. Ou, melhor, tinha a coragem de expressar o que muitos no mundo católico pensam às escondidas ou envolvem em escritos especializados. Mas ele não era um exibicionista do reformismo. Estava profundamente convicto do valor essencial da oração, do estudo, da meditação. Em Milão, criou a "Cátedra dos Não Crentes" para dialogar com a cultura contemporânea, mas também instituiu um dia da semana na catedral dedicado ao "silêncio", para que os jovens da era da conversa à toa aprendessem a mergulhar em seu próprio íntimo. Via mestra para encontrar Deus

Dos seus muitos escritos e discursos, permanece viva a ideia de um Concílio fecundo de novas reformas. E que o fato cristão não se mede no seu sucesso de massa, mas sim na capacidade de testemunho. "A pergunta é: vivemos autenticamente o Evangelho?". Pensativamente, ele gostava de sublinhar: "Você não pode tornar Deus católico... Certamente, as pessoas precisam de regras e de limites... Mas Deus tem o coração sempre maior".

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