Marte está perto. A África, longe

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17 Agosto 2012

Campos em ruínas pelas rachaduras: não chove. Cidades em emergência com regulamentos que embaraçam a privacidade: medem até o consumo das descargas dos banheiros. Palavra de ordem: economizar. Enquanto isso, um robô desliza pelas crateras de Marte em busca das sombras de peixes estampadas nas sombras das rochas de milhões de anos atrás, quando a água estava acabando, como começa a acabar do nosso lado.

A reportagem é de Maurizio Chierici, publicada no jornal Il Fatto Quotidiano, 14-08-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

À emergência do verão de pensamentos tristes, acrescenta-se uma busca que nunca envelhece: decifrar o mistério dos mistérios, a eternidade. Os profetas a prometem; o pessimismo dos filósofos continua negando-a, e a Fundação Templeton compromete o professor Fischer, que ensina filosofia moral na Universidade da Califórnia.

Ele deve descobrir como o espírito sobrevive à morte, o que é o paraíso e onde está o inferno: 5 milhões de dólares, migalhas em comparação com os 2,5 bilhões que fazem com que o robô marciano corra pelo planeta. Sem contar que, se o robô transmite resultados de concretude impossível para o professor Fischer, está prevista a viagem do ser humano: 100 bilhões que podem se tornar 200 na hipótese de descobertas fascinantes.

Organizar o amanhã de filhos e netos é a sabedoria da história bem conhecida, mas desinteressar-se por como enfrentar o presente na era da globalização torna-se a idiotice de uma sociedade esquizofrênica. Descobrir se a água permitiu a vida em um planeta não propriamente morto como a lua, mas nem vivo como a Terra, pode ser a curiosidade de quem não têm outros pensamentos.

Ao contrário, os pensamentos são muitos e já exigem as guerras pelo controle do ouro azul. Água mais preciosa do que o petróleo, tormento que desde sempre acompanha os africanos em fuga em carretas do mar. Pesadelo cotidiano de milhões de mulheres programadas como escravas: quilômetros a pé para pescar a sobrevivência poluída em poços distantes.

Cerca de 40% das africanas vive assim. Meninas que caminham no nada com a angústia de uma solidão de violência anunciada. Em suma, sete dias de notícias que se contradizem: não chove, e os Estados Unidos e todo um pouco queimam as colheitas. Não chove, mas sob a areia aflora uma imensa bolha de água, 600 mil quilômetros quadrados no norte da Namíbia, a maior reserva do mundo.

É o anúncio de uma transformação radical: do desespero à esperança. Ao invés disso, silêncio. À revelação africana, algumas linhas distraídas na barriga dos jornais. Sabe-se lá por que não interessa. Talvez sejam necessários investimentos mais consistentes do que os milhões necessários para a escavação na eternidade, milhões que se tornam centavos em comparação com o que a curiosidade do robô de Marte devora.

Não se trata de distração. Começou o braço de ferro entre os especuladores comprometidos em programar quanto pode valer o mar doce que a África esconde. Negócios, reciclagens, colonizações: imensas plantações ou criações de bifes para o McDonald's das nossas civilizações bem-educadas?

Por enquanto, nenhuma hipótese contempla a distribuição da água nos vilarejos e nas cidades, redes urgentes para restituir dignidade a povos negligenciados enquanto não chegam aqui. Sobre a viagem de Marte, sabemos minuto a minuto; sobre o tesouro africano, nenhuma notícia, embora o imenso lago comece a agitar as Bolsas, enquanto as mulheres continuam marchando como mulas, e filhos e maridos permanecem dispersos em clandestinidades distantes.

Se Marte desembarca todas as noites na TV e no prato da janta, a África e as suas penas desaparecem no desvio de um continente a ser ignorado. A democracia da comunicação global funciona assim. Tomara que a busca pela eternidade possa sugerir uma moral diferente.

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