Confiança mútua entre clero e religiosas: a aposta do novo prefeito doutrinal do Vaticano

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07 Agosto 2012

Uma velha piada romana diz que as únicas coisas que se movem durante o mês de agosto são cani e americani, ou seja, cães e norte-americanos. Ela expressa o ethos sonâmbulo da cidade durante o tradicional hiato de Ferragosto, quando os nativos vão para as montanhas ou para as praias.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada no jornal National Catholic Reporter, 02-08-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Neste momento, Bento XVI está no retiro papal de verão em Castel Gandolfo, onde ele acaba de dar os últimos retoques no terceiro volume do seu livro Jesus de Nazaré, desta vez dedicado às narrativas da infância, que deverá ser publicado em vários idiomas nos próximos meses.

Da mesma forma, a autoridade número dois do Vaticano, o cardeal italiano Tarcisio Bertone, está de férias no norte da Itália, quando teve tempo para rezar uma missa para os moradores na quarta-feira passada e conversar brevemente com os repórteres, deixando uma pista de que Bento XVI poderia escrever uma encíclica sobre a fé para o Ano da Fé, que será aberto na primavera deste ano.

A calmaria de verão proporciona uma oportunidade para atualizar as histórias recentes que não receberam a atenção suficiente que merecem. Elas incluem uma surpreendente entrevista com o novo czar doutrinal do Vaticano.

* * *

Poucas coisas sem consequências se movimentam no Vaticano sem a palavra final da Congregação para a Doutrina da Fé, o que significa que uma mudança de regime lá sempre é repleta de presságios. Isso é especialmente verdade para os norte-americanos neste momento, dado que a Congregação doutrinal é a arquiteta de uma reforma ordenada pelo Vaticano sobre a Leadership Conference of Women Religious (LCWR).

O novo prefeito da Congregação doutrinal, o arcebispo alemão Gerhard Ludwig Müller, é, portanto, automaticamente, uma pessoa muita importante nessa questão.

No fim de julho, Müller, 64 anos, deu uma extensa entrevista ao L'Osservatore Romano, o jornal do Vaticano. Müller sabia que qualquer coisa que ele dissesse iria definir um tom, tornando essa a primeira indicação desde a sua nomeação no dia 2 de julho sobre que tipo de líder ele quer ser.

Os destaques incluem:

  • Um claro apelo à fidelidade para as religiosas, mas também um desejo de sublinhar "a confiança mútua", em vez de "trabalhar uns contra os outros";
  • Um desejo de enfatizar o papel positivo da Congregação para a Doutrina da Fé ao apresentar o ensino católico como uma "força para a esperança";
  • A paixão pela justiça social, incluindo a adoção de uma forma "correta" da teologia da libertação, ou seja, uma forma que evite a confusão com o marxismo;
  • Um sinal de que Müller pretende ser um prefeito prático, em vez de se sentar por aí e esperar que o papa lhe diga o que ele tem que fazer.

Durante a entrevista, Müller foi questionado sobre as discussões doutrinais da Congregação com os lefebvrianos, ou seja, a fraternidade tradicionalista São Pio X, e também com as "irmãs norte-americanas", uma referência à LCWR.

Em resposta, Müller marcou uma linha de princípio bastante clara para ambos os grupos: "Não há negociações sobre a Palavra de Deus, e não se pode acreditar e ao mesmo tempo não acreditar", disse ele. "Não se pode pronunciar os três votos religiosos e depois não levá-los a sério. Não posso fazer referência à tradição da Igreja e depois aceitá-la somente em algumas de suas partes".

Espontaneamente, Müller levantou a questão da ordenação feminina, talvez sugerindo que ele a considera como algo central na disputa com a LCWR.

"Não se pode considerar o ministério sacerdotal como uma espécie de posição de poder terreno e pensar que só há emancipação quando todos podem ocupá-la", disse ele, pedindo um fim às "polêmicas e às ideologia" e uma "imersão na doutrina da Igreja".

Müller, então, deu a entender que ele gostaria de virar uma página nas relações com as irmãs norte-americanas.

"Precisamente na América, as religiosas e os religiosos realizaram coisas extraordinárias para a Igreja, para a educação e para a formação dos jovens", disse. "Cristo precisa de jovens que prossigam esse caminho e que se identifiquem com a própria escolha fundamental. O Concílio Vaticano II afirmou coisas maravilhosas para a renovação da vida religiosa, assim como para a vocação comum à santidade".

"É importante reforçar a confiança mútua", disse Müller, "ao invés de trabalhar uns contra os outros".

Mais amplamente, Müller disse que gostaria de salientar o papel positivo da Congregação doutrinal.

"Aqui eu vejo uma das grandes tarefas da Congregação e da Igreja em geral: devemos redescobrir a fé e fazê-la resplandecer novamente, como potência positiva, como força da esperança e como potencial para superar conflitos e tensões", disse.

Quanto à teologia da libertação, Müller foi questionado sobre a sua experiência da América Latina. Ele é um amigo íntimo do padre peruano Gustavo Gutiérrez, um dos pais da teologia da libertação, e passou de dois a três meses vivendo entre os pobres do Peru a cada ano desde 1988.

Eis o que ele disse:

"Certamente, uma mistura da doutrina de uma autorredenção marxista com a salvação doada por Deus deve ser rejeitada. Por outro lado, devemos nos perguntar sinceramente: como podemos falar do amor e da misericórdia de Deus diante do sofrimento de tantas pessoas que não têm comida, água e assistência de saúde, que não sabem como oferecer um futuro aos próprios filhos, onde, portanto, realmente falta a dignidade humana, onde os direitos humanos são ignorados pelos poderosos? (...) Se nos consideramos como família de Deus, então podemos contribuir para fazer com que essas situações indignas do ser humanos sejam mudadas e melhoradas".

Müller nasceu em Mainz, na Alemanha, e lembrou com orgulho que o bispo Wilhelm Emmanuel von Ketteler, de Mainz, foi um dos pioneiros da doutrina social católica no século XIX.

"Uma criança católica de Mainz tem a paixão social no sangue, e eu tenho orgulho disso", disse ele.

Finalmente, Müller assinalou que pretende conduzir a Congregação doutrinal pelas suas próprias mãos, em vez de deferir tudo ao seu "chefe", o Papa Bento XVI.

"Eu acredito que o motivo da minha vinda a Roma certamente não é o de sobrecarregá-lo [o papa] com as diversas questões", disse ele. "A minha tarefa é a de aliviá-lo de parte do trabalho e não de apresentar-lhe problemas que podem ser resolvidos ainda no nosso nível. O Santo Padre tem a importante missão de anunciar o Evangelho e de confirmar os irmãos e as irmãs na fé. Cabe a nós tratar com todas as questões pertinentes menos agradáveis, para que que ele não seja sobrecarregado com coisas demais, embora, naturalmente, sendo sempre informado dos fatos essenciais".