O amor é a verdadeira revolução: palavra de um grande filósofo, Alain Badiou

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06 Agosto 2012

Aos 75 anos, o pensador marxista escreveu um livro inesperado em que exalta o empenho do casal e a fidelidade: "O sexo é consumo. O sentimento é invenção contínua".

A reportagem é de Stuart Jeffries, publicada na revista italiana Panorama, 06-07- 2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"O amor – diz o maior filósofo francês vivo – não é um contrato entre dois narcisistas. É muito mais do que isso. É uma construção que obriga os participantes a ir além do narcisismo. Para que o amor dure, é preciso se reinventar".

Alain Badiou, 75 anos, venerável maoísta e participante do 1968, e que na França é uma figura tão controversa que a revista Marianne lhe dedicou um artigo intitulado "Badiou: o astro da filosofia é um bastardo?", sorri na sala do seu apartamento parisiense. "Todos dizem que o amor é encontrar a pessoa certa para mim, e depois tudo vai ficar bem. Mas não é bem assim. Isso envolve trabalho. É um homem idoso que lhes diz isso!".

Em seu novo livro, Elogio dell'amore (Ed. Neri Pozza, 160 páginas), Badiou escreve: "Só uma vez na minha vida eu renunciei a um amor. Foi o meu primeiro amor, e depois, gradualmente, eu percebi que esse passo tinha sido um erro. Eu tentei recuperar aquele amor inicial tardiamente, tarde demais – a morte da minha amada estava se aproximando –, mas com uma intensidade e um senso de necessidade únicos". Essa renúncia e a tentativa de recuperação marcaram todas as relações amorosas do filósofo: "Houve dramas, dores de amor e dúvidas, mas eu nunca abandonei um amor de novo. E eu me sinto realmente encorajado pelo fato de que as mulheres que amei eu as amei para sempre".

Mas faz sentido se envolver nesta época de prazeres preconfeccionados e de amantes facilmente descartáveis? "Não! Eu insisto nisto: resolver os problemas existenciais do amor é a grande alegria da vida", diz o escritor. Depois, ele olha para a sua intérprete, Isabelle Vodoz, sentada à mesa, e, com um sorriso meio irônico, diz: "Há um tipo de serenidade no amor que é quase um paraíso", acrescenta, rindo. Ela também dá uma risada: "Eu não sou apenas a sua tradutora", me diria ela mais tarde.

Penso na distinção descrita por Badiou em Elogio dell'amore. "Enquanto o desejo se foca no outro, sempre de uma forma um pouco fetichista, em objetos específicos como seios, nádegas e pênis, o amor se foca no próprio ser do outro, no outro da forma como ele irrompeu, completamente armado com o seu ser, na minha vida, que, por consequência, é perturbada e remodelada".

Em outras palavras, o amor é, em muitos aspectos, o oposto do sexo. Segundo Badiou, o amor é o que acontece depois da irrupção causal e perturbadora na nossa vida. Ele expressa isso de uma forma filosófica: "A absoluta contingência do encontro assume a aparência de destino. A declaração de amor marca a transição do acaso ao destino, e é por isso que ela é tão arriscada e tão cheia de uma espécie de horripilante medo de desempenho". O trabalho do amor consiste em derrotar esse medo. Badiou cita Stéphane Mallarmé, que via a poesia como o "acaso derrotado, palavra após palavra". Uma relação amorosa é semelhante: "No amor, a fidelidade significa essa vitória estendida: a casualidade de um encontro derrotada dia após dia pela invenção de algo que irá durar", escreve Badiou.

Certamente, com o seu elogio da fidelidade, ele parece um homem fora do seu tempo. "Em Paris, hoje, metade dos casais não ficam juntos mais do que cinco anos", diz. "Isso é triste, porque eu acho que muitas dessas pessoas não conhecem a alegria do amor. Eles conhecem o prazer, mas todos sabemos o que Lacan disse sobre o prazer sexual".

De fato, segundo o psicoterapeuta Jacques Lacan, a relação sexual não existe. Lacan defendia que a realidade se coloca em uma dimensão narcisista, o que liga imaginários. "Até certo ponto, eu concordo com ele. Se você se limita ao prazer sexual, é algo narcisista. Você não se conecta com o outro; você tira dele o prazer que quer".

Mas uma pergunta: o hedonismo desencadeado pelos episódios do Maio francês, do qual Badiou participou, não estava centrado na libertação das convenções sociais? Como é possível que hoje ele teça elogios de noções burguesas, como compromisso e felicidade conjugal? "Bem, eu concordo absolutamente que o sexo precisa ser liberto da moral. Não vou falar contra a liberdade de fazer experiências sexuais como faria um velho estúpido – un vieux connard –, mas, libertando a sexualidade, você não resolve os problemas do amor. É por isso que eu proponho uma nova filosofia do amor, segundo a qual você pode evitar problemas ou trabalhar para resolvê-los".

Mas, afirma, esquivar os problemas do amor é exatamente o que fazemos na nossa sociedade, adversa ao risco e "compromissofóbica". Badiou ficou impressionado com os slogans do site de encontros francês Méetic como "Encontre o amor perfeito sem sofrer" ou "Ame sem se apaixonar". "Para mim – afirma – esses cartazes destroem a poesia da existência. Eles tentam suprimir a aventura do amor. A ideia deles é que você calcule quem tem os seus mesmos gostos, as mesmas fantasias, os mesmos tipos de férias, quem quer o mesmo número de filhos. O Méetic tenta voltar para casamentos arranjados – não pelos pais, mas pelos próprio amantes". Mas isso não vai ao encontro de uma demanda? "Certamente. Todo mundo quer um contrato que os proteja contra os riscos. Mas o amor não é isso. Você não pode comprar alguém que lhe ame. Sexo sim, mas não alguém que lhe ame".

Para Badiou, o amor está se tornando um bem de consumo como qualquer outro. O ativista antiglobalização José Bové escreveu um livro intitulado O mundo não é uma mercadoria (Ed. Unesp). O livro de Badiou, em certo sentido, é a sua continuação e poderia ter sido intitulado "O amor também não é uma mercadoria". Isso faz dele um velho romântico? "Eu acho que o romantismo é uma reação contra o classicismo. O romantismo exaltava o amor contra os clássicos casamentos arranjados – daí l'amour fou, o amor antissocial. Nesse sentido, eu não sou nem romântico nem clássico. Minha abordagem é de que o amor é um encontro e uma construção. Você precisa resolver os problemas do amor – viver juntos ou não, ter um filho ou não, o que fazer à noite".

O novo livro sobre o amor é uma aplicação da singular filosofia do sujeito de Badiou e da sua inusitada concepção de verdade exposta em livros incrivelmente imponentes que se aprofundam na matemática e utilizam a teoria dos conjuntos de Zermelo-Fraenkel. Esses livros o levaram a ser exaltado como um grande filósofo. "Uma figura como Platão ou Hegel caminha enter nós", escreveu Slavoj Žižek.

A filosofia do sujeito de Badiou é uma elaboração do slogan existencialista de Jean-Paul Sartre, "a existência precede a essência", e incorpora uma hipótese comunista que agradaria a Louis Althusser. Também é uma crítica dura a filósofos franceses do pós-guerra e muitas vezes pós-modernos como Derrida, Lyotard, Baudrillard e Foucault. O que é o sujeito para Badiou? "Simone de Beauvoir escreveu que você não nasce mulher, você se torna mulher. Eu diria que você não é um sujeito ou um ser humano, mas se torna um. Você se torna um sujeito na medida em que você pode responder aos eventos. Para mim, pessoalmente, eu respondi aos eventos de 1968, eu aceitei meu destino romântico, continuei interessado em matemática – todos esses eventos do acaso me fizeram quem eu sou".

E conclui: "Você descobre a verdade em sua resposta ao evento. A verdade é uma construção depois do evento. O exemplo do amor é o mais claro. Ele começa com um encontro que não é calculável, mas, mais tarde, você percebe o que ele foi. O mesmo vale para a ciência: você descobre algo inesperado – como as montanhas na Lua, digamos –, e, depois, há um trabalho matemático para lhe dar sentido. Esse é um processo de verdade, porque nessa experiência subjetiva há um certo valor universal. É um procedimento de verdade porque leva da experiência subjetiva e do acaso ao valor universal".

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