O rugido do Patriarca na Síria

Mais Lidos

  • A ferrovia bioceânica Brasil-Peru promete agilizar o comércio com a China. Mas a que custo?

    LER MAIS
  • Antonio Banderas ao Papa: "Estou aqui hoje confessando ter sido vítima do feitiço de Deus"

    LER MAIS
  • “As ideias de Yarvin e de outros são um absurdo, mas as prescrições liberais do mundo seguem linhas semelhantes". Entrevista com Carlos Fernández Liria

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Por: Jonas | 23 Julho 2012

Enquanto em Damasco matam aos ministros e o regime sírio cambaleia sob o fogo da oposição armada, para os líderes da Igreja local é aberta uma ardilosa frente interna. Intui-se a isto, devido ao longo documento, com 24 pontos, difundido pelo patriarca melequita Grégoire III Laham, líder da comunidade católica mais numerosa na Síria.

A reportagem é de Gianni Valente, publicada no sítio Vatican Insider, 18-07-2012. A tradução é do Cepat.

Pela primeira vez, boa parte do texto está dedicada a uma férrea defesa da cúpula das Igrejas cristãs, para defendê-las das acusações de apoio ao regime de Assad. O Patriarca greco-católico, de sua residência no coração da cidade antiga de Damasco, denuncia uma verdadeira campanha contra as hierarquias das Igrejas sírias, tachadas como submissas e indolentes com o regime. Tal atitude havia se confirmado com as posturas veladamente hostis para a revolução, desde quando começou a crise.

“O Estado e seus responsáveis”, assegurou Grégoire, “nunca dirigiram nenhuma indicação aos pastores, nem algum convite para fazer declarações ou adotar uma determinada postura. A liberdade dos pastores tem sido garantida de todos os lados e continua assim hoje, tanto em relação a seu comportamento, como com suas declarações públicas e privadas. Pessoalmente, eu realizei uma viagem pelas capitais europeias, em março, e não pedi nenhuma permissão, nem alguma indicação a alguém, assim como tampouco ninguém me pediu que adotasse uma determinada postura”.

O Patriarca reivindica para os bispos a representação oficial e a defesa dos interesses das comunidades cristãs no país, que está atravessando uma tempestade de violência. “Não permitiremos que ninguém fale em nosso nome ou em nome dos cristãos da Síria. Não permitiremos que ninguém manipule nossas declarações para depois nos atribuir acusações de todos os tipos”. Para Grégoire “é subversivo” querer duvidar da objetividade dos bispos, da veracidade de suas fontes de informação ou das notícias que difundem, posto que suas chamadas para a reconciliação nacional (incluindo os que apóiam o movimento inter-confessional “Mussalahà”, que hoje é considerado pelos opositores como uma operação de fachada do regime) se inspiram no “contato permanente com os sacerdotes, os religiosos, as religiosas, os fiéis e com todos os cidadãos, de todas as confissões, e com personalidades preeminentes da pátria”.

Grégoire nega que, até agora, a guerra civil na Síria tenha assumido um caráter explicitamente anticristão, mas aponta que os cristãos, como parte frágil no mundo árabe, são os primeiros que pagam nas situações de guerra e anarquia. Além disso, considera que são nefastas as posturas “de algumas personalidades, instituições e de certa imprensa” que “com determinados interesses, em relação aos cristãos, podem fazer aumentar o radicalismo de certas facções armadas contra eles. Como aconteceu em Homs, Qusayr, Yabrud e Dmeineh Sharquieh”.

Por trás das palavras do Patriarca se intui a potencial crise de autoridade dos líderes cristãos, que tinham conseguido manter um status de vida sob o regime de Assad. “No início, infelizmente, as Igrejas não acreditaram na revolução”, apontou ontem, para a agência Fides, George Sabra, porta-voz cristão do Syrian National Council, a coalizão de oposição síria. E, sobretudo, existe incerteza sobre o futuro de um eixo nacional que, com sua anomalia “laica” e a onipresença opressiva dos aparatos de segurança, tinha oferecido certa tutela às minorias cristãs para se apresentarem no estrangeiro como uma garantia da convivência inter-religiosa, que é uma “mercadoria” exótica no polvoroso Oriente Médio.

Segundo Grégoire, este status era fruto de uma estratificação histórica que começou com a legislação otomana, passando pelo protetorado francês, e que deverá ser defendido no futuro, porque é completamente “falsa a afirmação de que o status dos cristãos é fruto de sua adesão ao regime e que cairá, em pouco tempo, junto com ele”. O futuro dos cristãos, agora, também é muito incerto na Síria. E com esta incerteza, Bento XVI terá que se medir na sua próxima visita à República Libanesa.