''A Síria, refém do obscurantismo religioso''

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20 Julho 2012

De que serviria a nossa revolução? E que tipo de revolução se tornaria se fosse guiada por forças externas? Assujeitar-se às ingerências externas, no mínimo, é antirrevolucionário.

A opinião é do poeta sírio Adonis, pseudônimo de Ali Ahamed Said Esber, em artigo publicado no jornal La Repubblica, 19-07-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A tragédia que se consuma na Síria é a de um país da história e da civilização plurimilenar, que soubera dotar-se do tecido social e cultural mais avançado do mundo árabe. A pergunta é esta: que fim terão os passos essenciais dados rumo à modernidade, a superação das arcaicas linguagens das "minorias", das "religiões", do assujeitamento da mulher às "leis" de uma pretensa fé? De fato, ao se falar da Síria, é imperativo distinguir entre os regimes, passageiros, e a sociedade.

O regime é indefensável como todos os regimes árabes, que devem ser mudados. Mas não é mais isso o essencial. A catástrofe das vítimas não serviria de nada se não enfrentasse a questão central: a renovação da sociedade. A revolução está muda a respeito. Não diz o que, muito menos como, quer mudar; não esclarece como será o "duplo regime". O discurso unificante hoje se tornou mais um discurso regressivo. Aflora uma linguagem medieval, que insiste sobre as chamadas "minorias", propõe divisões de sunitas-xiitas, alauítas-cristãos, em vez de promover "a cidadania", o conceito de "cidadão", por exemplo cristão, dotado dos mesmos deveres dos sunitas, mas também dos mesmos direitos.

De que serve uma revolução em um país árabe se não se realizam duas coisas essenciais? Primeiro, os direitos da mulher, começando pela sua liberalização da lei religiosa; segundo, a separação da religião de tudo o que é política, sociedade, cultura, para que a religião seja uma experiência individual, desvinculada das instituições.

Um verdadeiro revolucionário não pode falar essa linguagem, ainda mais em um país como a Síria onde, há milênios, contam-se mais de 20 confissões religiosas. Ela não pode se somar à extraordinária regressão a que assistimos no mundo árabe.

Depois de 200 anos de empenho e de luta pela modernidade, pelo progresso, pela libertação, desde que Muhammad Ali, no Egito, entre os séculos XVIII e XIX, abriu as portas da modernidade, agora essas portas parecem se fechar. Seria realmente trágico se nos libertássemos de um fascismo militar para assentar em seu lugar um outro fascismo de marca religiosa; se a revolução na Síria fosse confiscada pelos interesses estratégicos internacionais, em que a guerra agora opõe dois frontes contrapostos: de um lado, o Ocidente, do outro, Rússia e China.

De que serviria a nossa revolução? E que tipo de revolução se tornaria se fosse guiada por forças externas? Assujeitar-se às ingerências externas, no mínimo, é antirrevolucionário.

É a prescrição para uma guerra civil, talvez ditada por outros, com projetos elaborados em outros lugares. E se é guerra civil, ninguém sabe como irá terminar: o que vai acontecer com os cristãos, com as minorias, com as mulheres. Por tudo isso, a oposição deve falar com extrema clareza, expressar-se sobre o futuro desse grande país.

A Síria tem o direito de ter um regime digno do seu próprio povo. O crime hoje é a destruição desse povo. Uma parte da culpa é do Ocidente, que está se associando às forças pró-religiosas ou abertamente religiosas no mundo árabe. Ele não demonstra interesse pelo ser humano, pelos seus direitos: parece se deixar guiar, ao contrário, pelos seus próprios interesses. Parece que quer agir para que o mundo árabe continue, e a Síria desabe, no obscurantismo medieval.