Por: André | 16 Julho 2012
É o novo prefeito Müller. Obstaculizado em sua pátria, a Alemanha, por ser muito conservador. E criticado nos círculos tradicionalistas de Roma e do mundo por demasiado “liberal”. Mas predileto do Papa.
A reportagem é de Sandro Magister e está publicada no sítio Chiesa, 13-07-2012. A tradução é do Cepat.
Antes de se mudar para o sugestivo marco das vilas pontifícias de Castel Gandolfo para o habitual período de férias, Bento XVI deu início a uma pequena, mas significativa, sessão de nomeações na cúria romana.
O principal movimento diz respeito à mudança no vértice da Congregação para a Doutrina da Fé.
O Papa Joseph Ratzinger escolheu como seu segundo sucessor, depois do americano William J. Levada, o bispo bávaro Gerhard Ludwig Müller, que completará 65 anos no próximo dia 31 de dezembro e é, desde 2002, bispo de Regensburg.
O novo responsável pelo outrora chamado Santo Ofício tem fama de Janus bifronte. Por um lado, sobretudo em sua pátria, é considerado um dos prelados alemães mais conservadores; não é de se estranhar, portanto, que o teólogo e sacerdote suíço-alemão Hans Küng tenha qualificado esta escolha como “catastrófica”.
Em 2005, por exemplo, Müller reformou, “apesar do vento contrário suscitado pela mídia”, o sistema dos conselhos pastorais em sua diocese, suscitando numerosas críticas entre os progressistas, que deploraram uma redução do papel dos leigos, e provocando um recurso canônico contra a decisão que, no entanto, foi vencido por ele de maneira definitiva graças a um decreto do Vaticano de 2007.
Em uma entrevista ao Mittelbayerische Zeitung, de 06 de julho, Müller confirmou a linha oficial da Igreja sobre a pastoral dos divorciados, sem se aventurar em hipotéticas mudanças. Explicou que “o cargo de bispo implica também conflitividade”. E indicou que “o compreensível desejo humano de ser reconhecido por todos como o tio bom não é a melhor base para uma boa nomeação” episcopal. Em resumo, não se pode dizer que Müller esteja entre os bispos que desejam o aplauso fácil. E isto vale para a esquerda, mas também para a direita do corpo eclesial.
Por outro lado, efetivamente, sobretudo em círculos da cúria romana e no mundo tradicionalista, acompanha-se com suma suspeita algumas das afirmações teológicas de Müller e, sobretudo, sua amizade de mais de 10 anos, nunca negada, com um dos fundadores da Teologia da Libertação, o peruano Gustavo Gutiérrez (que entrou na ordem dominicana na Província da França, com sede em Paris – mais progressista que a de Toulouse – em 2001, aos 73 anos, depois que, em 1999, Juan Luis Cipriani Thorne, da Opus Dei, foi nomeado arcebispo da Arquidiocese de Lima, onde estava incardinado desde 1959.
Às acusações de ser um teólogo “liberal”, suscitadas também pelo fato de ter tido Karl Lehmann como diretor de seus estudos acadêmicos, Müller respondeu – de novo ao Mittelbayerische – declarando-se como tal, mas no sentido que dava a esta palavra Santo Tomás de Aquino quando escrevia que “Deus maxime liberalis est”.
Às críticas dos tradicionalistas respondeu, em defesa de Müller, dom Nicola Bux, consultor da Congregação para a Doutrina da Fé, que não pode ser tachado de simpatias progressistas.
Em uma entrevista ao Vatican Insider, Nicola Bux contextualizou as afirmações sobre a transubstanciação e sobre a virgindade de Maria que estão na mira dos críticos de Müller, sem convencê-los muito, haja vista a duração das acusações.
Em todo o caso, Bento XVI não se deixou condicionar pelas críticas e optou pelo bispo de Regensburg, do qual certamente aprecia a escolha como lema episcopal das palavras “Dominus Iesus”, as mesmas que dão título à declaração da Congregação para a Doutrina da Fé, de 2000, sobre a unicidade salvífica de Cristo, um dos documentos mais incrivelmente criticados dentro da Igreja católica, inclusive pelo Colégio Cardinalício.
O Papa concedeu a Müller o privilégio de morar em Roma no seu precedente apartamento cardinalício da Praça da Cidade Leonina, onde ainda se encontra parte da sua biblioteca. A esta escolha, de grande valor simbólico e afetivo, talvez não seja alheio o fato de que Müller seja o editor da publicação da Opera Omnia de Ratzinger.
Para além das reações e dos comentários, será interessante ver qual será a postura de Müller em relação a duas questões delicadas que logo deverá enfrentar.
As duas questões são o diálogo com o mundo lefebvriano e a controvérsia com uma parte das religiosas norte-americanas.
Aqui se poderia verificar de forma concreta o grau de continuidade de Müller em relação a Levada que, é preciso recordá-lo, quando foi chamado em 2005 para a Congregação para a Doutrina da Fé, também era considerado muito “liberal” para alguns círculos conservadores e muito de direita para os ambientes mais progressistas.