Para onde vão as revoluções no mundo árabe?

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10 Julho 2012

Os rebeldes avançaram para o centro de Damasco. Entraram na garagem do Palácio da Justiça e numa base da Guarda Republicana próxima ao palácio presidencial. Síria e Turquia posicionaram tanques e baterias antiaéreas na fronteira. "Estamos em guerra", disse, na terça-feira, o presidente sírio, Bashar Assad, quando se reuniu com seu recém-nomeado gabinete.

A reportagem é de Juliane Von Mittelstaedt, Christoph, Alexander Smoltczyk, Bernhard Zand, publicada no Der Spiegel e reproduzida pelo jornal O Estado de S.Paulo, 08-07-2012.

Um ano e meio depois de o tunisiano Mohamed Bouazizi ter se imolado e do torpor do despotismo árabe ser interrompido, as visões otimistas do futuro ocorridas naqueles primeiros meses são hoje obsoletas. Os líderes de quatro países, Zine al-Abidine Ben Ali (Tunísia), Hosni Mubarak (Egito), Muamar Kadafi (Líbia) e Ali Abdullah Saleh (Iêmen), foram depostos, condenados ou mortos. Um quinto líder, o sírio Bashar Assad, ao que parece está travando uma batalha perdida pela sobrevivência.

Esperança e medo. A esperança de que o mundo árabe se tornaria democrático tão rapidamente quanto a Europa Oriental 20 anos atrás não se realizou. Mas os temores de que os países do Norte da África e do Oriente Médio mergulhariam no caos um após o outro também não se materializaram.

Em vez disso, o quadro é mais confuso do que nunca. Em Damasco e Alepo, uma burguesia secular - a mesma que apoiou os outros levantes - teme as consequências caso Assad seja derrubado. A família real que governa a vizinha Jordânia comporta-se como se não fosse afetada pelos tumultos gerais. O Iêmen, um país tribal que depôs seu presidente de longa data, está sendo exaltado como modelo de uma transição pacífica, apesar de a Al-Qaeda por vezes controlar províncias inteiras do país. E na Tunísia, a terra da Revolução de Jasmim, cinemas estão sendo destruídos e bordéis queimados.

A ascensão do Islã. A Tunísia chegou relativamente longe. O país tem um Parlamento eleito, um governo dominado pelo partido islâmico Ennahda, um presidente secular e um Exército que monitora o processo de transição sem forçar sua passagem para o primeiro plano. Por ironia, é precisamente na Tunísia, onde a Primavera Árabe começou, que está ficando claro que a liberdade política não vem necessariamente acompanhada de liberdade cultural. A Tunísia sempre foi o mais ocidentalizado dos países árabes, um forte bastião contra a corrente islâmica da história árabe mais recente. Poligamia e casamentos de crianças foram proibidos, havia educação sexual nas escolas e o sistema de ensino era considerado o melhor da região. Filmes pornográficos leves eram exibidos em cinemas de Túnis e as prostitutas da região antiga da cidade pagavam impostos e tinham documentos emitidos pelo Ministério do Interior.

Mas, apenas alguns dias após a deposição de Ben Ali, uma autonomeada "polícia da moralidade" apareceu no bairro da luz vermelha de Túnis, onde os policiais atiraram coquetéis Molotov em bordéis e ameaçaram as mulheres. Duas semanas atrás, um grupo de salafistas invadiu a exposição Primavera das Artes. A violência foi desencadeada por causa de um quadro em que formigas formavam as palavras "Graças a Deus".

No Egito, que seguiu as pegadas da Tunísia, o Islã político saiu fortalecido de uma revolução na qual ele não desempenhou nenhum papel, ao menos no começo. A Irmandade Muçulmana e os salafistas radicais venceram a primeira eleição parlamentar livre do país por grande maioria. Seus representantes extremistas fizeram uma declaração que, se fosse cumprida, transformaria o país numa república islâmica: a introdução incondicional da sharia, a lei islâmica. O Egito está vivendo uma luta entre instituições que poderia ser descrita, com reservas, como uma adoção egípcia do conceito de equilíbrio de poderes.

Sede por democracia na Líbia. Muamar Kadafi não deixou nem sequer os fundamentos de um Estado operacional. O país realizou ontem suas eleições para um Congresso que nomeará um novo governo interino e um conselho encarregado de escrever o anteprojeto de uma Constituição. A votação já foi adiada uma vez. Mas o país não teve nenhum partido político em 40 anos. O que prosperou sob a fachada grotesca do "Estado das massas" do ditador foram regiões, cidades e tribos que moldam a imagem caótica de que o país hoje desfruta. No início de junho, uma brigada armada ocupou o aeroporto de Trípoli e, alguns dias depois, outra milícia prendeu funcionários do Tribunal Penal Internacional. Eles tinham visitado o filho de Kadafi Saif al-Islam, que está preso em Zintan desde novembro - 1 dos mais de 4 mil líbios mantidos prisioneiros por milícias por todo o país.

O ativista de direitos humanos Hana al-Gella admite que a Líbia está presa num círculo vicioso. "Não estamos realmente preparados para realizar eleições", diz. "Mas precisamos de um governo legítimo para superar o caos." Os líbios estão aparentemente decididos a ter uma democracia. Cerca de 80% dos eleitores qualificados registraram-se, 2.500 candidatos diretos concorreram além dos 1.200 representantes de mais de 140 partidos que foram virtualmente criados do dia para a noite. Eles competiram por 200 cadeiras num Parlamento que atuará por 18 meses e terá 2 objetivos: nomear um primeiro-ministro e uma comissão constitucional de 60 membros. À primeira vista, parece um bom começo.

Mas uma observação mais atenta revela alguns aspectos perturbadores. Em uma pesquisa realizada pela Universidade Oxford, um terço dos líbios disse preferir o governo de um homem forte. Muitos candidatos são empresários ricos, outros são testas de ferro de políticos - entre os quais, muitos representam a Irmandade Muçulmana, que também é vista como uma força vigorosa e bem organizada na Líbia.

E antes mesmo de ficarem visíveis na futura Assembleia líbia, a força dos partidos religiosos e a fraqueza dos seculares provocaram um conflito que pode colocar em risco a própria eleição. O país é formado por três regiões: Tripolitânia no oeste, Cirenaica no leste e Fezzan no sul. Os políticos do leste sentem-se sub-representados, pois obtiveram direito a somente 60 cadeiras, enquanto 101 cadeiras foram destinadas ao oeste. Na semana passada, um comboio carregando canhões antiaéreos bloqueou a estrada costeira entre Trípoli e Benghazi, deixando claro que a região oriental estava decidida a boicotar a eleição caso suas exigências não fossem atendidas.

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