Carnalidade medieval: os corpos triunfantes da Idade Média

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09 Julho 2012

Contrariamente à imagem estereotipada que temos, os séculos que se passaram entre a queda do Império Romano e o Renascimento atribuíram uma grande importância à corporalidade e à fisicidade, como atestam diversos livros recentes.

A análise é da historiadora italiana Marina Montesano, professora da Universidade de Gênova, em artigo publicado no jornal Il Manifesto, 04-07-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A história do corpo na Idade Média ainda está relativamente no início, embora historiadores da estatura de Marc Bloch e de Ernst H. Kantorowicz tenha fornecido contribuições essenciais ao seu nascimento e ao seu desenvolvimento. Em tempos mais recentes, Jacques Le Goff voltou sobre o tema, com uma síntese geral, mas também Sergio Bertelli, que estudou o corpo do rei na sua duplicidade, segundo a linha traçada por Kantorowicz: de fato, o soberano possui, em certo sentido, um corpo duplo; um é o físico, que envelhece, adoece, morre, se destrói; o outro é o místico, indestrutível, incorruptível, eterno. Mística e institucionalmente, o rei não morre nunca, como indica a frase "o rei está morto, viva o rei". E isso vale para todos os casos em que uma pessoa física encarna (um verbo revelador) uma autoridade sistemática. A pesquisa, depois, foi estendida, com resultados excelentes e inovadores, por Agostino Paravicini Bagliani ao tema do corpo do papa.

Duas ideias erradas

Trata-se, no entanto, de um assunto ainda rico em intuições a aprofundar, em pistas a seguir. Quanto a concepção cristã do corpo inova com relação às sociedade anteriores e, ao contrário, quanto herda? E qual é o papel da Igreja na definição e no controle do corpo? Uma síntese atualizada de Grado Giovanni Merlo, Il cristianesimo medievale in Occidente [O cristianismo medieval no Ocidente” (Ed. Laterza, 2012, 220 páginas), pode ser de ajuda nesse discurso, fornecendo as coordenadas gerais para seguir a complexa evolução do cristianismo ocidental nos séculos em questão. A Idade Média, considerada como "idade da fé", associa-se geralmente ao espírito e considera-se, portanto, como inimiga de qualquer carnalidade. Esse seria um tempo de negação e de humilhação do corpo, de subestimação de tudo o que era físico.

O preconceito de uma Idade Média totalmente "espiritual" nasce de duas ideias, ambas erradas, apesar de repousarem sobre alguns elementos efetivos. Primeiro, a constatação de que a filosofia vencedora na Idade Média – ao menos até o século XIII, quando foi se afirmando o aristotelismo – era o platonismo, conhecido pela desvalorização do corpo em comparação com a alma e das coisas em comparação com as ideias; mas o platonismo triunfou também no século XV, época em que voltou ao auge o culto clássico da nudez e se teve uma tal explosão de licença sexual que foram necessárias, no século posterior, duas Reformas, uma protestante e uma católica, para sufocá-la. Segundo, o conhecimento superficial de certas tradições místicas, como as ligadas às técnicas de humilhação e de castigo do corpo. Daí a ideia de uma Idade Média assediada pela sujeira e pela mortificação da carne mediante o jejum e o tormento físico.

Excessos "heroicos"

Não há nada de mais intrinsecamente falso nas reconstruções históricas que se servem de retalhos e de fragmentos de verdade. De fato, não há dúvida de que, no longo período que nós, por convenção, chamamos de "Idade Média", os séculos entre V e XII, foram dominados pelo platonismo; e é fato que os místicos ensinavam a desprezar o corpo e a dominá-lo mediante práticas ascéticas que vetavam que se cuidasse dele, prescreviam que se alimentasse ele muito parcamente e o submetiam à "disciplina" de torturas físicas como o chicote, o cilício, a imobilidade prolongada, a exposição às intempéries.

Mas o platonismo, reelaborado através da gnose, também tinha dado origem a movimentos heterodoxos que não só não eram de fato espiritualistas, mas que, ao invés, muito frequentemente, levavam a um uso intenso do corpo, por exemplo mediante práticas eróticas: esse foi, por exemplo, o caso do priscilianismo, difundido na Península Ibérica. Quanto às técnicas ascéticas, poucas delas são de origem judaica ou pertencem ao cristianismo das origens. Jesus, é verdade, jejuava: tal prática é universalmente conhecida no mundo abraâmico e é seguida ainda hoje, de um modo diferente, por judeus e por muçulmanos. Mas as técnicas mais duras se afirmaram entre os séculos II e III, com o contato com ambientes pagãos africanos ou asiáticos que inseriram nelas elementos derivados de antigas crenças que haviam conceitualmente abandonado, mas que continuavam fortes no plano das tradições.

Cilícios, flagelações, até mesmo mutilações eram práticas que já haviam penetrado no mundo pagão através dos cultos mistéricos ou que já eram conhecidas pelos germânicos e, sobretudo, pelos celtas para diferentes fins, desde iniciações guerreiras às técnicas xamânicas. A própria "sexofobia" que ainda hoje muitas vezes se confronta com os cristãos não era própria a eles: o cristianismo elogiava a virgindade e a continência e regulava a atividade sexual – assim como a alimentar ou as relacionadas com a diversão – de um modo que certamente pode ter dado espaço a alguns excessos "heroicos", a formas de denegação absoluta, ou até mesmo de autotortura. Contudo, o que era central no ensinamento e na prática cristã era a disciplina, a sobriedade, o autocontrole, não como técnicas humilhantes e autopunidoras, mas sim, ao contrário, como meios para alcançar o domínio do próprio corpo.

Modelos sarracenos

A Idade Média certamente não foi, na realidade, materialista, mas sim ligada profundamente à físicidade e até mesmo à carnalidade. Não somente à própria, mas também a do Outro: por exemplo, dos sarracenos, como bem mostrou Suzanne Conlikin Akbari em um livro, Idols in the East. European Representations of Islam and the Orient, 1100-1450 [Ídolos no Leste. Representações europeias do Islã e do Oriente, 1100-1450] (Cornell University Press, 324 páginas), que gostaríamos de ver traduzido e publicado na Itália.

A autora, em um discurso sobre a representação do Oriente na cultura europeia baixo-medieval, se detém longamente sobre o tema do corpo, desfazendo a ideia de um protorracismo inerente à observação da diversidade. Na concepção da época, não havia espaço para as dicotomias absolutas, mas sim para um continuum ao longo do qual se colocam todas as diversas possibilidades do corpo humano: do já conhecido, que era obviamente dado pelo modelo europeu (e aqui deveríamos nos perguntas o quanto se era capaz realisticamente de identificar um preciso) até ao totalmente estranho que se colocava nas áreas mais externas da ecumene.

Os corpos dos sarracenos, escreve Conlikin Akbari, se situam ao longo desse continuum e é por isso que eles parecem tão variável na literatura, que muitas vezes os considera positivamente. As descrições admiradas dos corpos de mulheres e de homens sarracenos, de fato, são frequentes.

Falta de higiene?

Além disso, ao contrário daquilo que se considera repelindo "para trás" uma realidade histórica muito mais recente, ou seja, a falta de higiene corporal que se afirmou entre o fim do século XVI e a era barroca, a Idade Média foi uma época de grande familiaridade seja com a higiene corporal (as "estufas", isto é, os banhos, eram muito frequentes), seja até com a nudez, que era praticada mesmo que não promiscuamente em muitos ambientes e em várias ocasiões.

Até mesmo nos mosteiros, nos quais, evidentemente, era praticada a castidade, o corpo era feito objeto de muitos cuidados: havia banheiros e latrinas, providenciava-se a lavagem, a nutrição e o cuidado dos enfermos, permitiam-se práticas ascéticas até mesmo muito duras e rigorosas, mas sempre comedidas às forças e às possibilidades daqueles que a elas se submetiam; e rotineiramente se concediam comodidades notáveis, que de fato se tornavam sinais de muitas composições poéticas de tipo satírico: os monges vestiam hábitos cômodos, viviam em ambientes que podiam ser bem aquecidos, se alimentavam de modo adequado e até mesmo abundante e saboroso. Por outro lado, na produção de vinho, cerveja, queijos e conservas, vários monges medievais tiveram um papel dificilmente subestimável.

Líderes carismáticos

Isso no que concerne ao corpo dos vivos. Mas um dos grandes temas no âmbito do estudo da corporeidade refere-se, ao contrário, ao dos mortos; um âmbito em que é mais fácil ver a diferença da Idade Média cristã em comparação com o passado pré-cristão. Mariateresa Fumagalli Beonio Brocchieri e Giulio Guidorizzi tentam fazer com que os dois mundos dialoguem em Corpi gloriosi. Eroi greci e santi cristiani [Corpos gloriosos. Heróis gregos e santos cristãos] (Ed. Laterza, 2012, 170 páginas), considerando como o santo – do qual a rica produção hagiográfica medieval descreve as empresas titânicas (os milagres, a luta contra os monstros que afligem as comunidades, a civilização de novas terras) – pode ser lido como uma transcrição em chave cristã do mito do herói antigo.

São Brandão viaja como Ulisses; São Jorge vence o dragão como Perseus: e certamente serve de ajuda o fato de que algumas dessas lendas cristãs, justamente como a de São Jorge, não têm nenhuma base histórica real.

É característica comum a muitas, senão a todas, as civilizações o fato de querer se reunir em torno de líderes carismáticos, que podem ser os heróis gregos e os viris Deuses cristãos; no caso do cristianismo, de fato, como já se escreveu abundantemente, a invenção do culto dos santos foi central na difusão e no fortalecimento da nova fé; ainda mais a partir do fim do século IV, se levarmos em conta que, nessa época, o cristianismo foi declarado religião de Estado, esperando anular com um apagador os cultos anteriores e ainda bem vivos no Império Romano. Eram necessários, enfim, modelos fortes a serem propostos à sociedade.

Mas não devemos esquecer que, com relação à religião greco-romana, o cristianismo introduziu uma novidade profunda justamente no âmbito da relação com o corpo dos mortos. De fato, se os judeus veneravam os sepulcros dos patriarcas, se gregos e romanos veneravam os heróis e os soberanos e faziam deles semideuses junto a cujos túmulos elevavam-se templos a eles dedicados, também é verdade que eles também eram mantidos separados do mundo dos vivos, longe das cidades dos vivos. Com efeito, o culto romano havia codificado práticas aptas a manter longe os espíritos dos mortos, os lêmures.

Eram as festas chamadas de Lemúrias, que a tradição afirmava terem sido instituídas por Rômulo para aplacar o espírito do irmão, Remo, por ele morto. As Lemúrias ocorriam sempre nos dias 9, 11 e 13 de maio e é muito provável que sejam as mais antigas festas dos mortos celebradas em Roma. O morto, enfim, era conceitualmente um estranho e um inimigo: o rito servia para obrigá-lo a não voltar mais para perturbar e assustar os vivos. Os cristãos, crentes em um Deus que, mediante a Ressurreição, venceu a morte, impuseram ao mundo uma concepção diferente. A realidade da Ressurreição, para ser acreditada, precisava de testemunhas: os mártires e, encerrada a idade dos mártires com Constantino, os santos.

Rumo às periferias

Por isso, a revolução religiosa e cultural cristã, quando, no século IV, ela se tornou a religião do Império Romano, implicou também uma revolução urbanística, deslocando o seu foco para as áreas suburbanas, onde os mártires cristãos haviam sido executados ou onde haviam sido sepultados. Além disso, quando um corpo era encontrado intacto, o milagre era acolhido como mais uma prova do fato de que o seu proprietário compartilhava a vida eterna do Cristo. Sem falar do culto das relíquias, dos fragmentos dos corpos santos expostos e venerados pelos vivos e, por sua vez, protagonistas de milagres taumatúrgicos.

Corpos dos vivos e corpos dos mortos, de heróis gregos e de santos cristãos, de europeus e de sarracenos, com características comuns e outros que os separam, suspensos entre continuidade e descontinuidade. Se o assunto é (relativamente) novo, tal é a sua centralidade experiencial a ponto de ainda oferecer, para o futuro, muitas inspirações de fascínio e reflexão.

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