15 Junho 2012
Na Síria, agora é guerra civil: afirmam as Nações Unidas. Armas de todos os tipos. Americanas que cruzaram a fronteira turca quando, há um ano, chegou em Damasco, o embaixador Robert S. Fort, pupilo de John Dimitri Negroponte, falcão dos falcões secretos de Reagan. Mas são russos os helicópteros de combate que bombardeiam cidades e vilarejos dos insurgentes. Moscou continua alimentando os arsenais de Assad, e Hillary protesta veementemente. Quem sopra e quem tenta apagar o fogo que ameaça o Oriente Médio discutem em torno da mesa do Conselho de Segurança com a utopia de evitar um desastre do tipo da Líbia, mas sem entendimentos concretos para frear os massacres.
A reportagem é de Maurizio Chierici, publicada no jornal Il Fatto Quotidiano, 14-06-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
E, todos os dias, aqueles que morrem são apenas um número a mais: que impressiona se são crianças, mas, depois do horror, nada. A última carta que o jesuíta Paolo Dall'Oglio escreveu no mosteiro de Deir Mar Musa, São Moisés, o Abissínio, nos vales ao redor de Damasco, faz perceber que tipo de vida milhões de pessoas suportam no imobilismo dos países civilizados.
Ele mora lá há 30 anos. Construiu uma comunidade em que se misturam cristãos de todas as confissões, mas também muçulmanos, curdos, drusos, enfim, todas as almas de boa vontade da "esponja" síria. Mediador de paz já insuportável para o governo de Assad, ele foi chamado pelas autoridades eclesiásticas: voltará para a Itália "para evitar danos piores".
Na carta escrita aos amigos, ele relata o seu último fim de semana, imagem que evoca um descanso depois de tantas tribulações, mas a história é diferente: leva a entender como as pessoas sobrevivem na agonia da razão. A carta de uma família de Quseyr, entre Homs e a fronteira do Líbano, província de destruições ferozes, clama para que ele lhes ajude a encontrar Andrea, um rapaz de 18 anos, sequestrado, ferido, desaparecido. Nasceu a sua filha que ele esperava: esposa e mãe o suplicam.
Ele supera postos de bloqueio com a respiração suspensa, atravessa vilarejos que estão em ruínas, e eis a casa que o espera no fim de ruas vazias: 8 mil alauítas, fiéis a Assad, escaparam desde que os insurgentes controlam o país. Dall'Oglio vai conversar com quem agora comanda: eles não sabem de nada, semanas de confrontos entre gangues não identificadas, depois chegavam os tanques e os helicópteros do Exército, e os resistentes se dispersam nas plantações de frutas que ninguém cuida e que a estação seca ameaça com incêndios que irão sufocar a cidade. Falam-lhe da cabeça de um desconhecido, de corpos que se desfazem ao sol: ninguém sabe quem são.
Através de trincheiras ameaçadas por atiradores, tiros e gritos, Dall'Oglio chega a uma sala coberta por tapetes: entra-se descalço, a sala substitui a mesquita destruída. Prováveis militares, prováveis chefes de clãs discutem sobre a repacificação que irá reunir as pessoas depois da guerra.
Ninguém tem ideia de quando será o "depois". Mas projetam recuperar a harmonia intercomunitária e inter-religiosa, e é por isso que o acolhem com respeito: o exemplo do seu mosteiro os conforta. "Entendo que será difícil reencontrar Andrea...". Ele voltar para a primeira casa e não esconde isso aos familiares que esperam.
As mulheres estão vestidas de preto, pressentindo a má notícia. Ele retoma o seu caminho através dos controles desconfiados, sem descanso. Em Damasco, esperam-lhe os observadores de Kofi Annan o geral norueguês que os comanda. Conhecem Dall'Oglio de longe, querem entender o que pensam as pessoas entre as quais ele está imerso. Embora por pouco tempo, adverte com pesar, mesmo que seja difícil imaginá-lo em torno dos palácios de Roma.