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Para suprir ausência de eletricidade, pobres recorrem à energia solar na Índia

No meio da densa floresta dos arredores de Sullia, uma cidadezinha no sul da Índia, existe a luz dos pobres e a dos ricos. O querosene, que ilumina prejudicando os pulmões, e cujo abastecimento requer horas de caminhada; e a eletricidade levada por cabos para casas abastadas, na maioria das vezes ocupadas por donos de seringais. "Graças à eletricidade, o dia dura mais", se encanta Renuka, que mora com seu marido e sua sogra em uma pequena casa na encosta de uma colina e costuma passar ao lado desses ricos seringais.

A reportagem é de Julien Bouissou, publicada no Le Monde e reproduzida pelo Portal Uol, 12-06-2012.

Alguns meses atrás, técnicos da Selco, uma empresa de energia solar com sede em Bangalore, tiraram de seus jipes painéis solares cujas vantagens eles exaltaram aos locais. "Explicaram que a eletricidade podia vir diretamente do Sol sem passar pelo governo", lembra Renuka.

Depois de tomar o cuidado de verificar com um vizinho que a "luz do Sol" podia funcionar mesmo à noite, a família pagou pouco menos de 7 mil rúpias (quase 100 euros ou R$ 257) por um painel solar que alimenta duas lâmpadas e uma tomada elétrica. "Não é como a eletricidade dos ricos, mas pelo menos meu marido não terá de percorrer quilômetros para recarregar seu celular e eu poderei fabricar mais cigarros à noite", comemora a jovem.

Graças à energia solar, a Selco abasteceu com eletricidade 135 mil lares em Karnataka, um Estado do Sul da Índia. O governo afirma ter colocado 98% do território na rede elétrica, mas as torres de alta tensão que existem perto das casas não fornecem nenhum watt aos pobres. Alguns deles não têm os 250 euros (R$ 643) necessários para pagar os poucos metros extras de cabo e as propinas que acompanham, outros não possuem títulos de propriedade para pedir uma conexão. Eles estão em terras que pertencem ao Estado, às vezes em zonas florestais protegidas, e mal são tolerados.

A Selco, que se define como uma "empresa social", deve seu sucesso aos bancos, bem como à forte incidência de Sol na região. No modelo que ela imaginou, os bancos servem ao setor de energia solar: eles financiam, através de créditos, as compras das instalações e promovem essa nova energia em suas agências. Os clientes podem facilmente pagar seus empréstimos com o que economizam em querosene.

"Nosso alvo são aqueles que ganham entre US$ 2 e US$ 3 por dia [entre R$ 4 e R$ 6] e quase 95% de nossos clientes contraem um empréstimo", explica Kannan Revathi, diretora financeira da Selco.

Essa estratégia tem suas dificuldades. "Os bancos hesitam em fazer um empréstimo de somente 100 euros, e muitas vezes somos nós que devemos ir buscar o dinheiro na casa do cliente, às vezes todos os dias, para pagar o banco", reconhece Radhakrishna, diretor da Selco em Sullia.

Em caso de recusa dos bancos, há os "self help groups", ou grupos que servem de fiadores em casos de não pagamento dos empréstimos. A empresa lhes concedeu tarifas preferenciais, na esperança de converter seus membros à energia solar. Ela agora estuda uma alternativa ao empréstimo, que consiste em fornecer sistemas solares que funcionam à base do "pré-pago". A start-up Simpa Networks, com sede em Bangalore, inventou uma tecnologia que permite pagar horas de eletricidade através de seu celular, até que o equipamento solar seja totalmente quitado.

Os mais pobres moram em zonas isoladas de difícil acesso pela estrada. Os técnicos precisam caminhar horas em pequenas trilhas, com uma bateria e um painel solar nas costas, para instalar algumas tomadas elétricas. Nesse mercado, a Selco ainda precisa enfrentar a concorrência das luminárias solares, mais baratas, mas também menos confiáveis. A empresa argumenta que seus sistemas são feitos sob medida, como um painel solar instalado sobre um tronco de árvore plantado a alguns metros da casa para captar mais luz, e que são mais duradouros. Seus equipamentos têm uma garantia de duração de até oito anos.

Embora a empresa seja "social", ela precisa procurar outros clientes fora os da base da pirâmide para ter lucro. Todo ano, as filiais regionais da Selco precisam atingir metas de faturamento. São os aquecedores de água alimentados por painéis solares e a instalação de cercas elétricas que protegem as plantações de elefantes gulosos que obtêm as maiores margens de lucro. A energia solar também serve de fonte complementar para os lares já conectados à rede elétrica, mas que precisam sofrer sete ou oito cortes de energia por dia.

Na Índia, mais de 300 milhões de habitantes ainda não possuem eletricidade. A Selco tentou reproduzir seu modelo em outros lugares, como em Gujarat, dessa vez contando com microempreendedores que alugam luminárias solares aos vendedores de rua para que eles possam trabalhar depois que anoitece. Mas o modelo ainda não vingou. Não é em todo lugar que os vendedores de rua têm autorização, e às vezes suas lâmpadas são confiscadas pela polícia.

O Sol sozinho não garante o sucesso da energia solar. O modelo econômico precisa ser adaptado a cada Estado. No Rajastão, por exemplo, Rustam Sengupta criou a empresa Boond, que vende lanternas e instalações solares através de uma rede de agentes remunerados por comissão. Depois os melhores são treinados e integrados à empresa.

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