''Beethoven canta a fraterna convivência e convida a caminhar no amor'', afirma Bento XVI

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04 Junho 2012

No fim do concerto da 9ª Sinfonia de Beethoven, que ocorreu na última sexta-feira no Scala de Milão, em seu honra, Bento XVI homenageou do palco o maestro Daniel Barenboim, a orquestra e o coro, os presentes e a cidade, com um discurso: sobre a recordação do "concerto memorável", dirigido por Arturo Toscanini em 1946, depois da reconstrução à alegria da fraterna convivência dos povos de Beethoven, sobre o sofrimento das vítimas do terremoto da Emilia Romagna, à busca de um Deus próximo e de uma fraternidade que, em meio aos sofrimentos, sustenta o outro e assim ajuda a seguir em frente.

Segue abaixo a íntegra do discurso proferido pelo pontífice, publicado no jornal Corriere della Sera, 02-06-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Neste lugar histórico, gostaria, acima de tudo, de recordar um evento: era o dia 11 de maio de 1946, e Arturo Toscanini levantou a batuta para dirigir um concerto memorável no Scala reconstruído depois dos horrores da guerra. Narram que o grande maestro, recém-chegado aqui a Milão, se dirigiu imediatamente a este teatro e, no centro da sala, começou a bater palmas para testar se havia sido mantida intacta a proverbial acústica e, ouvindo que era perfeita, exclamou: "'É o Scala, é sempre o meu Scala".

Nessas palavras, "É o Scala!", está encerrado o sentido deste lugar, templo da ópera, ponto de referência musical e cultural não só para Milão e para a Itália, mas para todo o mundo. E o Scala está ligado a Milão de modo profundo, é uma das suas maiores glórias, e eu quis recordar aquele maio de 1946 porque a reconstrução do Scala foi um sinal de esperança para a retomada da vida de toda a cidade depois das destruições da guerra.

Para mim, então, é uma honra estar aqui com todos vocês e ter vivido, com esse esplêndido concerto, um momento de elevação da alma. Agradeço ao prefeito, o advogado Giuliano Pisapia, o superintendente, Dr. Stéphane Lissner, também por ter introduzido esta noite, mas sobretudo a Orquestra e o Coro do Teatro alla Scala, os quatro solistas e o maestro Daniel Barenboim pela intensa e envolvente interpretação de uma das obras-primas absolutas da história da música. A gestação da Nona Sinfonia de Ludwig van Beethoven foi longa e complexa, mas, desde os célebres primeiros primeiros 16 compassos do primeiro movimento, cria-se um clima de expectativa de algo grandioso, e a expectativa não fica desiludida.

A alegria de Beethoven e o seu ideal de humanidade

Beethoven, embora seguindo substancialmente as formas e a linguagem tradicional da Sinfonia clássica, faz perceber algo de novo já na amplitude sem precedentes de todos os movimentos da obra, que se confirma com a parte final introduzida por uma terrível dissonância, da qual se destacada o recitativo com as famosas palavras: "Ó amigos, não esses tons, entoemos outros mais atraentes e alegres", palavras que, em certo sentido, "viram a página" e introduzem o tema principal do Hino à Alegria. É uma visão ideal de humanidade a que Beethoven desenha com a sua música: "A alegria ativa na fraternidade e no amor recíproco, sob o olhar paterno de Deus" (Luigi Della Croce).

Não é uma alegria propriamente cristã a que Beethoven canta, é a alegria, porém, da fraterna convivência dos povos, da vitória sobre o egoísmo, e é o desejo de que o caminho da humanidade seja marcado pelo amor, quase como um convite que ele dirige a todos, para além de toda barreira e convicção.

A sombra do terremoto e o grande sofrimento

Nesse concerto, que devia ser uma festa alegre por ocasião desse encontro de pessoas provenientes de quase todas as nações do mundo, há a sombra do terremoto que trouxe grande sofrimento a muitos habitantes do nosso país. As palavras retomadas do Hino à Alegria de Schiller soam como vazias para nós ou, melhor, parecem não verdadeiras. De fato, não provamos as centelhas divinas do Eliseu. Não estamos ébrios de fogo, mas, ao contrário, paralisados pela dor por tamanha e incompreensível destruição que custou vidas humanas, que tirou casa e lar de muitos. Mesmo a hipótese de que, acima do céu estrelado, deve viver um bom pai, nos parece questionável. O bom pai está somente acima do céu estrelado? A sua bondade não chega aqui embaixo até nós? Nós buscamos um Deus que não domina à distância, mas que entra na nossa vida e no nosso sofrimento.

Um Deus próximo e a fraternidade

Nesta hora, as palavras de Beethoven, "Amigos, não esses tons...", gostaríamos de referi-las justamente às de Schiller. Não esses tons. Não precisamos de um discurso irreal de um Deus distante e de uma fraternidade não empenhativa. Estamos em busca do Deus próximo. Buscamos uma fraternidade que, em meio aos sofrimentos, sustenta o outro e assim ajuda a seguir em frente. Depois desse concerto, muitos irão à adoração eucarística – ao Deus que se colocou em nossos sofrimentos e continuam a fazê-lo. Ao Deus que sofre conosco e por nós, e que, assim, tornou os homens e as mulheres capazes de compartilhar o sofrimento do outro e de transformá-lo em amor. Precisamente a isso nos sentimos chamados por esse concerto.

Da família à paz no mundo

Obrigado, então, mais uma vez, à Orquestra e ao Coro do Teatro alla Scala, aos solistas e aos que tornaram possível este evento. Obrigado ao maestro Daniel Barenboim também porque, com a escolha da Nona Sinfonia de Beethoven, nos permite transmitir uma mensagem com a música que afirma o valor fundamental da solidariedade, da fraternidade e da paz.

E me parece que essa mensagem também é preciosa para a família, porque é na família que se experimenta pela primeira vez como a pessoa humana não é criada para viver fechada em si mesma, mas em relação com os outros; é na família que se compreende como a realização de si mesmo não está em se colocar no centro, guiado pelo egoísmo, mas em se doar; é na família que se começa a acender no coração a luz da paz para que ilumine este nosso mundo. E obrigado a todos vocês pelo momento que vivemos juntos. Muito obrigado!

* * *

Assista abaixo ao movimento 4 da Sinfonia nº. 9 de Beethoven, na versão executada ao Papa Bento XVI em Milão. O trecho mais conhecido do Hino à Alegria se encontra em 14min30s.

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