14 Mai 2012
Os efeitos da crise econômica, que em países como a Espanha já se manifestam há cinco anos, estão redesenhando o mapa eleitoral da Europa. Apenas entre janeiro e maio, 12 pleitos de nacionais foram realizados no continente. Em meio à confusão ideológica, com partidos de direita e de esquerda se alternando entre os vencedores, dois resultados parecem cada vez mais claros: a rejeição à austeridade fiscal e a emergência dos extremistas como forma de protesto contra o poder.
A reportagem é de Andrei Netto e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 14-05-2012.
O balanço das eleições vem sendo feito de perto por instituições como o European Elections Monitor, um gabinete criado pela Fundação Robert Schuman para observar a evolução das tendências de voto na União Europeia.
Entre as mais importantes votações realizadas no primeiro semestre estão as eleições presidenciais na França e as parlamentares na Grécia, ambas em 6 de maio. No entanto, o exercício da democracia na Europa ainda inclui eleições regionais na Alemanha e um importante referendo.
Em meio a tantos pleitos, cientistas políticos têm encontrado dificuldades em entender o caminho para o qual os eleitores europeus estão apontando. Duas conclusões, entretanto, são mais consensuais.
Extremismo
A primeira é a ascensão dos extremistas, tanto de direita quanto de esquerda. A segunda é a rejeição aos programas de austeridade impostos por Berlim e Bruxelas. Os dois efeitos, advertem os especialistas, são frutos de um denominador comum: mergulhada em turbulências econômicas desde 2007, a Europa assiste à ideologia ceder lugar à crise como principal fator de decisão eleitoral.
O crescimento dos extremistas é um efeito que vem se consolidando em toda a Europa há pelo menos dez anos. Nas últimas semanas, porém, pelo menos três resultados eleitorais reforçaram essa tendência na França, na Grécia e na Sérvia.
Na França, a Frente Nacional, partido de extrema direita liderado por Marine Le Pen, obteve 17,9% dos votos no primeiro turno das eleições ao Palácio do Eliseu, enquanto a Frente de Esquerda, do populista Jean-Luc Mélenchon, reuniu 11,1% dos votos.
Ao todo, seis candidatos dos dois extremos somaram 11,7 milhões de eleitores, mais do que os 10,2 milhões do socialista François Hollande, vencedor do primeiro turno.
No último fim de semana, a mesma tendência apareceu na Grécia, onde o partido de esquerda radical Syriza reuniu 16,78% dos votos, enquanto os neonazistas do Aurora Dourada obtiveram 6,9%. Na Sérvia, o resultado das eleições gerais, também realizadas no dia 6 de maio, apontou como vencedor o Partido Progressivo Sérvio (SNS), do líder nacionalista Tomislav Nikolic, à frente do Partido Democrático (PD), do premiê Boris Tadic, que tem uma ideologia pró- União Europeia.
O tema preocupa, embora os extremistas permanecem marginais na vida política dos maiores países da Europa - dentre as cinco maiores potências, Alemanha, França, Grã-Bretanha, Itália e Espanha, nenhuma tem partidos de extrema em coalizões de governo.
Xenofobia
Ao Estado, o sociólogo e escritor francês Alain Touraine advertiu para a disseminação dos grupos extremistas no continente. "Há movimentos de extrema direita em todo o bloco: na Noruega, na Suécia, na Dinamarca, na Bélgica, na Holanda, na Suíça, na Grécia. A xenofobia é hoje o grande movimento social da Europa", afirmou Touraine. "O movimento da extrema direita xenófoba e racista é a tradução de uma população que não busca se transformar e fazer as reformas que precisa."
Plano de austeridade afeta partidos no poder
O segundo fenômeno provocado pela crise, a rejeição da austeridade, é mais recente. Entre maio de 2010 e março passado, Grã-Bretanha, Irlanda, Portugal e Espanha escolheram primeiros-ministros de centro-direita, a exemplo de David Cameron e de Mariano Rajoy, para conduzir as finanças públicas e implantar planos de rigor fiscal.
Com a campanha de François Hollande, o eixo parece ter se deslocado em direção aos partidos que se opõem à austeridade. "Os países que implantaram políticas mais duras foram também os que registraram recessão ou taxas de crescimento entre as mais baixas. São os casos da Grécia, da Espanha e da Grã-Bretanha", afirma Sylvie Matelly, diretora de pesquisas do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (Iris).
Embora ainda poderosa, a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, foi afetada pela virada eleitoral. Enquanto o socialista Hollande se elegia em Paris, Merkel perdia a hegemonia de mais um Estado, em Schleswig-Holstein - embora seu candidato tenha chegado na frente. Foi a quinta derrota em seis eleições regionais realizadas em 2012.
Ontem, ela também foi derrota da Renânia do Norte-Vestfália, o Estado mais populoso e rico da Alemanha. Em ambas as eleições estaduais, a União Cristã Democrata (CDU), de Merkel, obteve seu pior resultado desde os anos 50. Após as votações, jornais, como o Financial Times Deutschland, decretaram a perda progressiva de poder da chanceler.
O próximo movimento no tabuleiro eleitoral ocorrerá na Irlanda, que dia 31 realizará um referendo para decidir se adere ou não ao pacto de estabilidade europeu, o tratado da austeridade imposto aos países da UE. Os irlandeses terão a chance de explicar didaticamente o que se passa na Europa