Os avanços dos lefebvrianos para o retorno à união com a Igreja

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21 Abril 2012

O acordo não foi assinado, portanto, formalmente, não se pode falar de progresso histórico. Mas, como até o porta-voz do Vaticano reconheceu na quarta-feira, 18, trata-se de "um passo à frente, de uma evolução encorajadora". Embora muito prudente, essa declaração marca uma etapa decisiva na longa novela das relações entre o Vaticano e os membros da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), o movimento integralista fundado por Dom Marcel Lefebvre (1905-1991) em 1970.

A reportagem é de Stéphanie Le Bars, publicada no jornal Le Monde, 20-04-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Depois de duas respostas negativas, definidas como "insuficientes" por parte Roma, Dom Bernard Fellay, superior da Fraternidade, no dia 17 de abril, deu uma última resposta ao "preâmbulo doutrinal" posto sobre a mesa pelo papa em setembro de 2011. Desta vez, esclareceu também o porta-voz do Vaticano, a resposta "é diferente das outras". Ela é "positiva", afirmou o vaticanista Andrea Tornielli no site especializado Vatican Insider.

Se for confirmado que as duas partes chegaram a um acordo apesar das divergências fundamentais sobre os ensinamentos do Concílio Vaticano II, estaria aberta a estrada para a reabsorção do último cisma em ordem de tempo na Igreja Católica. Ao menos no papel. A resposta oficial de Bento XVI é esperada nas próximas semanas, depois do exame da resposta integralista por parte da Congregação para a Doutrina da Fé, no dia 25 de abril.

O que está em jogo nessa reaproximação, à qual o papa deu início em 2007, é a reintegração no seio da Igreja Católica das tropas lefebvrianas, que se acredita serem compostas por cerca de 200 mil fiéis (dos quais uma grande parte se encontra na França) e por mais de 500 padres. Bento XVI, entristecido com o "cisma de Ecône", provocado em 1988 pela ordenação de quatro bispos por Dom Lefebvre, apesar da proibição papal, colocou a "unidade reencontrada da Igreja" entre as prioridades do seu pontificado.

Há cinco anos, o papa não poupou esforços para alcançá-la, com o risco de parecer conceder muito aos cismáticos, críticos virulentos dos principais pontos do "desastre" que, aos seus olhos, foi o Concílio Vaticano II – liberdade religiosa, ecumenismo, diálogo inter-religioso, colegialidade dos bispos – e "desvios" litúrgicos ao qual deu origem, e fortes adversários do clero e dos fiéis conciliares.

Depois de ter recebido Dom Fellay apenas quatro meses depois da sua eleição em 2005, o papa acolheu em 2007 uma das exigências dos integralistas e autorizou o retorno da "missa em latim", em vigor antes do Concílio. Em 2009, um segundo gesto teve uma repercussão inesperada: Bento XVI revogou as excomunhões emitidas contra os quatro bispos ordenados ilegalmente por Dom Lefebvre.

Um deles é um conhecido negacionista do Holocausto, e a decisão do papa complicaria as relações entre o Vaticano e as comunidades judaicas em todo o mundo. Além da sua rejeição às outras religiões, os integralistas são conhecidos pelo seu persistente antissemitismo.

No mesmo ano, acolhendo a terceira demanda dos integralistas, Bento XVI deu início a uma discussão doutrinal e teológica com a Fraternidade, um passo considerado por alguns como uma potencial traição do Concílio. Os especialistas das duas partes se encontrariam oito vezes. Ao mesmo tempo, a Fraternidade continuou criticando a Igreja e o papa, e a ordenar padres, infringindo o direito canônico. Ela também rejeitou várias vezes o "preâmbulo doutrinal", do qual se sabe apenas, segundo uma pessoa que conhece o dossiê, que ele "pede o reconhecimento do magistério dos concílios e dos papas, e da liturgia conciliar, deixando abertos à discussão os pontos de divergência". Desta vez, segundo o Vatican Insider, Dom Fellay teria aceitado o texto sem mudanças substanciais.

Uma etapa, não uma conclusão

De sua parte, a Fraternidade indicou que ainda se tratava apenas de uma "etapa e não de uma conclusão". Diante dos repetidos gestos de Roma, porém, a responsabilidade histórica de um fracasso pesaria sobre a Fraternidade, afirma uma pessoa que conhece o dossiê. À espera de um texto definitivo, espera-se que "esse passo à frente não seja simplesmente tático, porque Dom Fellay muitas vezes disse uma coisa e ao mesmo tempo o seu oposto".

Se se concretizar, a assinatura poderia levar a múltiplas interpretações e a potenciais conflitos na Igreja e no interior da própria Fraternidade. Algumas pessoas veriam nisso uma vitória dos tradicionalistas, com o seu regresso com força para a Igreja. Outras, um sucesso do papa que traz novamente os integralistas para o direito comum. Mas as consequências continuam sendo meras hipóteses. Na prática, concretamente, é provável que não mude muito. A FSSPX vive sem contato com o exterior, com as suas próprias escolas, os seus locais de culto e os seus seminários. Além disso, o papa teria que conceder-lhes uma prelazia pessoal, conferindo-lhes uma autonomia muito ampla com relação aos bispos locais.

Mas os outros três bispos integralistas seguirão Dom Fellay se um quarto dos fiéis, particularmente na França, parecem ser hostis à reintegração? Se apenas um dos bispos rejeitar o acordo, o cisma irá continuar. Como o clero e os fiéis que sofreram os ataques da comunidade integralista irão acolher a decisão da reintegração? O que pensarão desse gesto os "desobedientes", ou seja, os padres e fiéis que pedem evoluções na Igreja com relação ao casamento dos padres e à ordenação das mulheres, e que recentemente foram repreendidos pelo papa?

Assim como para Dom Hippolyte Simon, vice-presidente da Conferência Episcopal Francesa, para quem "um cisma é sempre uma desgraça", vários bispos franceses reconhecem que será preciso "tempo e pedagogia" para gerir a nova situação. Mas, no que se refere ao conteúdo, eles querem acreditar que as celebrações previstas neste ano para o 50º aniversário do Concílio Vaticano II irão provar que o papa "não pretende liquidar nada do Concílio Vaticano II", e que o seu pontificado se inscreve "na continuidade, sem renegar nem a tradição nem o Concílio".

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