Análise do eleitorado católico francês para as eleições presidenciais

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Por: Jonas | 20 Abril 2012

O historiador de Lion, Jean Dominique Durand, é um aguçado observador e um estudioso, de fama internacional, da história dos movimentos católicos, sociais e políticos na Europa. O “Vatican Insider” formulou algumas perguntas sobre as iminentes eleições presidenciais francesas, um momento fundamental para a vida do país e de toda a Europa.

A entrevista é de Luca Rolandi, publicada no sítio Vatican Insider, 19-04-2012. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

As próximas eleições presidenciais se apresentam como um momento crucial para a comunidade francesa e europeia. Depois de seu primeiro mandato, Sarkozy já não se apresenta como o homem novo, mas aquele da continuidade, em contraposição ao líder socialista Hollande.

Os católicos praticantes, ou seja, que vão à missa aos domingos, representam mais ou menos, segundo pesquisas, 14% da população. Nicolas Sarkozy teria 45% dos votos dos eleitores deste grupo, e 34% entre os eleitores não praticantes. Ao contrário, François Hollande teria somente 16% dos votos dos praticantes, e 24% entre os não participantes. Esta tendência se confirma no segundo turno, em que Sarkozy possui 70% dos votos dos católicos praticantes e 55% entre os não praticantes.

Portanto, podemos falar de um voto católico e dizer que esse voto tende para a direita. Porém, os estudos realizados (seria mais interessante fazer estes estudos com números exatos, depois da votação) mostram uma diminuição do voto de católicos em Sarkozy, apesar de seu discurso sobre a “laicidade positiva” e as raízes cristãs da França. Esta diminuição está relacionada, assim como para o conjunto da população, sobretudo, ao início de seu mandato, à sua vida particular e à sua relação com o dinheiro (o estilo denominado bling-bling), um estilo que tem se diluído com o tempo, mas cujas primeiras imagens do Governo Sarkozy permanecem na memória. E este estilo não corresponde à moral católica. Além disso, permanece a lembrança, e a realidade, da política em relação aos imigrantes, denunciada pelos bispos.

Uma parte do eleitorado católico, mesmo sendo minoria, inclina-se pelo voto socialista: é uma tradição francesa, marcada pela presença de várias personalidades católicas no Partido Socialista, como Jacques Delors, que pensam encontrar na esquerda uma maior atenção à justiça social. Porém, atualmente, ante as propostas de Hollande sobre o casamento gay, as pesquisas sobre embrião e a eutanásia, têm causado embaraços. E, no entanto, desconhece-se o quanto estas propostas influirão no voto. Uma pequena parte do eleitorado católico permanece ligada à extrema direita, representada por Marine Le Pen, no entanto, uma postura contrária às advertências dos bispos sobre um partido cujo programa não é compatível com os princípios cristãos, no âmbito da vida social. Esta parte está majoritariamente vinculada ao integrismo lefebvrista. Atualmente, podemos dizer que o voto católico divide-se, principalmente, entre três candidatos: inclinando-se, principalmente, para Sarkozy e a direita republicana; para Bayrou, que representa, pelo menos em parte, a tradição democrata-cristã, e para Hollande, que personaliza a tradição dos católicos de esquerda.

Depois, existem outros candidatos, começando pela filha de Le Pen, e o católico François Bayrou, que poderiam ser outsiders incômodos. Nesta situação, como se colocam os católicos, os laicos ou os crentes que, apesar de não pertencer a um associacionismo estruturado, constituem uma realidade importante na sociedade francesa?

O verdadeiro outsider é o candidato de extrema esquerda, apoiado pelo Partido Comunista, Mélenchon, que representa um grande desafio para o candidato socialista. Porque se apresenta como um aliado muito enfastioso, com exigências fortes e irreais no contexto econômico atual. Sobretudo, com um elevado número de votos, poderia impedir Hollande de abocanhar o eleitorado de Centro e, em particular, os eleitores católicos. Por outro lado, neste momento, François Bayrou parece perder consenso. Católico, porém com posturas quase laicistas, europeístas, mas lançando o slogan: “Achetez français” (“comprar francês”), aglutina seu eleitorado natural, mas bem católico e, sobretudo, partidário de uma sólida construção da Europa.

Os bispos franceses interviram nas eleições presidenciais e nas expectativas dos franceses com um documento muito interessante.

A Conferência dos bispos franceses publicou, em outubro de 2011, um documento que recordava as responsabilidades sociais dos católicos e oferecia elementos de discernimento. Lamentavelmente, não recebeu a atenção midiática que merecia. É o problema de nossa sociedade e de nossos meios de comunicação, sobretudo, da televisão, que deixa em segundo plano o que é positivo. O documento foi difundido pelas igrejas, mas, concretamente chegou a poucas pessoas. Eu receio que este documento influencie pouco nas decisões dos eleitores.

A sociedade francesa intercultural e inter-religiosa ainda não completou este aspecto, especialmente nas áreas mais densas. Sem esquecer os sucessos como o de Toulouse, atualmente, a política consegue falar sobre esta realidade e enfrentá-la?

A sociedade francesa, em poucos decênios, se tornou multicultural e plurirreligiosa. Hoje em dia, talvez junto do Reino Unido, a França é, provavelmente, o país europeu mais heterogênio, do ponto de vista cultural e religioso. É preciso dar tempo ao tempo para realizar a integração, do ponto de vista social, das populações frágeis.

Sabemos que a França – país de antiga tradição imigrante – tem dificuldades, no momento, para aceitar pessoas procedentes de países vizinhos como Itália, Espanha, Portugal, de comum civilização cristã. Porém, tem conseguido integrar a milhares e milhares de pessoas.

Lamentavelmente, tem sido criados guetos nas periferias das grandes cidades e os políticos, ante os problemas complexos, tendem a simplificar, a exagerar os problemas para captar votos. Constitui um problema, no qual encontramos a pressão, muitas vezes negativa, dos meios de comunicação. Por outro lado, os problemas provêm, sobretudo, do Islã. A França tem sido um país colonizador, que possuiu um amplo império, em grande parte do mundo islâmico. Para os franceses, o islã foi considerado, por muito tempo, a religião dos colonizados, vista com desprezo e nunca reconhecida. Para os mulçumanos, o cristianismo era a religião do colonizador. E, atualmente, após a perda do império, sobretudo depois da independência da Argélia, e após uma terrível guerra que durou oito anos, o islã tem se convertido na segunda religião dos franceses.

É compreensível que nos encontremos frente a um grande problema psicológico, e que serão necessárias várias gerações para superá-lo. Além disso, nosso tempo deverá encarar aos problemas, entre as nações, que complicam esse desafio: o Oriente Médio, a violência islâmica, a pressão demográfica do Sul sobre o Norte do mundo, a crise econômica, etc. Não estou seguro de que a laicidade, à moda francesa, seja a resposta mais adequada a problemas tão amplos, porque nossos políticos, como tantos cidadãos franceses, não só desconhecem as religiões, como também as temem. A resposta com leis laicistas, como a que proíbe as jovens de usar o véu islâmico nas escolas, não é a resposta adequada à integração. A rigidez laica que, por exemplo, impede qualquer tipo de ensino religioso nas escolas, fomenta a ignorância sobre as religiões e, portanto, o medo.

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