O jogo das diferenças. Artigo de Immanuel Wallerstein

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Por: André | 18 Abril 2012

“Em 2012, haverá duas importantes e concorridas eleições presidenciais. Na França, no dia 22 de abril, e nos Estados Unidos, no dia 06 de novembro. Virtualmente, os mesmos pontos estão sendo debatidos em cada um destes países e quase da mesma maneira. Em ambos, os presidentes são as figuras políticas mais poderosas. Mas há uma grande diferença entre essas eleições: não é de ideologia, mas das regras da eleição em si. Diferentes regras produzem táticas eleitorais surpreendentemente diferentes”, escreve Immanuel Wallerstein, em artigo publicado no jornal argentino Página/12, 16-04-2012. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Em 2012, haverá duas importantes e concorridas eleições presidenciais. Na França, no dia 22 de abril, e nos Estados Unidos, no dia 06 de novembro. Virtualmente, os mesmos pontos estão sendo debatidos em cada um destes países e quase da mesma maneira. Em ambos, os presidentes são as figuras políticas mais poderosas. Mas há uma grande diferença entre essas eleições: não é de ideologia, mas das regras da eleição em si. Diferentes regras produzem táticas eleitorais surpreendentemente diferentes.

Em ambos os casos existem dois partidos importantes que historicamente se apresentam a si mesmos como uma centro-direita que se opõe a uma centro-esquerda. Os observadores de quase todas as convicções políticas concordam em que as políticas reais de cada um destes partidos, uma vez no poder, não são muito diferentes. Não obstante, existem algumas diferenças que cada um considera cruciais, e estas motivam que cada grupo lute tenazmente pelas eleições presidenciais.

Em ambos os países existe o que poderíamos chamar de uma extrema direita e uma esquerda radical. A extrema direita e a esquerda radical denunciam os dois partidos centristas como compadres gêmeos e conclamam à formação de plataformas políticas que sejam realmente de esquerda ou de direita. Este jogo é bastante diferente em cada país, devido aos muito diferentes sistemas eleitorais.

Nos Estados Unidos, a eleição acontece em 50 unidades separadas – os Estados. O vencedor em cada Estado leva tudo no Estado, que conta para um número de votos específicos no que se conhece como colégio eleitoral. Este sistema dificulta muito que um terceiro partido tenha um impacto real na decisão de quem é eleito. Contudo, há quem não se altera com este e lança candidato de qualquer maneira. Algumas vezes fazer isto influi nos resultados em alguns Estados, e desse modo os resultados finais. Por exemplo, em 2000 alguns analistas arguiram que a candidatura de Ralph Nader roubou os votos necessários ao candidato democrata Al Gore, o que o privou da vitória em duas entidades. Portanto, disse-se muitas vezes, a candidatura de Nader contribuiu para a eleição de Bush.

No passado, a extrema direita nos Estados Unidos tendia a abster-se de entrar no jogo eleitoral alegando que o Partido Republicano era muito liberal para o seu gosto. Mas há cerca de 20 anos este grupo decidiu que o modo de influir no resultado era entrar no Partido Republicano e forçá-lo, confrontando os republicanos que eram muito centristas nas eleições primárias no interior do partido, para que elegessem candidatos mais conservadores. Atualmente, este grupo é amplamente conhecido com o nome de Tea Party. Esta tática de entrar no jogo eleitoral foi bastante bem sucedida e o Partido Republicano se moveu, de fato, significativamente para a direita nos últimos 12 anos, mais ou menos.

Na França, as eleições funcionam de modo bem diferente. Por uma razão: são nacionais, não há subunidades eleitorais. Uma segunda razão é que, a menos que um candidato receba mais de 50% dos votos, sempre há um segundo turno, no qual os dois partidos com maiores porcentagens de votos no primeiro turno são a única opção a ser escolhida.

O sistema permite e de fato encoraja que grupos de todos os matizes políticos apresentem um candidato presidencial no primeiro turno, dado que os eleitores sabem que podem outorgar seu voto a um dos dois partidos principais. O primeiro turno serve como demonstração da força popular e afeta primordialmente, assim o esperam, as políticas do partido vencedor depois do segundo turno.

O sistema francês tem uma falha. Ambos os partidos importantes têm que contar com os votos necessários para passar para o segundo turno. Em 2002, o que foi algo excepcional, o partido de centro-esquerda, os socialistas, ficou apenas atrás do partido de extrema direita, o Frente Nacional, e ambos foram eliminados. Portanto, este ano os socialistas estão enfatizando a importância do vote utile (voto útil) para que não aconteça o que aconteceu da outra vez. O trauma de 2000 para os democratas nos Estados Unidos é semelhante ao de 2002 para os socialistas na França.

Onde isto nos deixa? Nos Estados Unidos, o eventual candidato republicano se apresentará como muito conservador graças às pressões do Tea Party e, portanto, corre o risco de perder os votos dos chamados moderados, que são mais centristas. O candidato democrata, que será o presidente Obama, desiludiu muitos de seus mais ardorosos simpatizantes ao mover-se contundente à direita durante seu primeiro mandato. Agora procura ganhá-los novamente com uma plataforma mais populista, mas preocupa que, no processo, possa perder alguns dos republicanos moderados desiludidos. Em 2012, não se observam candidatos significativos de partidos menores.

Na França, a situação é mais complicada. As últimas pesquisas mostram que os dois candidatos dos maiores partidos – Nicolas Sarkozy, do partido de centro-direita, o UMP, e François Hollande, do partido de centro-esquerda, os socialistas – estão muito próximos no primeiro turno. Entretanto, cada um tem pouco menos de 30% de votos. Os restantes 40-50% se repartirão entre outros três candidatos, primordialmente: Marine Le Pen, da Frente Nacional, de extrema direita; François Bayrou, do partido de centro-centro (que condena a UMP e os socialistas por não serem suficientemente centristas), e Jean-Paul Melenchon, da Frente de Esquerda, que pretende atrair a maior parte dos votos da esquerda radical, apesar da participação de um número de outros partidos de extrema esquerda na eleição.

Le Pen, Bayrou e Melenchon, até o momento, têm nas pesquisas entre 14% e 18% dos votos cada um. Então, nenhum deles parece provável para o segundo turno. O desempenho de Melenchon foi a grande surpresa nas eleições. Mas também existe o prognóstico de que, caso as pesquisas mostrarem que Hollande vai cair muito, talvez a metade de seus atuais simpatizantes vote em Hollande em vez de nele [Melenchon] para não arriscar que Le Pen e Bayrou tirem Hollande da jogada.

Contudo, se Melenchon conseguir uma grande votação e Hollande for para o segundo turno, duas coisas serão certas. Uma, isto será uma clara mensagem aos socialistas de que tem que se mover para a esquerda. Segundo, quase todos os que votaram em Melenchon votarão em Hollande no segundo turno. Na direita, contudo, a maioria dos eleitores de Le Pen serão reticentes em votar em Sarkozy, e a Frente Nacional não o recomendará. Caso o fizerem, minaria a própria base de sua existência.

O sistema francês parece funcionar melhor para a esquerda radical. O norte-americano, para a extrema direita. Mas isto é, sobretudo, pelas diferentes regras eleitorais que possuem.

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