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'Diariamente chegam crianças à beira da morte', diz médica brasileira no Níger

A pediatra brasiliense Livia Claudio de Oliveira, que faz parte de uma missão dos Médicos Sem Fronteiras no Níger (centro-oeste da África), atendeu há alguns dias uma menina de quatro anos que nunca havia ido ao médico.

A reportagem é de Paula Adamo Idoeta e publicada pela BBC Brasil, 11-04-2012.

A família da menina passara três horas caminhando ao sol para levá-la à clínica do MSF em Bakoro, ao sul do Saara, onde chegou em estado grave: sofria de desnutrição e pneumonia, agravados por uma doença cardíaca congênita.

A menina é uma entre as cerca de 300 mil crianças do Níger que sofrem, anualmente, de desnutrição grave, situação colocada em evidência por um alerta da ONU a respeito do perigo de uma crise da fome na região africana do Sahel.

Por conta de uma seca profunda, da alta do preço dos alimentos e de fatores como instabilidade política, cerca de 15 milhões de pessoas correm risco de passar fome no Sahel - faixa de território subsaariano que vai de leste a oeste da África, passando por países empobrecidos como Níger, Senegal, Mali, Mauritânia, Burkina Fasso e Nigéria.

Em uma área fortemente dependente da agricultura de subsistência, secas mais graves costumam ser sinônimo de doenças e morte. Oliveira, que está no Níger há 20 dias, relata que a quantidade de crianças doentes em decorrência da desnutrição é "impressionante".

"São casos muito graves. A clínica (do MSF) recebe entre cinco e oito crianças à beira da morte por dia, por desnutrição e até intoxicação com remédios e chás de ervas locais", diz, em entrevista telefônica à BBC Brasil, na clínica do MSF em Bakoro, que atende entre 300 e 400 pessoas por mês.

"É marcante a quantidade de crianças órfãs e a situação em que elas chegam ao hospital", diz, citando a bebê Hassana, de três meses (vista na foto desta reportagem), que está desnutrida e já perdeu a mãe e a irmã gêmea, mortas de diarreia.

Muito além da falta de alimentos

Oliveira ressalta, porém, que a questão não será resolvida apenas com o suprimento de mais comida à população.

"Nem sempre os parentes das crianças que tratamos estão desnutridos, e elas chegam com pneumonia, diarreia, malária, meningite. Faltam não só alimentos adequados, mas acesso à saúde em zonas rurais ou de população nômade, saneamento, políticas públicas. Algumas pessoas têm que andar 40 km para receber atendimento."

Apesar da seca da atual temporada ter sido mais severa do que em anos anteriores - fator que desencadeou o alerta da ONU para uma crise na região -, Oliveira diz que a situação observada pelo MSF no Níger ainda não parece mais grave do que em anos anteriores.

"(A falta de água para agricultura) é sempre é dura nessa época do ano. Mas ainda não chegamos no pico da seca, que é entre abril e maio."

E o alerta contra a crise de fome pode fazer com que sejam levantados fundos suficientes para melhorar a alimentação da população local de maneira paliativa, "mas isso mudará a história apenas deste ano, e não a do ano que vem", lamenta a pediatra brasileira.

Apesar do prognóstico sombrio, Oliveira diz que o trabalho é gratificante: "São doenças tratáveis. As crianças chegam muito mal, mas com uma ou duas semanas de tratamento e alimentação, saem muito bem. A questão é que o trabalho (de tratá-las) é infinito", relata. A menina de quatro anos, que chegou em estado grave, é um exemplo positivo: depois de ser internada, ganhou peso e há alguns dias recebeu alta, com boas chances de sobreviver caso seja alimentada e cuidada.

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