Após sofrer forte repressão policial, manifestantes de Aysén, no Chile, aguardam o cumprimento de reivindicações

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Por: Jonas | 27 Março 2012

Aysén, durante séculos, foi um dos lugares mais desconhecidos do planeta. Era o temor dos marinheiros e sonho dos utópicos. Hoje, as coisas mudaram, porém não completamente. Aysén continua sendo uma região isolada. A vida no sul do Chile jamais foi fácil, porém o atual problema não é só o de ligação com o restante do país, mas principalmente advém do caráter centralizador dos governos, a despeito desse local.

A reportagem é de Christian Palma, publicada no jornal página/12, 25-03-2012. A tradução é do Cepat.

Cansados da falta de oportunidades, os habitantes da região patagônica se organizaram, bloquearam rotas e se manifestaram com tal força que o grito de raiva ecoou nos corredores do Palácio de La Moneda, nas barbas do próprio presidente Sebástian Piñera, e de seu ministro do Interior, Rodrigo Hinzpeter. O tom da coisa subiu, a partir do dia 13 de fevereiro, quando os pescadores, transportadores e moradores bloquearam uma das principais rotas da região, impedindo o abastecimento da cidade. As demandas dos homens do mar por suas cotas de pesca, as queixas dos caminhoneiros pelos preços dos combustíveis e os pedidos por mais e melhor saúde e educação começaram a tornarem-se fortes. Elas ameaçavam incendiar outra vez a região, como aconteceu, no ano passado, na Terra do Fogo – por queixas semelhantes – ou em Santiago, com o movimento estudantil.

Os protestos em favor de Aysén se repetiram em várias cidades e da capital viajaram os principais líderes dos estudantes, em demonstração de apoio. Enquanto isso, a polícia reprimia duramente os povoadores, usando bombas lacrimogêneas e balas de borracha. A excessiva violência com que atacavam virou tema nacional e a raiva contra os carabineiros (polícia ostensiva) e contra Hinzpeter, ministro encarregado pela segurança nacional, atravessou o país. O repúdio, por meio das redes sociais, cruzou fronteiras. A população respondia como podia e teve habilidade em render e queimar alguns ônibus policiais, enquanto uma chuva de balas e bombas caía sobre ela. “Isto é uma situação de abuso. Carabineiros se metem irracionalmente nas casas”, denunciava Iván Fuentes, o carismático porta-voz e presidente do Movimento Social por Aysén, que tem se envolvido nas principais frentes no Chile, ocupando de alguma maneira a posição que, em 2011, Camila Vallejo teve no conflito estudantil.

Da outra calçada, a intendente da região, Pilar Cuevas, solicitava aos manifestantes para desbloquearem os caminhos para poder entrar na área: “Necessitamos levar combustível para o hospital, para a luz, para os vizinhos e para o estoque crítico dos bombeiros.” Porém, as pessoas não cediam e ignoravam a advertência de desabastecimento.

Após várias semanas de abate e enfraquecimento e com um governo que desestimulou as mobilizações, colocando condições para restaurar o diálogo, a violência não retrocedeu. “O governo tem que governar para todos os chilenos e não somente para aqueles que protestam. Nem todos os pedidos – por legítimos que sejam – podem ser atendidos imediatamente”, assegurava Pinheiro, que está em viagem pela Ásia.

Fuentes respondia no ato: “Conheço a pobreza profundamente e sinto a dor alheia todos os dias e isso faz sentido, o fato de poder dizer que existe algo que podemos fazer”. As palavras deste pescador ganhavam adeptos.

Como 22 pessoas, entre donas de casa, pescadores, dirigentes sociais e trabalhadores agrícolas foram processados pela Lei de Segurança Interior do Estado. O secretário geral de Governo, Andrés Chadwick, respaldou essa decisão argumentando que há situações de “grave violência que alteram por completo a paz social e a tranquilidade na região”.

“Assim como existe a Lei de Segurança do Estado, deveria existir uma lei que penalize a inoperância política”, respondia Fuentes pela televisão, acrescentando que este movimento não é recente e que vem gestando-se há muito tempo. “Todos havíamos feito a denúncia de como se encontrava a região e não havíamos sido escutados. Este movimento nasceu quando todos nós dissemos um basta”.

A polícia não parava de distribuir pauladas, tanto que os aiseninos apresentaram um recurso de proteção, por causa do uso de bombas lacrimogêneas no interior das casas dos manifestantes, que foi aceito pela Justiça. Ao final, determinou-se a “proibição absoluta, aos carabineiros, do uso de bombas lacrimogêneas e de balas de borracha contra as pessoas”. Ainda assim, Iván Fuentes assegurava: “a violência não começa com a barricada, começa muito antes. Existe uma violência no desprezo, no abandono das necessidades das pessoas, no esquecimento daqueles que estamos representando” e recordava ao país que o Chile necessitava de bons carabineiros, “desejosos de sua pátria, o que exige responsabilidade para com todos os chilenos, porque pagamos os seus salários”.

Neste cenário, o próprio Fuentes e outros dirigentes chegaram, na noite de sexta-feira, a Santiago para apresentarem suas credenciais. As expectativas de se chegar a um acordo eram altas para ambas as partes. Para o governo se tornou crucial acabar com os protestos, mais ainda quando os carabineiros reconheceram haver atuado com violência, e para os dirigentes devido à ameaça de desgaste projetando-se sobre suas cabeças. Finalmente, os aiseninos dobraram o poder centralizador e conseguiram com que o Executivo se comprometesse a modificar o sistema de bônus para a contratação de mão de obra – para que seja pago de maneira direta aos trabalhadores -, e mudanças na lei de áreas extremas, o que permitirá a instalação de uma zona franca regional, por motivo de “isolamento”. Além disso, se dará resposta para uma demanda chave: rebaixar os preços dos combustíveis, a faísca que desprendeu o conflito. As forças especiais começaram a retirarem-se e os bloqueios das rotas a se desfazerem.

No entanto, a crise em Aysén e a do governo estão longe de acabar. A oposição, com deputados de diferentes bancadas, insiste na acusação constitucional contra o ministro do Interior, Rodrigo Hinzpeter. “Sua conduta tem sido sistemática e reflete não somente uma deficiente gestão, mas uma concreta violação dos direitos civis dos aiseninos”, disse a deputada da oposição, Carolina Goic. “Seguiremos adiante, com mais força ainda, porque a repressão de carabineiros deve parar.”

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