Brasil temia 'guerrilha ambiental' na mata

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21 Fevereiro 2012

O governo brasileiro monitorou a ação de ONGs ambientalistas na Amazônia nos anos 1990, temendo a instalação de uma "guerrilha ambiental" na floresta.

A reportagem é de Cláudio Angelo e Rubens Valente e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 21-02-2012.

Em 1994, a embaixada brasileira em Washington chegou a sugerir que o país cortasse "o mal pela raiz" e impedisse uma incursão de um navio do Greenpeace "de bandeira estrangeira e com estrangeiros a bordo".

A preocupação aparece em telegramas sigilosos do Itamaraty entregues à Folha, dentro do projeto "Folha Transparência".

Os documentos datam principalmente de 1990 a 1994, período no qual a diplomacia brasileira reagia de forma muito defensiva à temática ambiental, devido à Eco-92. A megaconferência terá seus 20 anos marcados pela Rio +20, em junho.

Os telegramas permitem vislumbrar a quase paranoia com que o Brasil tratava a questão de soberania na Amazônia naquela época.

Há, por exemplo, uma mensagem de fevereiro de 1992 na qual o então chanceler Francisco Rezek instrui o embaixador Rubens Ricupero a dispensar delicadamente a mediação do ex-presidente americano Jimmy Carter na negociação de um acordo internacional sobre florestas - convertido em uma mera "declaração" na Eco-92.

"Não nos interessaria a caracterização do tema florestas como um 'key issue' [tema central] merecedor de atenção individualizada", afirma o documento.

IDIOTA

Em outra mensagem, dessa vez de 1991, Rezek pede a censura a um relatório do Banco Mundial que tratava dos problemas ambientais da Amazônia. Procurado pela Folha, o ex-chanceler disse:

"O relatório me pareceu idiota". Segundo ele, era mais um exemplo de "agente externo tentando diagnosticar problemas brasileiros sem conhecimento de causa".

"Dizia que o governo era negligente com a floresta, quando o governo Collor estava bombardeando aeroportos de garimpeiros na Amazônia, que eram um desastre para o ambiente e para as populações indígenas", afirma.

Um dos telegramas mais duros é de 27 de setembro de 1994 e assinado pelo então embaixador em Washington, Paulo de Tarso Flecha de Lima. Ele pede informações sobre a posição do governo a respeito de notícias de que a ONG ambientalista Greenpeace estaria prestes a iniciar o que qualifica de "guerrilha ambiental" na Amazônia.

Flecha de Lima recomenda uma posição enérgica do governo, sugerindo que os "responsáveis pelas mencionadas ameaças (...) sejam severamente advertidos" e que o navio da ONG "tenha verificadas as condições de sua presença no Brasil".

A expedição "guerrilheira" acabou sendo autorizada pelo presidente Itamar Franco, mas foi acompanhada à distância pelo Itamaraty - e de perto pela Marinha.

"Durante três meses, um navio-patrulha fluvial ficou nos seguindo", recorda-se Paulo Adário, hoje diretor do Greenpeace na Amazônia, que estava a bordo do navio.

O grupo teve ativistas presos e recebeu da Polícia Federal ordem de sair do país após invadir um navio que carregava madeira.

"Ficou uma situação meio ridícula, já que eu era brasileiro e fui expulso do país", conta o ambientalista. A ordem policial foi derrubada pela Justiça do Pará.

DESCONFIANÇA

Segundo o ex-deputado Fabio Feldmann, que ajudou a mediar o diálogo entre o governo e ONGs na Eco-92, o teor dos documentos não surpreende. "Florestas sempre foram uma questão de soberania, e isso unia até mesmo o PC do B à UDR [União Democrática Ruralista]", diz.

Ele atribui ao Brasil parte da culpa pelo fato de o tema das florestas ter virado simples declaração política no Rio, quando clima e biodiversidade ganharam convenções das Nações Unidas. "O Itamaraty era terceiro-mundista, achava que a reunião era contra o Brasil", afirma.

Rezek atribui a postura do governo ao "cinismo expropriatório" dos países ricos. "A posição do Brasil foi de cautela, porque sabíamos o que andava circulando lá fora. Em escolas americanas andavam circulando certos atlas mostrando a Amazônia como área internacional."

O embaixador Celso Lafer, chanceler brasileiro durante a Eco-92, diz que a posição brasileira sobre o tema tem evoluído. "Hoje temos mais conhecimento", afirma.