Cinco perguntas sobre o escândalo dos vazamentos do Vaticano

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21 Fevereiro 2012

Com o consistório, Roma assume a atmosfera de uma reunião universitária. Aparecem pessoas da Igreja de todas as partes, tornando-se difícil caminhar pelas ruas sem esbarrar em alguém que você conhece. Isso aconteceu esta semana, antes do consistório desse sábado em que o Papa Bento XVI criou 22 novos cardeais, incluindo os norte-americanos Timothy Dolan e Edwin O'Brien.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada no sítio National Catholic Reporter, 17-02-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Nessa semana, sempre que um encontro casual desses ocorria, a conversa rapidamente se voltava para uma questão acima de todas: que diabos está acontecendo aqui?

O fundamento para essa questão, é claro, é a multiplicação do escândalo dos vazamentos do Vaticano, em que documentos confidenciais estão aparecendo nos jornais quase diariamente, colocando o Vaticano sob uma luz altamente desfavorável. Até agora, já há quase documentos demais para manter o controle, mas, entre os principais itens, incluem-se:

  • Cartas escritas ao papa e ao secretário de Estado, cardeal Tarcisio Bertone, pelo atual embaixador papal nos Estados Unidos, o arcebispo italiano Carlo Maria Viganò, queixando-se da corrupção nas finanças do Vaticano e de uma campanha de difamação contra ele. Na época, ele era a autoridade número dois do Estado da Cidade do Vaticano e estava tentando evitar desesperadamente ser mandado embora.
  • Um memorando anônimo escrito sobre uma nova lei vaticana contra a lavagem de dinheiro, que sugeria que a lei continha uma enorme lacuna – que ela bloqueia a ação penal contra qualquer infracção anterior a 1º de abril de 2011, quando a lei entrou em vigor.
  • Materiais vazados alimentando as acusações de que o Instituto para as Obras de Religião (o chamado "Banco do Vaticano"), transferiu recentemente milhões de euros a bancos estrangeiros para se evadir dos controles italianos e que se esquivou de vários inquéritos italianos.
  • Outro documento anônimo, escrito em alemão, descrevendo uma conversa que o cardeal Paolo Romeo, de Palermo, Sicília, supostamente manteve durante uma viagem à China, em que ele previu que o papa seria morto dentro de 12 meses e substituído pelo cardeal Angelo Scola, de Milão. Esse documento foi repassado ao papa pelo cardeal colombiano aposentado Darío Castrillón Hoyos.
  • Dois memorandos internos do Vaticano, incluindo um escrito pelo cardeal Atillio Nicora, que chefia uma nova agência de fiscalização financeira, advertindo que as recentes modificações da lei vaticana contra a lavagem de dinheiro seriam vistas como um "passo atrás" na reforma e poderiam criar "alertas" entre os órgãos regulatórios internacionais.

Enquanto esta coluna é escrita, rumores apontam que mais documentos vazados estão a caminho, talvez ainda no fim desta semana. Obviamente, alguém de dentro do Vaticano – o que o L'Osservatore Romano, o jornal do Vaticano, recentemente chamou de um monte de "lobos" irresponsáveis – decidiu deixar as fotocópias rolarem soltas.

No espírito das conversas dessa semana em torno de Roma, aqui estão cinco perguntas e respostas sobre a atual onda de escândalos vaticanos.

Isso é muito ruim?

Esse é um estranho caso em que não se trata tanto do conteúdo dos vazamentos, mas sim da sua existência, que é o problema real.

À medida que a poeira baixava, nenhuma das revelações recentes parecia ser especialmente fatal. A história do complô antipapal entrou em colapso com a sua própria tolice, enquanto o Vaticano emitiu explicações incomuns, ponto por ponto, sobre os materiais relativos ao IOR e à sua lei antilavagem de dinheiro. Em todo o caso, a publicação das cartas de Viganò realmente ajudou o Vaticano. Antes, Viganò apenas parecia ser um reformista que tinha se dado mal. As cartas, no entanto, revelaram um veio um tanto defensivo, tornando mais fácil acreditar que a sua remoção poderia ter a ver com a personalidade, ao invés das políticas.

No entanto, independentemente da opinião pessoal de cada um, esses documentos são todos reais e estão realmente sendo vazados. A própria equipe vaticana está alimentando o escândalo, que está ganhando um porte tanto interno, quanto externo.

Internamente, a situação tem alarmado algumas lideranças da Igreja e, em alguns casos, enlouquecendo. De um lado, os bispos de todo o mundo gostariam de pensar que podem compartilhar informações confidenciais com o papa e Bertone sem ler a respeito nos jornais. Mais basicamente, tanto os vazamentos quanto os motivos aparentes por trás deles reduzem a confiança de que as decisões do Vaticano são tomadas com base no mérito, em vez de serem arrastadas para disputas internas mesquinhas – especialmente, é preciso dizer, se eles acabam na Secretaria de Estado. Como um antigo prelado, que não tem nada de um liberal ardente, me disse nesta semana: "Eu não traria um problema aqui e agora para salvar a minha vida".

Em outras palavras, o Vaticano corre o risco de perder a confiança – não entre seus críticos ou inimigos (esse barco provavelmente partiu há muito tempo), mas sim entre seus melhores amigos.

Externamente, onde a percepção é muitas vezes realidade, quase não importa se os documentos são verdadeiramente prejudiciais. A opinião pública já é de que o Vaticano está novamente envolvido em escândalos, alimentados por homens de Igreja que se esfaqueiam pelas costas. Essa percepção dificulta ainda mais contar qualquer outra história sobre a Igreja Católica (incluindo notícias basicamente boas para o Vaticano, como a sua recente reunião de cúpula sobre os abusos sexuais ou seus esforços pela glasnost financeira) e dificilmente oferece um lançamento promissor para o projeto de uma "nova evangelização" de Bento XVI.

Então, isso é ruim? A resposta é: sim, bastante ruim.

Quem está vazando essas coisas?

Até agora, ninguém sabe. As três coisas que a maioria dos observadores concordam são:

  • Os vazamentos têm o efeito de fazer com que Bertone pareça ruim, levando muitos a acreditar que eles vêm de informantes hostis a ele.
  • Pelo menos alguns deles parecem vir de dentro da própria Secretaria de Estado, ou melhor, do próprio escritório de Bertone.
  • Na maior parte, eles não parecem estar relacionados com um corajoso dedo-duro que está tentando expor más ações ou promover a reforma. Os motivos parecem ser mais pessoais e políticos.

Além disso, três teorias populares estão circulando por aí, mas são apenas palpites e especulações. Eu os resumi aqui só porque se tornaram ubíquos nos jornais e na TV e, portanto, fazem parte da história.

Um ponto de vista sustenta que os vazamentos provêm de pessoas próximas ao cardeal Angelo Sodano, ex-secretário de Estado de João Paulo II e atual decano do Colégio dos Cardeais.

A teoria é de que a equipe de Sodano representa uma velha guarda da Secretaria de Estado que não perdoou nem esqueceu o fato de que Bertone é um forasteiro, alguém que conseguiu o seu trabalho porque trabalhava para Bento XVI na Congregação para a Doutrina da Fé. Esse ressentimento foi agravado – ou pelo menos parece ter sido – pelo fato de que o atual "substituto", ou seja, o principal vice de Bertone, basicamente também é um forasteiro. O arcebispo Giovanni Angelo Becciu provém do corpo diplomático do Vaticano, mas, antes de sua nomeação em maio, ele nunca havia trabalhado na Secretaria de Estado.

Outra interpretação sustenta que os vazamentos vêm de italianos com ligações com o cardeal Camillo Ruini, o poderoso ex-presidente da Conferência dos Bispos da Itália. Segundo esse ponto de vista, os aliados de Ruini se ressentem do fato de que Bertone entrou em confronto com Ruini acerca do seu sucessor na Conferência dos Bispos e, mais em geral, que Bertone assumiu o papel de principal porta-voz da Igreja nos assuntos italianos.

Um terceiro ponto de vista afirma que os vazamentos se originaram em círculos ao redor do cardeal Mauro Piacenza, prefeito da Congregação para o Clero. Piacenza vem de Gênova, da escola do falecido cardeal Giuseppe Siri (o famoso "papa que nunca foi eleito", um perene favorito candidato papal da ala conservadora da Igreja). Piacenza trabalha no Vaticano desde 1990. Segundo essa opinião, Piacenza se vê como um lógico sucessor de Bertone, ou pelo menos como um candidato para desempenhar um maior papel no Vaticano caso Bento XVI decida que Bertone precisa de ajuda para continuar o show.

Embora todas essas teorias tenham a sua plausibilidade superficial, uma forte nota de cautela é necessária: elas também podem refletir a psicologia cultural da Itália, que sustenta que sempre deve haver um grande projeto escondido por trás dos eventos superficiais. Os italianos têm uma palavra para isso, dietrologia, que literalmente significa "por-trás-logia".

É possível que a busca por uma versão vaticana de uma teoria do campo unificado seja equivocada. Como os documentos são heterogêneos, as fontes podem ser diferentes em cada caso.

As cartas de Viganò, por exemplo, poderiam ter sido vazadas por amigos ainda irritados com a sua remoção; os documentos financeiros podem ter vindo de pessoas do IOR ou de outro escritório vaticano com interesses pessoais. Quanto à carta sobre um complô antipapal discutido na China, alguns acreditam que o objetivo era enfraquecer Scola como candidato papal; outros, que ele foi projetado para impedir um processo gradual de distensão entre o Vaticano e o governo chinês. Claro, em alguns casos, isso poderia ser tão simples quanto alguém no Vaticano que é amigo de alguns jornalistas, que percebe que essas coisas são um bom material e não está preocupado com as consequências de deixá-las à solta.

Seja qual for o caso, o Vaticano lançou uma investigação interna, mas resta saber se ela vai impedir o sangramento.

Qual são as consequências para Bertone?

Se o objetivo dos vazamentos é verdadeiramente minar Bertone, fica-se imaginando qual é o sentido disso por duas razões. Em primeiro lugar, Bento XVI deixou abundantemente claros a sua afeição e o seu apoio pessoal por Bertone; e, segundo, para ser honesto, não parece ser o caso de Bertone precisar de ajuda em termos de chamar em causa a sua liderança.

Desde que a causa célebre em torno da decisão de revogar a excomunhão de um bispo tradicionalista que nega o Holocausto em 2009, o segredo do Vaticano mais mal guardado tem sido que muitos informantes consideram Bertone como um secretário de Estado fraco. Ele é bem quisto em nível pessoal, e ninguém questiona a sua integridade ou lealdade pessoais por Bento XVI, mas há muito tempo há sérias dúvidas sobre a sua capacidade de fazer os trens andarem no horário.

Bertone tem agora 77 anos, e alguns especulam que essa última crise poderia convencer Bento XVI a aceitar a sua renúncia. Outros ainda se perguntam se uma solução mais de fachada poderia ser encontrada, na qual Bertone ficaria em seu lugar em uma espécie de cargo titular, enquanto o papa nomeie outra figura, ao estilo de um "protossecretário", para fazer mais a parte pesada.

No entanto, dado que Bento XVI não se inclina a se preocupar muito com questões de governança e, provavelmente, não gostaria de premiar uma campanha de assassinato de caráter, a aposta mais certa provavelmente é que Bertone permanecerá em seu lugar.

Se assim for, a pergunta de um milhão de dólares torna-se: existe uma forma de corrigir a desordem interna do Vaticano, sem uma mudança na cúpula? Muitos dos cardeais que estão reunidos com o Papa Bento XVI por ocasião do Consistório possivelmente poderiam se encontrar ponderando sobre esse exato ponto.

O que isso significa para o próximo papa?

Há duas consequências que parecem ter implicações para o próximo conclave.

Primeiro, assim que os cardeais se reunirem pela próxima vez para eleger um papa, no alto de sua lista de coisas a fazer estará encontrar alguém que possa pôr os assuntos internos do Vaticano em ordem. Se um candidato parecer ter um histórico misto ao dirigir sua própria diocese ou no escritório vaticano que atualmente dirige, esse provavelmente será o beijo da morte.

Não é que as habilidades administrativas sejam a única coisa que os cardeais estarão procurando, mas elas agora se tornaram uma linha base para levar alguém em séria consideração.

Em segundo lugar, o escândalo atual poderia muito bem ter reduzido as chances de o próximo papa ser italiano, já que esses vazamentos parecem ter trazido à tona algumas das características menos atraentes da cultura eclesiástica italiana. No mínimo, a confusão colocou um sério empecilho ao velho pressuposto de que os italianos têm um talento especial para o governo da Igreja apenas porque vivem junto à instituição há tanto tempo e a conhecem do lado de fora.

Digamo-lo desta forma: o próximo papa ainda poderá ser italiano – mas, se o for, ele provavelmente será eleito apesar da – e não por causa da – sua nacionalidade.

Isso significa alguma coisa para os Estados Unidos?

Há também duas dimensões dessa história com implicações norte-americanas.

Primeiro, o perfil dos bispos norte-americanos em Roma tem sido há muito tempo o de que, embora a maioria possa não ser de grandes intelectuais ou de altas figuras espirituais, eles tendem a ser bons administradores, ou seja, figuras práticas capazes de fazer as coisas. Embora alguns norte-americanos possam tergiversar, essa visão ainda está largamente em vigor atualmente.

Privadamente, muitos italianos já estão dizendo que o Vaticano precisa de uma sacudida, de uma nova abordagem, e é natural que eles pensem nos Estados Unidos como um lugar onde isso poderá ser encontrado.

É uma incógnita se isso será suficiente para compensar o tabu histórico contra um "papa com superpoderes". No entanto, isso poderia tornar um pouco mais plausível um movimento que seria igualmente chocante a antigos informantes vaticanos: um secretário de Estado norte-americano.

Em segundo lugar, o atual escândalo poderia vir a ser uma benção para Viganò como embaixador papal nos Estados Unidos, pelo menos em termos de suas relações com os bispos norte-americanos.

Aqui em Roma, onde as pessoas realmente leram as suas cartas que vazaram, a hipótese de trabalho é que Viganò foi duramente comprometido e pode até ser chamado de volta a Roma. No entanto, muitos bispos norte-americanos não leram a correspondência (que está escrita em um italiano bastante denso), e, mesmo que tivessem lido, as personalidades vaticanas sobre as quais Viganò se queixou não significam nada para eles.

Para eles, a história de Viganò é muito mais simples: ele tentou limpar a casa, ateou fogo e pagou o preço. Em um momento em que muitos desses próprios bispos acreditam que o Vaticano está atrasado para uma limpeza em casa, isso, na verdade, não é um mau cartão de visitas.

Aqui está o que Dolan, presidente da Conferência dos Bispos dos Estados Unidos, me contou sobre Viganò em uma entrevista recente: "De certa forma, isso aumenta a sua credibilidade como alguém que não olha para o funcionamento interno da Santa Sé com lentes cor de rosa, mas está bem ciente das dificuldades lá existentes".

Ao menos para alguns bispos norte-americanos, em outras palavras, Viganò parece ser uma mudança de ritmo bem-vinda.

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