O desabafo dos cardeais rasga o véu do ''senado'' vaticano

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21 Fevereiro 2012

É forte no Vaticano a preocupação de que o estilo de governo da Cúria Romana possa transtornar a vida da Igreja no mundo.

A reportagem é de Maria Antonietta Calabrò, publicada no jornal Corriere della Sera, 19-02-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"No Colégio Cardinalício, houve uma troca franca, livre e bonita", comentou nesse sábado, 18 de fevereiro, o neocardeal Giuseppe Betori, arcebispo de Florença, em resposta a uma pergunta sobre os "venenos" que se adensaram no Vaticano nas últimas semanas e meses.

Eis aí, nessas três palavras, "franco, livre e bonito", uma autêntica fotografia do que aconteceu na reunião de duas horas dos cardeais com o papa. "Franco e cordial", além disso, é a fórmula ritual no mundo da diplomacia, quando, durante as reuniões, não se limitam às convenções, mas se dizem e se assumem abertamente os problemas, possivelmente para resolvê-los.

Acima de tudo, um dado numérico. Os cardeais que foram a Roma eram "apenas" 133, incluindo os 22 novos "barretes", de um total de 213 que tinham direito, enquanto, no último consistório, o de 2010, eram 150. "Os ausentes (nada menos do que 80 'príncipes' da Igreja) se desculparam por motivos de idade ou de saúde ou de compromissos anteriores inderrogáveis", dizia na sexta-feira o comunicado da Sala de Imprensa do Vaticano, mas há quem diga abertamente que diversas "faltas" se devem a motivos mais ligados às recentes polêmicas. Outros cardeais deixaram Roma ainda nesse sábado à noite e não participarão da missa com o papa.

Não são poucos, por fim, as púrpuras que, nos últimos dias, manifestaram "tristeza" (Antonio Maria Vegliò, presidente pontifício para os migrantes), até mesmo "desgosto" (Walter Kasper) diante das polêmicas em que a Santa Sé foi arrastada, do ar de confronto que sopra do outro lado do Tibre, e daquelas que podem ser as consequências para o alto governo da Igreja. Enquanto isso, talvez, foram identificadas as "toupeiras" que vazaram os documentos confidenciais, que ao menos em parte passaram pelos escritórios da Secretaria de Estado (o principal suspeito é o "lobby" fiel ao antecessor do cardeal Tarcisio Bertone, Angelo Sodano) e a "mãozinha" que os entregou aos jornais italianos.

Pois bem, 27 purpurados, ou seja, quase um terço dos cardeais presentes no Consistório (exceto os novos "barretes"), tomaram a palavra para expressar as suas preocupações com uma situação que é, em grande parte, incompreensível para os não italianos e que parece ter feito voltar atrás os relógios do tempo da Cúria Romana. Em particular, os cardeais Julián Herranz Casado, membro numerário do Opus Dei, que por mais de 30 anos viveu ao lado de São Josemaría Escrivá de Balaguer, fundador do Opus, criado cardeal em outubro de 2003 por João Paulo II e “king maker” da eleição de Ratzinger. "Não controlamos mais as críticas", disse ele, substancialmente. Outras preocupações foram expressas pelo prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Antonio Cañizares Llovera (ratzingeriano de ferro), que, no Consistório "público", na sexta-feira, fez um discurso convidando a Igreja a se purificar e a fazer penitência.

Por fim, discursou o arcebispo de Viena, o cardeal Christoph Schönborn, um dos RatzingerSchuler, os alunos de Ratzinger, que foi no passado um acusador público do cardeal Sodano tão veemente a ponto de ter que lhe pedir desculpas, dessa vez também publicamente, e que, portanto, certamente não pode ser "acusado" de fazer parte do "seu" lobby.

Todos esses três cardeais influentes disseram a Bento XVI que o estilo de governo central da Cúria Romana já corre o risco de transtornar a vida da Igreja no mundo. Herranz, em particular, lamentou o fato de que, enquanto foram "promovidos" cardeais bispos italianos considerados próximos do secretário de Estado (como por exemplo Giuseppe Versaldi, nomeado em setembro prefeito dos Assuntos Econômicos da Santa Sé), foram deixados de fora do Consistório expoentes de primeiro plano da Igreja no mundo e na Europa. Do arcebispo de Bruxelas, André Léonard (diocese que está se recuperando das feridas do escândalo da pedofilia) ao arcebispo católico de Londres, Vincent Nichols (onde a Igreja parece viver uma nova juventude).

O caso mais clamoroso de elevação fracassada à dignidade cardinalícia – pelo qual foram expressas críticas ao papa – refere-se ao arcebispo de Manila, Luis Antonio Tagle, à frente da Igreja filipina, a mais numerosa e fervorosa da Ásia, um continente onde já vivem cem milhões de católicos.

O caso Versaldi foi um pouco o teste do desconforto, porque reúne em si um outro aspecto do problema de governança denunciado por alguns cardeais: o que se refere às finanças do Vaticano. O amoveatur à cúpula do Governatorato e o promoveatur a núncio em Washington de Dom Carlo Maria Viganó ainda pesa como uma rocha, apesar do "compromisso" alcançado sobre a lei de transparência financeira e da nova disposição no sistema internacional do Instituto para as Obras de Religião (IOR).

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