O diagnóstico de que o desenvolvimento do Brasil exige mais engenheiros já virou consenso. O País está sendo obrigado a importar pessoal qualificado, porque forma por ano cerca de 40 mil profissionais, ante 190 mil na Rússia, 220 mil na Índia e 650 mil na China, para ficar só com os Brics, o bloco dos países emergentes. Interlocutor do governo num plano para atacar a questão, o ex-reitor da Universidade de São Paulo Roberto Leal Lobo acredita que é preciso trabalhar em outra frente além da quantitativa: mudar currículos e acabar com a especialização precoce, definida ainda antes no vestibular. Para ele, o profissional do futuro precisa ter visão genérica, combinar técnica e ciência para criar inovação, gerar patentes. "Nosso engenheiro não é criado para a inovação, mas para a reprodução."
A entrevista é de Sérgio Pompeu e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 20-02-2012.
Eis a entrevista.
O senhor escreveu recentemente um artigo (veja em estadão.com.br/educação) no qual critica a especialização precoce dos engenheiros. Qual o perfil do engenheiro do futuro?
É uma pessoa com boa formação básica, porque alguém com esse perfil aprende qualquer coisa, com uma visão genérica da Engenharia, no sentido de cobrir todas as áreas, e uma visão de mercado, para que saiba como utilizar conhecimento para atender às necessidades da sociedade. É uma exigência mundial. É o que pede, por exemplo, a National Science Foundation americana.
Essa receita não exige formação mais longa, adiando a entrada do profissional no mercado num momento de escassez?
Também precisamos de médicos. E no entanto o médico é formado como médico, não como ortopedista. O advogado é a mesma coisa. Não é tributarista, é advogado. Quando quiser criar escritório tributarista, aí vai fazer seu mestrado. Por que, então, na Engenharia o cara já tem de sair engenheiro-elétrico-eletrônico-especializado-em-antena? Se você olhar a portaria 10/10 do Confea, o conselho federal que faz a regulamentação da profissão, existem aproximadamente 200 especialidades em Engenharia. É um exagero.
Como mudar o ensino se o professor está longe do mercado?
O que acontece nas melhores instituições internacionais? A pessoa tem uma formação forte - não é que ela sai da graduação e vai para o mercado. Ela faz uma pós, passa 20 anos trabalhando na Nasa e aí volta para ser professor. Junta a experiência acadêmica com a empresarial. Aqui a gente põe uma dicotomia: ou o cara sai da graduação, vai para a empresa e depois vira professor - mas aí não tem boa formação, ou então fica na academia e se distancia do mercado. Tive a pachorra de pegar algumas das melhores instituições americanas em Engenharia e olhar a composição do corpo docente. Todos têm doutorado e 15 a 20 anos de experiência na Nasa ou na GE ou na GM, em grandes laboratórios governamentais ou privados.
E a questão da quantidade?
Formamos no ensino médio 1 milhão e 700 mil jovens e entram nas universidades 1 milhão e 700 mil. Ou seja: estamos absolutamente saturados. Para crescer, a Engenharia terá de roubar estudantes das outras áreas. Porque o ensino médio está com tanta evasão que sequer está fornecendo pessoas para o superior. Temos de formar 3 milhões de pessoas no ensino médio a curto prazo. Isso é fundamental para as áreas tecnológicas crescerem.
Qual a nossa necessidade de engenheiros no curto prazo?
Admitindo aí um crescimento econômico de 4,5%, 5% ao ano, nós vamos precisar de 60 mil daqui a uns 4 ou 5 anos.
É possível chegar a isso?
Olha, cursar Engenharia voltou a ficar na moda no Brasil. Pode ser até que a gente chegue a essa meta sem grande esforços.
O que é dramático no quadro da Engenharia, então?
A falta de massa crítica, principalmente de gente capaz de produzir a inovação, área em que o Brasil é muito ruim! Nós somos ruins demais de inovação - e não é só no caso dos engenheiros. Nós somos ruins porque não formamos gente para fazer inovação e não temos capital de risco suficiente. Então estamos em uma situação em que nós, cada vez mais, aumentamos o porcentual de commodities e diminuímos o nosso porcentual de exportação de tecnologia. Na minha opinião, não existe isso de fazer transferência de tecnologia. Porque tecnologia é cabeça. Você transfere técnica. É importante, claro, ter gente que faça bem a técnica. Mas a tecnologia é entender a técnica, entender os princípios científicos dela, para depois fazer com que ela se aperfeiçoe.

"considero o culto ao progresso o mais perigoso e daninho do que o culto "ao atraso""
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"Uma entrevista dividida em 3 partes com o Prof.Pinguelli Rosa pode ser conferida nos seguintes links..."
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Comentários
" País que investe em educação e pesquisa, será sempre lembrado como um parceiro do desenvolvimento do homem de forma holistica".
É um verdadeiro descalabro a defesa deste pensamento pois certamente o profissional contratado terá que responder por diversas técnicas para exercer a sua profissão.
Nos grandes centros de desenvolvimento, a especialização dos profissionais é necessária para que os desenvolvimentos sejam concretizados. É certo que cada vez mais, os desenvolvimentos exigem equipe multifuncionais, composta por profissionais de diversas áreas de formação, mas não que um único engenheiro tenha que ter conhecimento em eletrônica, elétrica, mecânica ao mesmo tempo para o desenvolvimento de produtos!!
Temos que nos espelhar em lugares como a Rússia, Índia ou China, que fazem a engenharia como deve ser e lutam em defesa de suas sociedades.”
...
trabalhar junto ao MEC pela redução do número de títulos afetos a CEEE, além de pleitear a melhoria na qualidade de ensino das academias.
Recomendo também: Merval Pereira, em O Globo, 22/01/12
Ver também: http://www.crea-pr.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=859:novo-coordenador-da-camara-especializada-de-engenharia-eletrica-fala-sobre-suas-metas&catid=3:newsflash
Aqui, pergunto: quando o professor Leal Lobo foi reitor da USP, o que teria feito para mudar as situações que critica? Ele, com certeza, dirá que teve de seguir a política ditada pelo MEC. Mas é apenas assim, mesmo? Quem tem os posicionamentos como os que estão colocados – com os quais estou inteiramente de acordo – e sendo reitor da poderosa USP, nada pode fazer a respeito?
Todavia, a análise do ex-reitor, está perfeita e “põe o dedo nas feridas”. As quais estão na base das dificuldades vigentes. Contudo, existem outras causas, mais fundamentais,tais como a mercantilização do ensino no Brasil; a importação de “caixas pretas” (com consequente transformação dos técnicos nacionais em “apertadores de botões e parafusos”); a facilitação de ganhos absurdos para o capital nacional e internacional, dentre outras. O tema é vastíssimo.
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