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19 Fevereiro 2012

O severo julgamento de Giovanni Miccoli, meio século depois do Concílio Vaticano II.

A análise é do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado no jornal La Stampa, 11-02-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Tarefa nada fácil a do historiador da Igreja que tenta ler e interpretar uma época eclesial à luz de fatos e documentos sem poder apelar a uma compreensão espiritual da "história da salvação", ou seja, sem poder enquadrar todo evento em um projeto superior de Deus que tudo recupera e redime.

Tarefa ainda mais difícil se o período estudado é o contemporâneo, com muitos protagonistas ainda ativos: uma época filha daquele Concílio Vaticano II, inaugurado há 50 anos. Tarefa árdua, mas preciosa, porque, ao ler os acontecimentos cotidianos, mesmo eclesiais, precisamos sair da crônica jornalística e do imediatismo emotivo, para encontrar oportunidades de orientação e de compreensão aprofundada.

Giovanni Miccoli – professor emérito de história da Igreja em diversas universidades italianas – jamais se isentou dessa tarefa própria do historiador e recentemente acrescentou um novo livro precioso e documentado à sua produção.

La Chiesa dell'anticoncilio [A Igreja do anticoncílio] (Ed. Laterza, 420 páginas) propõe-se a analisar as opções atuais da Igreja Católica ao se pôr na história através da lente de uma significativa articulação doutrinal e pastoral: as relações entre a Fraternidade São Pio X (fundada pelo bispo Lefebvre) e a Santa Sé. Articulação aparentemente menor, ao menos do ponto de vista do número das pessoas envolvidas em comparação com o bilhão abundante de fiéis católicos, mas, na realidade, capaz de evidenciar tendências bem mais amplas.

O quadro que surge da análise ilustra "os tradicionalistas na reconquista de Roma" (esse é o subtítulo) e mostra como, paradoxalmente, a interpretação do Concílio como evento de "ruptura" (a leitura que os lefebvrianos lhe deram desde sempre com relação à "Tradição", como concebida por eles) acabou se tornando uma acusação dirigida a alguns ambientes pós-conciliares "progressistas".

Além disso, justamente quem mais apela à suprema autoridade do papado, contrapondo-a aos supostos desvios de teólogos ou até de bispos e de conferências episcopais, não economiza acusações de traição a papas concretos da história recente e até à cúpula conciliar que, ao contrário, cum Petro et sub Petro, continua sendo, para a"Igreja de sempre" (outra expressão da qual os tradicionalistas se apossaram), o magistério supremo.

A conclusão, voluntariamente definida por Miccoli como "provisória", é que "grande parte dessas 'transformações' [conciliares], nos seus elementos de fundo, Roma, se talvez alguma vez as tinha aceito de algum modo mais ou menos mal, agora certamente não as aceita mais". Opinião severa, assim como amargas e às vezes também desconsoladoras são as reflexões, mas a análise se revela sempre lúcida e, sobretudo, baseada em dados objetivos e facilmente verificável: declarações oficiais, textos escritos, testemunhos confiáveis.

Para o fiel, a interrogação que permanece é profundamente envolvente, porque o problema não é saber se o Concílio foi traído, mas sim se a comunidade dos discípulos de Cristo trai a mensagem evangélica, se consegue, dia após dia, viver a fidelidade ao seu Senhor e calar o projeto de salvação universal no concreto da história.

  • La Chiesa dell'anticoncilio, de Giovanni Miccoli. Ed. Laterza, 420 páginas.

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