Pedofilia: ''Não queremos repetir os erros dos EUA ou da Irlanda''. Entrevista com Luis Antonio Tagle

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11 Fevereiro 2012

O arcebispo Luis Antonio Tagle (foto), de Manila, nas Filipinas, falou nesta quinta-feira, 9 de fevereiro, no Simpósio Rumo à cura e à renovação, uma reunião de cúpula de quatro dias sobre a crise dos abusos sexuais realizada na universidade jesuíta Gregoriana, de Roma, e copromovida por diversos departamentos vaticanos.

A reportagem e a entrevista é de John L. Allen Jr., publicada no sítio National Catholic Reporter, 09-02-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Tagle traçou algumas características da cultura asiática que diferenciam tanto a compreensão do abuso sexual quanto a resposta da Igreja em comparação com as trajetórias ocidentais.

Tagle disse que o silêncio muitas vezes envolve a questão do abuso sexual na Ásia, relacionada com noções culturais de honra e de vergonha, não apenas para si mesmo, mas também para a família. Ele também sugeriu que algumas características da catolicidade asiática podem facilitar os abusos, como um entendimento exaltado da autoridade e do status espiritual de um padre.

Sem negar que o abuso de menores também é um problema na Ásia, Tagle disse que, até hoje, existem relativamente poucos casos – menos, disse, do que o de clérigos pegos em relações ilícitas com mulheres adultas. Ele também disse que muitas vítimas do abuso clerical na Ásia ainda preferem lidar com a situação em silêncio, dentro da Igreja, ao invés de fazer uma denúncia formal e legal junto às autoridades civis.

Tagle, 54 anos, sentou-se com o NCR no intervalo da cúpula para uma entrevista exclusiva. Esta entrevista equivale a uma janela para ver como uma importante comunidade católica – neste caso, o terceiro maior país católico do mundo, as Filipinas, mas também onde a crise dos abusos sexuais ainda não entrou em erupção – está tentando sair na frente.

Eis a entrevista.

O senhor disse na manhã desta quinta-feira que as vítimas na Ásia muitas vezes preferem lidar com os casos de abuso dentro da Igreja. Para os ocidentais, isso poderia soar como se o senhor estivesse dizendo: "Confiem em nós", sendo que muitas pessoas sentem que a Igreja não adquiriu essa confiança.


Sim, eu compreendo plenamente. Eu entendo que o tipo de afirmação que eu fiz não seria facilmente entendida ou aceita por pessoas que sofreram muito por causa da forma como as autoridades eclesiais em seus países ou continentes geriram mal toda a questão. Mas eu não posso negar o fato de que, talvez, na Ásia, a Igreja ainda desfrute um pouco de confiança, até mesmo entre as vítimas. Elas, ao contrário, prefeririam tentar os processos eclesiais, os processos penais e judiciais disponíveis no direito canônico, pensando que, se ficarem satisfeitas com isso, elas estão felizes. Para muitos, ir a público, em termos de expor à mídia ou ir ao tribunal, além de custar muito dinheiro, apresenta um elemento cultural. Para eles, ir à Igreja não é inércia, mas sim lidar com isso da forma mais discreta possível.

O senhor diz que a Igreja na Ásia ainda goza de alguma confiança. É importante para vocês não perder essa confiança, certificando-se de que esses casos sejam levados a sério, para que vocês não acabem onde a Igreja da Irlanda ou dos Estados Unidos acabaram?

Eu digo "amém" a isso. É realmente importante. As tristes experiências da Irlanda e dos Estados Unidos e de alguns outros lugares realmente nos ensinaram uma lição. Nós vemos agora mais claramente, com base no problema na Irlanda especialmente, que a ação rápida, a compaixão pelas vítimas e a certificação de que as leis da Igreja são aplicadas e de que a parte culpada recebe a sanção adequada irão manter a confiança das pessoas na Igreja.

E com relação às punições aos bispos que não tomaram a ação apropriada? O senhor apoia uma responsabilização mais forte dos bispos?

Eu acho que, dentro da Igreja, existem medidas para isso. A Santa Sé pode tomar ações diferentes para repreender um bispo ou mesmo para depor alguém que esteja equivocado em suas responsabilidades.

O senhor apoiaria a Santa Sé ao fazer isso?

Sim. Isso já aconteceu e, quando aconteceu, restaurou-se a paz nas comunidades. Houve casos em que um bispo foi considerado culpado por não cumprir com suas responsabilidades e foi ou afastado do ofício ou restringido em seu ministério. As pessoas não se alegram, mas sentem que a justiça foi feita.

Aliás, como uma medida proativa, os bispos das Filipinas criaram um escritório dentro da Conferência Episcopal para acompanhar colegas bispos que estão em situações difíceis, para que possamos orientar uns aos outros. É uma espécie de correção fraterna. Quando relatamos isso à Santa Sé, eles ficaram bastante surpresos positivamente e nos encorajaram a aperfeiçoar a descrição do trabalho dessa comissão. Eles disseram que não é só o padre que precisa de correção quando se torna rebelde, mas também os bispos.

O que essa comissão irá fazer?

Ela é relativamente nova, mas a ideia é que ela se responsabilize pela formação permanente dos bispos. Isso abrange uma ampla gama de coisas, como a sua formação humana básica. Nós já tivemos uma sessão, por exemplo, sobre questões da meia idade, de como enfrentar a aposentadoria, até mesmo de como enfrentar a morte. Dentro desse amplo escopo, há a delicada tarefa de lidar com as rixas em torno de um bispo. Por exemplo, um padre, antes de ir ao Núncio Apostólico, poderia trazer uma reclamação a respeito desse bispo para essa comissão. É claro, a decisão final cabe à Santa Sé, mas essa comissão poderia ajudar o bispo e poderia até ajudar a Santa Sé, se lhe for pedido que faça algo por eles.

Uma pessoa leiga poderia apresentar uma queixa?

Sim, sim, com certeza.

Olhando para os Estados Unidos, como o senhor analisa a política do "um erro e você está fora", no sentido de que um padre é permanentemente removido do ministério, mesmo que por um único ato de abuso sexual?

Isso ainda está sendo debatido nas Filipinas. Pelo menos no momento, é um debate no nível do psicologia. Temos alguns especialistas que dizem que não existem casos isolados, enquanto outros dizem que pode haver lapsos de consciência da pessoa, mas a pessoa ainda está intacta. Nós ainda estamos nesse nível, e os bispos estão apenas ouvindo esses especialistas. Estamos cientes do debate. Neste momento, estamos tentando usar o que está disponível no direito canônico. Ele diz que, se há um escândalo, por exemplo, causado por uma ofensa contra o sexto mandamento, depois de estabelecer a veracidade da acusação, o bispo pode suspender as faculdades desse padre.

Esse período de suspensão pode ser usado para análise, avaliação e tratamento. Embora esse debate psicológico seja intenso, veremos se o resultado desse período de suspensão e de discernimento indica que esse é realmente um caso isolado e que esse homem pode vir a ser reintegrado. Nós tivemos casos no passado, mesmo antes da erupção desse escândalo no mundo todo, em que alguns sacerdotes que tinham ofendido receberam uma segunda chance e acabaram se tornando sacerdotes muito bons. Nós também tivemos alguns fracassos, em que os padres receberam uma segunda chance e fracassaram miseravelmente. Por isso, a experiência empírica também é mista.

Se o objetivo é a proteção absoluta das crianças, isso não significa também não correr nenhum risco?


Esse é sempre o risco que você tem. Agora, a inclinação entre os bispos das Filipinas é pela tolerância zero. Mas você também encontra bispos individuais que dizem: "Conhecemos esse padre", e eles confiam em seu conhecimento pessoal.

Os bispos estão tomando essas decisões por si mesmos ou eles têm conselhos de assessores leigos?

Algumas dioceses têm mecanismos como os conselhos consultivos leigos, mas, em outros casos, é apenas um grupo de padres e de religiosos. Isso varia de diocese para diocese.

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