''Roma diz que nos aceita, mas não podemos dizer o mesmo'', afirma bispo lefebvriano

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Por: Cesar | 13 Dezembro 2011

O superior lefebvriano ataca o Vaticano II: "O Concílio introduziu na Igreja uma espírito não católico". Aguarda-se para esta semana a resposta à proposta do Vaticano.

A reportagem é de Andrea Tornielli e publicada pelo sítio Vatican Insider, 12-12-2011. A tradução é do Cepat.

É esperado para os próximos dias a resposta da Fraternidade de São Pio X à proposição da Santa Sé, entregue ao Superior Geral, o bispo Bernard Fellay (foto). Os sinais que estão chegando de Econe, onde fica o quartel general dos lefebvrianos não parecem pressagiar uma resposta positiva de aceitação ao "preâmbulo doutrinal", elaborado pelo Vaticano.

Em 8 de dezembro passado, durante a homilia por ocasião da festa da Imaculada, monsenhor Fellay – que nas últimas semanas deu uma entrevista não muito apreciada pelo Vaticano –, disse que não poderia aceitar o preâmbulo como está. Disse na homilia: "Vocês ouviram falar que existe uma proposta de  Roma, que diz "estamos preparados para reconhecê-los’, mas o problema é que há uma condição. Essa condição, independentemente da formulação, no fundo é sempre a mesma: Temos de aceitar o Vaticano II. Em resumo, a situação atual é seguinte: nos dizem, "sim, vocês podem criticar o Concílio, mas com uma condição: que o aceitam’, mas nós dizemos: "como podemos criticar aposteriori?’ Creio que esta uma síntese honesta da situação atual".

Lembre-se que no preâmbulo doutrinal proposto pela Comissão Ecclesia Dei, presidida pelo cardeal William Levada e dirigido pelo Monsenhor Guido Pozzo, se pedia aos lefebvrianos que subscrevessem a "Professio Fidei", que se pede a todos aqueles que assumem um ofício eclesiástico. Ou seja, o que é considerado essencial para ser católico. A profissão prevê três diferentes graus de assentimento necessário e distingue entre verdades reveladas e declarações dogmáticas e magistério ordinário. Quanto a este último, diz que o católico é chamado a assegurar uma "submissão religiosa da vontade e da inteligência" aos ensinamentos do Papa e ao colégio dos bispos "quando exercem o Magistério autêntico", ainda que não tenham sido proclamadas de maneira dogmática, como no caso da maioria dos documentos do Magistério.

No dia 02 de dezembro passado,  o L'Osservatore Romano publicou um artigo do teólogo Fernando Ocáriz, vigário geral do Opus Dei e membro da delegação vaicana protagonista do diálogo doutrinal com a Fraternidade São Pio X, na qual foi declarado que Vaticano II, ainda que não definisse novos dogmas e fosse um concílio pastoral, não tem valor menor. O fato de que "um ato do magistério da Igreja – escreveu o teólogo – não se exercite mediante o carisma da infalibilidade não significa que deva ser considerado "falível’ no sentido em que transmite uma "doutrina provisional " ou bem "opiniões acreditadas".

O Vaticano II tem, explica Ocáriz, o carisma e a autoridade da totalidade do episcopado reunido com Pedro e sob a sua autoridade "para ensinar a Igreja universal". Negá-lo "seria negar uma parte da essência da Igreja". No artigo também explica que "naturalmente nem todas as afirmações contidas nos documentos conciliares têm o mesmo valor doutrinal e, portanto, nem todos necessitam do mesmo grau de adesão".

A Santa Sé, apresentando o preâmbulo doutrinal, manifestou a sua vontade de aceitar eventuais mudanças ou esclarecimentos (não substanciais) no texto, se os lefebvrianos manifestarem reservas em relação a alguns pontos. Mas as palavras do monsenhor Fellay, sugerem que as coisas se colocam novamente em ponto morto. Segundo algumas indiscrições, a Fraternidade poderá apresentar nesses dias uma contraposição no qual especificariam claramente que aos lefebvrianos não há porque pedir que dêem o seu consentimento aos documentos conciliares relacionados à colegialidade, o ecumenismo e a liberdade religiosa. Neste caso Fellay poderia apresentar o acordo como uma vitória dos lefebvrianos sobre a Roma e silenciar a oposição interna ao acordo.

Há os que sustentam que as críticas públicas do monsenhor Fellay foram feitas justamente pela necessidade de ter sob controle os opositores internos, mas a intenção seria a de aceitar na essência o preâmbulo. A Santa Sé tem, de fato explicado que a aceitação da "Professio fidei" não significa em absoluto o encerramento do debate sobre a interpretação de qualquer ponto em particular do Concílio. Mas esta claro que as autoridades do Vaticano não estão dispostos a oferecer um reconhecimento canônico aos bispos e padres que não aceitam o menor denominador comum solicitado para aqueles que assumem um ofício eclesiástico.

"O espírito do mundo – disse Fellay durante a homilia de 8 de dezembro – foi introduzido na Igreja. Portanto, temos que lutar não apenas contra os inimigos externos, mas também contra um espírito não católico que se insinua na Igreja. Esta mudança, a intromissão deste espírito começou com o Concílio Vaticano II.  É um grande mistério, é como se o demônio houvésse posto um pé dentro de um santuário. É algo assustador". "É como uma doença – disse o bispo –, que entrou no corpo". Para o superior da Fraternidade se atingiu um ponto em que "manifesta a profundidade do problema". E "é necessário reconhecer que Roma teve um gesto para nós". "Mas se Roma diz que aceita-nos, não não dizer o mesmo". O bispo lefebvriano afirma pois que o problema não reside na discordância da Fraternidade, mas sim na presença de um espírito não católico que permeia a Igreja.

As palavras de Fellay trazem à memória o Papa Paulo VI – um pontífice que os  lefebvrianos  não gostam –, durante uma homilia em 1972: "A fumaça de Satanás entrou no templo de Deus. Acreditava-se que, depois do Concílio chegaria um dia de sol para a história da Igreja, entretanto chegou um dia nublado, de tempestade, de escuridão. Em um colóquio com o amigo filósofo Jean Guitton afirmava: "O que me surpreende quando considero o mundo católico, é que dentro do catolicismo parece que às vezes predomina um pensamento de tipo não-católico, e pode acontecer que este pensamento se converta no futuro no mais forte. Mas este nunca representará o pensamento da Igreja. É necessário que subsista um pequeno rebanho, por mais pequeno que seja".

A diferença está no fato de que enquanto o Papa falava dessa intromissão na época pós-conciliar, a Fraternidade atribui responsabilidade totalmente ao Concílio. É preciso esperar alguns dias para conhecer a resposta dos lefebvrianos, que tiveram todo o tempo que quiseram. Mas, agora Fellay terá que decidir que posição tomar.

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