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04 Novembro 2011

Há duas décadas foi lançado um sistema que revolucionaria a história do software. Governos, exércitos, Google, Facebook e telefones inteligentes usam diferentes versões do Linux, um sistema operacional aberto, livre e sem escritórios centrais.

A reportagem é de Mariano Blejman e está publicada no jornal argentino Página/12, 01-11-2011. A tradução é do Cepat.

Existe um mundo além das janelas. E tem 20 anos de incrível crescimento. O Linux, sistema operacional aberto, livre e distribuído é sinônimo de confiabilidade para 80% dos servidores da Internet, para empresas como o Google, para telefones celulares (Android), para os supercomputadores com centenas de processadores em Genebra que aceleram partículas, e inclusive para a Bolsa de Nova York. Sim, Wall Street usa Linux. Também quase todos os exércitos do mundo, centros hospitalares, carros, trens, aviões. Mas o Linux não tem escritórios centrais. Não tem um lugar. Trabalha-se descentralizadamente em casas pessoais, dentro de outros projetos, suportado por empresas que apóiam o desenvolvimento do kernel, o coração desta revolução produtiva e cultural. Por exemplo, no dia 31 de outubro, a Fundação Linux anunciou um projeto apoiado pelo Bank of América, Merrill Lynch, J. P. Morgan Chase e a Bolsa de Nova York, em que todas estas companhias trabalharão colaborativamente em uma nova plataforma baseada no Linux. Contudo, há uma batalha que o Linux nunca conseguiu ganhar: a batalha dos computadores pessoais. Embora sejam milhões de pessoas que usam cerca de 20 distribuições (versões do Linux com diferentes perfis), o computador de escritório não pôde ser massivo sob o Linux ainda. "Há uma boa notícia", disse em Praga Dirk Hohndel, atualmente na Intel e um dos programadores do Linux desde o começo: "Parece que os computadores de escritório vão desaparecer".

Toda a espiral de produção (que vai do funcionamento do kernel, aos controladores e compiladores) termina literalmente nas mãos do Linus Torvalds, ainda hoje, o responsável por incluir os códigos gerados por outros. Jim Zemlin, da Fundação Linux, se perguntava no primeiro dia como seria o mundo sem o Linux. Pois bem, é evidente que não muito bom: "Seria um lugar obscuro, sem bancos, nem trens, nem sistema financeiro, nem Google, nem Amazon, nem onde encontrar os teus amigos, já que também o Facebook corre sobre o Linux. Também os submarinos nucleares e a televisão por Internet deixariam de funcionar".

Historicamente, a Microsoft Windows foi o inimigo número um, basicamente porque o Linux funciona melhor, e não tem por trás um modelo de venda por licenças. No entanto, este ano uma equipe de marketing da empresa criada por Bill Gates enviou um vídeo de aniversário felicitando-o por ter chegado a duas décadas. O vídeo era tão amistoso, que ninguém entendeu bem como tomá-lo. O atual CEO do Windows, Steve Ballmer, expulsou o Linux cada vez que pôde e inclusive chegou a dizer que o Linux era como o câncer. Mas se era como o câncer, então, Steve Jobs morreu de Linux...? Enfim, para além do humor, Jobs havia jurado destruir o Android antes de morrer. O sistema operacional do Google não é outra coisa que uma versão móvel do Linux: liga 550.000 aparelhos diariamente, a Red Hat (que tem uma versão estável com suporte com modelo de assinatura) vai anunciar lucros acima de um bilhão de dólares este ano, e inclusive os programadores da Microsoft começaram a aportar códigos ao Linux por motivos específicos. Na versão 3.0, a Microsoft é o principal contribuinte em quantidade de código.

Outro modelo

Com um modelo diferente ao do pagamento por licenças, assegurando através de licenças GPL a abertura e liberdade do código, o Linux cresceu velozmente nos últimos cinco anos. Grande parte de seu sucesso se deve ao uso da estrutura legal projetada por Richard Stallman, criador de uma boa quantidade de linhas de código (GNU) que serviram para montá-lo em 1991. "A razão pela qual é bem sucedido é porque está do lado correto da história. Mas além dos motivos técnicos, legais, produtivos, o principal conceito que há no Linux é o conceito de liberdade. Isso é o que importa: estas ideias foram tão bem sucedidas que influíram em outros aspectos da economia. Atualmente, são inscritos perto de três milhões de linhas por ano, a grande maioria são para os controladores. É um conceito de trabalho corporativo, juntos somos mais inteligentes. É uma ideia completamente nova sobre como colaborar que influenciou na indústria, no crouwdsourcing e na economia. É participar de algo que vai durar para sempre", disse Zemlin.

A conferência LinuxCon em Praga é uma das três organizadas pela Linux Foundation para estimular encontros da indústria: basicamente, para se ver o rosto de quem trabalha habitualmente no desenvolvimento do sistema. Também fazem encontros no Brasil e nos Estados Unidos. "Trata-se de uma questão de confiança", disse Linus Torvalds em especial para Página/12, quando se lhe pergunta como faz para trabalhar de maneira dispersa. Como o Linus Torvalds e seus amigos passam a tarde em Praga? Lendo caminhos digitais e assinando os de seus amigos. Um plano bárbaro. Quer dizer, renovando a confiança das pessoas com quem trabalha. Recentemente, a segurança do Linux se viu comprometida e os programadores decidiram nesta reunião verificar-se mutuamente documentos em mãos. É um mecanismo um pouco chato, mas trata de que outros possam verificar que se é alguém na Internet para assim confiar no conteúdo que se envia.

Perfis sistêmicos

A fragmentação dos sistemas montados sobre o Linux abriu um novo mundo de oportunidades, e ao mesmo tempo complexificou as relações. Essa mesma dispersão se nota no lobby da LinuxCon. Pois bem: detenha-se o leitor no uso da palavra lobby. É uma amostra sobre como se constrói o código, onde muitos influenciam e discutem as melhores implementações: a avalanche de distribuições criadas desde meados dos anos 1990, faz com que praticamente nenhum dos notebooks usados na conferência tenha um escritório similar. Aqui em Praga se encontra a curva mais alta de aprendizagem e quase ninguém parece ter "problemas" com seus computadores. Tudo aquilo que no Windows ou no Apple vem pronto para ser usado no mundo do Linux é mais complexo e talvez, portanto, mais potente. Sabe-se que entre as distribuições disponíveis para usar o Linux estão Ubuntu, Fedora, RedHat, Suse, Debian, Knoppix, Mandriva, Gentoo, Mint, mas ao mesmo tempo cada uma delas pode ser usada com diferentes ambientes de escritório como Gnome, KDE, Unity, Xmonad, Fluxbox e Awesome. A liberdade implica em maior responsabilidade.

O certo é que uma espécie de elite de não mais de 10 pessoas – centradas na experiência do Linus Torvalds, junto com Alan Cox, como outro pilar – conhece o código cabalmente desde o seu começo. Essa elite foi envelhecendo (em média um ano a mais por ano no grupo), mas foi acompanhada por uma crescente comunidade de entusiastas pelo mundo afora. Vê-los todos juntos, alguns dias antes do início da conferência, durante a Kernel Summit, dá o que falar: em sua grande maioria – sem ânimo de estabelecer arquétipos, embora pareçam ser evidentes – são homens maduros que não perderam a adolescência, e embora estejam permanentemente on line, quase não se reúnem fisicamente para trabalhar. Há uma boa quantidade de cabelos longos e um absoluto domínio de homens na equipe: digamos 99%.

Linhas diversas

Mas além dos programadores "duros", no congresso comparecem todos os setores da indústria envolvidos, da mais diversa e atrativa. Por exemplo: Antti Aumo, do Ixonos, fala da redefinição do conceito de nuvem telefônica; Tim Burke, da Red Hat, explica seu bem sucedido modelo de serviços vinculados ao software livre; Nils Brauckmann, do SUSE, e Andreas Pöschl, da BMW, contaram como usam o Linux nos carros BMW, e Jim Zemlin, da Foundation, mostrou espetaculares números para a ocasião. Mas no complexo mundo dos sistemas abertos, ocorre uma representação da vida real: vão desde os setores mais eticamente militantes (vinculados à Free Software Foundation ou organizações que patenteiam ideias para o bem comum) até os setores mais corporativos que propõem conversas sobre "Onde está o dinheiro no código aberto?", tal o caso de Nithya Ruff, do Wind River Systems. Neste meio, os 800 assistentes parecem estar mais interessados em resolver problemas do que em aspectos filosóficos. Mas apenas parece. Quem percorreu sempre essa linha com fidalguia é Jon "Maddog" Hall, um dos assistentes da Fundação Linux, que não tem problemas para se vestir de monge para tomar cerveja no coração da fria noite de Praga. Maddog, chamam-no assim por ser um cachorro louco, diz que isto ele viveu várias vezes: participou do início do computador no começo dos anos 1970, orientou a revolução do Linux no começo dos anos 1990, e agora observa de perto a revolução celular e trabalha em um projeto para que as sociedades possam compartilhar sinais de internet chamado Cauã.

O Linus Torvalds é pragmático: sabe que todos aqueles que contribuem com o código o fazem também por interesse próprio. Assim conseguiu que empresas como a IBM trocassem o Unix pelo Linux, e que o Google pensasse neles para montar sua complexa rede de servidores. Mas uma das falas mais atrativas foi a de Christoph Lameter, da Graphe Inc., quem projetou a arquitetura para que o Linux funcione no mundo das finanças. Ultrapassando a estrutura física, não se sabe exatamente o que estão fazendo por trás dessas paredes. A licença GPL 2.0 que o Linux usa aceita que o software não possa ser compartilhado sempre e quando este fique fechado no lugar onde foi modificado. Eis aí parte do mistério. "Agora, tanto a Bolsa de Wall Street como aqueles que estão na rua fazendo marchas usam o Linux", ironizava Lameter.

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