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25 Setembro 2011

A relatividade de Einstein não prevê que a velocidade da luz não pode ser superada! Diz-se isso continuamente, mas isso não significa que seja verdade. O que a relatividade prevê é apenas que deve haver uma velocidade limite que não pode ser superada.

Os experimentos até agora pareciam indicar que essa velocidade insuperável era a da luz no vácuo, e talvez devêssemos mudar de expressão: em vez de dizer que não é possível superar a velocidade da luz, talvez um dia diremos que não se pode ultrapassar a dos neutrinos.

A análise é do Piergiorgio Odifreddi, matemático e lógico italiano, aficionado em história da ciência, em artigo publicado no seu blog, Il Non-Senso della Vita, 22-09-2011.

Eis o texto.

"Tu não vês como eles devem andar mais velozes e distantes, e percorrer uma maior extensão de espaço, ao mesmo tempo em que os raios do Sol enchem o céu?". Quem fala é Lucrécio, em sua obra-prima A natureza das coisas, referindo-se aos simulacros que fluem continuamente em todas as direções sobre a superfície das coisas e produzem as impressões visuais nos olhos dos observadores. Mas quem também poderia estar falando é o porta-voz do Cern, que hoje anunciou que alguns experimentos mostrariam que os neutrinos podem ir em uma velocidade superior à da luz, justamente.

Antes de Lucrécio, a teoria de Epicuro dava aos simulacros uma velocidade obviamente inferior à da luz. Antes do anúncio de hoje, os físicos faziam a mesma coisa com os neutrinos: partículas que, de algum modo, sempre estiveram ligadas às pesquisas italianas. De fato, algumas das intuições mais profundas sobre eles foram feitas por Bruno Pontecorvo, irmão do diretor. Intuições que, devidamente desenvolvidas e confirmadas, levaram muitos cientistas ao Prêmio Nobel (em 1988, 1995 e 2002). Mas o prêmio nunca foi para Pontecorvo, que foi punido por ter fugido na direção errada (para a União Soviética) depois da guerra.

Se as observações feitas pela equipe de Antonio Ereditato forem confirmadas, a memória de Pontecorvo seria finalmente vingada por um italiano. O condicional, porém, é obrigatório. Já outras vezes, de fato, os neutrinos reservaram surpresas. Por exemplo, por muito tempo se pensou que eles não tinham massa e se deslocavam na velocidade da luz. Depois, se descobriu que eles tinham uma massa e que, portanto, deviam se deslocar um pouco mais lentos. Hoje, nos dizem que, ao contrário, eles se deslocam um pouco mais velozmente. Certamente, uma das três alternativas é a certa, mas qual? E se fosse a anunciada hoje, o que aconteceria?

Limpemos logo o campo de uma interpretação sensacionalista, que circulou junto com a notícia da experiência. A relatividade de Einstein não prevê, de fato, que a velocidade da luz não pode ser superada! Diz-se isso continuamente, mas isso não significa que seja verdade. O que a relatividade prevê é apenas que deve haver uma velocidade limite que não pode ser superada.

Os experimentos até agora pareciam indicar que essa velocidade insuperável era a da luz no vácuo, e talvez devêssemos mudar de expressão: em vez de dizer que não é possível superar a velocidade da luz, talvez um dia diremos que não se pode ultrapassar a dos neutrinos.

Uma possível reformulação do anúncio, portanto, é simplesmente que a velocidade máxima prevista por Einstein não é a da luz, mas sim algo muito próximo a ela: a diferença parece ser de 60 nanossegundos sobre o tempo de viagem da distância de 730 quilômetros entre o Gran Sasso e o Cern, entre os quais se fez o experimento. E essa diferença infinitesimal teria passado despercebida precisamente nos experimentos feitos até agora: um fato experimental interessante, mas certamente não uma tragédia teórica.

Aqueles que preferem as suas revoluções, se perguntarão se o erro não está, ao contrário, mais do que nas medidas sobre a luz, na própria relatividade. Tentar tirar Einstein do pedestal, como ele havia feito com Newton, é uma tentação muito grande de resistir. Infelizmente, para os "jovens turcos" da física, a relatividade é confirmada por bilhões de experimentos, e não bastará um só para destituí-la.

Por outro lado, o próprio Einstein dizia que "a ciência não é uma república das bananas, onde as revoluções acontecem todos os dias": ou seja, rebelar-se é certo, mas o sucesso não é garantido.

 

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