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03 Setembro 2011

O ser humano está geneticamente programado para mudar continuamente. Esse tema também estará no centro do Festival de Filosofia de Modena, na Itália.

A análise é do filósofo italiano Roberto Esposito, em artigo para o jornal La Repubblica, 30-08-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Natureza humana. O que devemos entender por essa expressão? Como se conjuga a aparente fixidez da natureza com a fluidez da experiência humana? Em suma, a nossa vida pertence ao cenário móvel da história ou ao repetitivo da natureza?

A essa questão – no centro do próximo Festival de Filosofia de Modena –, a filosofia do século XX deu duas respostas diferentes. De acordo com a primeira, a natureza humana não é propriamente uma natureza, mas sim uma condição, definida precisamente pela distância da simples vida biológica. Para Heidegger, só se souber se subtrair aos próprios vínculos naturais, antecipando a experiência da morte, é que o homem experimentará a sua própria dimensão mais autêntica.

Hannah Arendt retomou, pelo menos a partir desse ponto de vista, as teses do mestre. Para expressar a própria politicidade original, o indivíduo deve ultrapassar a esfera da reprodução biológica e entrar no mundo da ação e do discurso. Não é muito diferente, sob esse perfil, a posição de Sartre. Quando ele defende que "o homem faz a si próprio", ele retoma a ideia humanista segundo a qual, ao contrário de todos os outros animais, o ser humano sempre pode modificar a sua própria vida, transcendendo a situação dada com um livre escolha.

Esses discursos implicam em uma radical historicização da experiência humana. Para Heidegger, o nosso "existir" tem um caráter constitutivamente temporal. É história e não natureza. O próprio corpo do homem – não por acaso substancialmente ausente da sua reflexão – é algo secundário com relação aos elementos propriamente humanos da existência. É curioso que algumas vertentes da cultura pós-humanista se situam no mesmo horizonte no momento em que imaginam, à luz dos extraordinários desenvolvimentos da biotecnologia, uma espécie de libertação da existência do seu substrato natural e até da dimensão corpórea.

A essa perspectiva, ainda desde o final do século XIX, se opõe uma outra concepção, que visa, ao contrário, a identificar a realidade inteira do homem com o seu substrato natural. Arrancado da sua dimensão histórica e espiritual, o ser humano é espremido do seu simples dado biológico. Naturalmente, nesse caso, ele não pode dispor de si mesmo. A sua vida está vinculada a um elemento hereditário que ele jamais poderá transcender. Quem a decide não são as suas escolhas voluntárias e racionais, mas sim seus componentes orgânicos e, em última análise, o seu sangue. Embora distantes das consequências nefastas às quais essa concepção foi levada, algumas tendências da filosofia contemporânea assumem tal modelo determinista, apenas com a substituição da bagagem genética pelo dado hereditário. Se o homem é tão caracterizado pelos seus próprios genes a ponto de não poder escapar da sua influência, independentemente das vicissitudes da história e dos estímulos ambientais, então seu destino está selado.

Mas, nesse projeto de naturalização da vida humana, há algo ainda mais preocupante. Trata-se da tendência de assumir aquilo que se apresenta com a linguagem científica da descrição em termos de prescrição, deslizando-se assim da esfera do ser para a do dever-ser. O que é apresentado como um dado é imposto como uma norma da qual não se pode derrogar. Além disso, desde sempre, a imagem da natureza humana foi construída, e utilizada, em função do contraste ou da exclusão em relação a categorias de homens considerados diferentes ou inferiores.

Nesse ponto, pareceria não haver alternativa: ou se dissolve a natureza na história com um claro efeito antirrealista ou se bloqueia a história na natureza com resultados hierárquicos e excludentes. Na realidade, existe uma possibilidade diferente, capaz de não anular nenhum dos dois polos na exclusividade do outro. Trata-se do caminho já aberto por Darwin. Situando o homem em um horizonte natural constituído pela cadeia das espécies vivas, ele estava longe de contrapor a natureza à história. Ao contrário, deve-se justamente a ele um conceito de "história natural" que não exclui, mas sim implica uma modificação da natureza em formas sempre casuais e imprevisíveis.

Nunca como hoje está claro que os elementos de invariância natural – ou seja, as características específicas que distinguem a nossa espécie de todas as outras espécies vivas – também pode, ser submetidos a mutação. O que qualifica a natureza humana é precisamente a sua capacidade de enriquecer a sua própria dotação inata, abrindo uma gama de possibilidades aquisitivas que, por sua vez, se refletem na sua própria constituição genética: a partir desse ponto de vista, pode-se dizer que o homem está geneticamente programado para mudar continuamente a sua própria programação.

Se a história é amplamente determinado pela natureza, a natureza é, por sua vez, sempre modificada pela história. Naturalmente, quando se fala de natureza humana, é preciso ter presentes os riscos desse cruzamento. Mas, diante de tudo isso, pareceria vão opor uma atitude nostálgica e regressiva. O caminho para um retorno às velhas dicotomias que estruturaram o saber moderno está agora bloqueado. Só podemos nos confrontar com o novo cruzamento de público e privado, pessoa e corpo, natureza e história, embora conscientes das enormes responsabilidades que daí derivam.

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