Reações às novas políticas antipedofilia do bispo de Boston

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30 Agosto 2011

É razoável esperar três tipos básicos de reações às novas políticas de Dom Sean O`Malley, que poderíamos chamar de escolas de pensamento "simplesmente certo", "muito pouco" e "em demasia" (naturalmente, são abstrações, e as pessoas reais podem simpatizar com elementos de cada uma).

A análise é de John L. Allen Jr., publicada no sítio National Catholic Reporter, 26-08-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

1. Simplesmente certo

Um grupo, composto em parte por aqueles inclinados a dar aos bispos o benefício da dúvida, provavelmente vai elogiar o que vê como a coragem de O`Malley, considerando-a como mais uma prova de que a Igreja Católica efetivamente virou uma página.

Em particular, os admiradores provavelmente verão as novas políticas de Boston como um equilíbrio apropriado e bastante original entre a promoção da transparência e da cura, de um lado, e a defensa dos interesses dos padres acusados, de outro. A decisão de manter uma lista dos exonerados, não apenas dos acusados, é especialmente notável a esse respeito.

Porta-vozes oficiais da Igreja, certamente, ficarão motivados a elogiar o que O`Malley fez, dado que, depois do relatório do Grande Júri da Filadélfia, a Igreja Católica nos EUA poderia usar uma boa notícia para combater a crise.

Alguns membros da Igreja, particularmente aqueles nas linhas de frente da prevenção dos abusos, também podem saudar a decisão como uma forma de pressionar outras dioceses. Até o momento, duas dezenas de dioceses norte-americanas divulgaram listas semelhantes, algumas até mais agressivas do que a de Boston (por exemplo, incluindo fotos dos clérigos acusados). No entanto, há 196 arquidioceses e dioceses no país, o que significa que a maioria ainda não tomou tal iniciativa.

2. Muito pouco

Um segundo grupo, liderado por alguns sobreviventes de abusos e seus advogados, provavelmente verão as divulgações em Boston como seriamente incompletas. O argumento será de que qualquer lista supostamente abrangente, que na realidade exclui 36% dos padres acusados de Boston, assim como um número incontável de padres de ordens religiosas e de outras dioceses que foram acusados de abuso em Boston, não é exatamente um modelo de transparência.

A Survivors` Network of Those Abused by Priests [rede de sobreviventes de abusos praticados por padres] organizou um protesto no início deste mês, em antecipação à nova lista, objetando, dentre outras coisas, a exclusão dos padres de ordens religiosas – alguns dos quais, acusou o grupo, estão entre os "criminosos sexuais mais notórios" da arquidiocese. O BishopAccountability.org, um grupo de investigação independente, está lançando a sua própria lista de 75 padres de ordens religiosas acusados publicamente que viveram e trabalharam em Boston.

Esses críticos apontam que, das 24 outras dioceses norte-americanas que divulgaram listas, mais da metade incluíam padres de ordens religiosas (como um aparte, O`Malley pode ser especialmente sensível às prerrogativas das ordens religiosas, uma vez que ele mesmo vem da vida religiosa, trajando rotineiramente o hábito franciscano capuchinho).

Além disso, alguns críticos podem argumentar que reciclar informações previamente divulgadas em um novo formato chamativo não é o tipo de reforma dramática que os escândalos exigem. Se O`Malley realmente quer fazer uma declaração, eles sugeririam que o papa removesse o seu antecessor, o cardeal Bernard Law, dos seus vários cargos no Vaticano.

3. Em demasia

Outros católicos podem contestar a decisão O`Malley a partir de uma direção diferente, vendo-a como demasiado ampla e não muito limitada. Eu posso ver pelo menos cinco possíveis versões dessa reação:

- Alguns podem sentir que as novas políticas são mais um exemplo da substituição de um modelo de negócio, em que os interesses da corporação sempre triunfam sobre aqueles dos seus recursos humanos, pela tradicional teologia católica do sacerdócio. Em janeiro passado, Thomas Guarino, de Seton Hall, destacou esse argumento em um artigo publicado na revista First Things, intitulado "O Sacerdócio e a Justiça".

- Os católicos que sentem que se fez da Igreja um bode expiatório para o problema social mais amplo dos abusos sexuais podem considerar as novas políticas como um esforço infrutífero para aplacar os críticos, que, na verdade, nunca ficarão satisfeitos com nada menos do que um aviso de "queima de estoque" [para fechamento em breve] na fachada central da Basílica de São Pedro.

- Alguns podem objetar que as novas políticas são pastoralmente contraprodutivas. As feridas da crise nunca vão ser curadas – eles podem argumentar – se a Igreja continuar "coçando as casquinhas" (quando Bento XVI foi ao Reino Unido no ano passado, houve alguns questionamentos por parte desses católicos ambivalentes a respeito de seus repetidos pedidos de desculpa).

- Alguns podem se preocupar que uma divulgação de tão alto perfil de uma lista contendo informações já em domínio público contribuirá para o que os sociólogos chamam de "pânico moral", ou seja, uma tendência de exagerar as dimensões estatísticas de um problema e de tratar informações antigas como novas, criando assim um sentimento inflacionado de indignação e de medo.

- Finalmente, essa decisão pode exacerbar as impressões entre alguns padres de que os bispos estão tentando salvar sua própria pele empurrando o seu clero para debaixo do ônibus (O`Malley consultou amplamente a arquidiocese antes de decidir seguir em frente, e no fundo, fui informado de que alguns sacerdotes de Boston manifestaram oposição precisamente por causa desses motivos).

* * *

Enquanto esperamos que esse debate tome forma, vale a pena fazer duas notas.

Primeiro, a carta de O`Malley é um modelo de transparência em pelo menos um aspecto – a sua vontade de explicar, com certo detalhamento, a lógica que o levou a divulgar alguns nomes e não revelar outros.

Uma vez, eu conversei com uma autoridade do Vaticano que era nostálgico pelos velhos tempos, quando a Igreja simplesmente dizia "sim" ou "não" e não se sentia obrigada a explicar o porquê. Oferecer explicações, reclamou esse veterano curial, turva as águas, confundindo o raciocínio por trás de uma decisão em particular com a autoridade que ela carrega. O`Malley claramente não é dessa escola. Ele está disposto a correr o risco de cortejar a dissidência, na esperança de que as pessoas razoáveis, pelo menos, lhe darão crédito por lidar honestamente com essas questões.

Em segundo lugar, essa decisão é oportuna à luz de um congresso iminente sobre a crise na Universidade Gregoriana de Roma, em fevereiro próximo, copromovido por vários departamentos do Vaticano, que reunirá autoridades das Conferências Episcopais e das ordens religiosas de todo o mundo.

Um objetivo não declarado é o de pressionar os líderes eclesiais de todas as partes a adotar políticas contra os abusos sexuais modeladas a partir das emergentes abordagens norte-americanas e europeias. Uma recente decisão dos bispos alemães de abrir seus arquivos de recursos humanos para investigadores externos provavelmente será cuidadosamente analisada, e, agora, O`Malley, com efeito, deixou mais um sinal sobre a direção para a qual a Igreja global deve se mover.

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