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17 Agosto 2011

O terremoto cristão já chegou a Madri. "Somos milhares, somos fortes e queremos demonstrá-lo ao mundo", proclama Paola. Essa italiana de 17 anos vem de Roma para a JMJ com as ideias muito claras: "Nossas cruzes não estão carcomidas pela traça. Os jovens cristãos, vamos demonstrar ao mundo que a Igreja está muito viva". Ela é parte dos milhões de jovens - segundo estimativas da organização - que aterrissará na capital da Espanha nos próximos dias para aclamar o Papa Bento XVI e, sobretudo, para celebrar a festa de reivindicação do catolicismo. Em um momento em que a sociedade ocidental caminha em direção ao laicismo, esses jovens querem fazer-se ouvir.

A reportagem é de Aurora Muñoz, publicada no jornal El País, 16-08-2011. A tradução é de Anete Amorim Pezzini.

Chegam a um país em que os católicos seguem sendo maioria, mas seu número míngua a cada ano. Segundo o Centro de Investigações Sociológicas (CIS), 71,7% dos espanhóis agora se declaram como tal, em comparação com os 82,1%, em 2001, enquanto os ateus e os não crentes já são um de cada quatro cidadãos. É um panorama muito diferente daquele que envolveu a última Jornada Mundial da Juventude que se celebrou na Espanha.

Em 1989, Santiago de Compostela recebeu quatrocentos mil fiéis - segundo a organização -, quando Rouco era arcebispo dessa cidade. Tinha 53 anos. Mais de duas décadas mais tarde, recebe outro pontífice - agora como arcebispo de Madri -, em um ambiente de maior oposição. Mais de 140 organizações de ateus e leigos convocaram uma marcha para amanhã contra a visita de Bento XVI. Europa Laica - um dos coletivos organizadores - estima que participarão umas sete mil pessoas, embora a cifra possa aumentar com o efeito chamada das redes sociais.

"Meus impostos não são para financiar as viagens do vosso Papa", esbraveja com raiva um jovem de vinte e poucos anos a um grupo de peregrinos franceses em Castellana. Thérèse, uma monja beneditina octogenária pede calma a uma das moças que grita ao jovem: "Protestante!", em tom de reprovação. "Os homens não entenderam ainda que não são todos poderosos, que não podem controlar a vontade dos outros. Nós temos nossa fé como estandarte, e rezamos pelos que não creem. São pobres pessoas, mas livres para dizerem o que pensam. Tudo o que pedimos é que deixem de atacar-nos", expõe a religiosa, em um espanhol difícil.

O sacerdote Jesús de las Heras, diretor da revista Ecclesia, da Conferência Episcopal, justifica assim essas afirmações ligeiramente desafiantes de alguns jovens peregrinos que viajaram ontem a Madri: "Frequentemente, os católicos têm a sensação de importunação, com razões às vezes objetivas e às vezes subjetivas", explica. E agora que coincidem dezenas de milhares, rearmam-se a sua maneira.

"Os políticos têm a culpa", sentencia Ana Belén, uma voluntária vicentina que acompanha um grupo de italianos que se dirige ao Prado. "Este governo não parou de ludibriar-nos, desde que subiu ao poder, com a lei do aborto e sua sofreguidão em tirar os crucifixos dos colégios, mas seguiremos dando exemplos, mesmo que nossa mensagem seja incômoda" diz, entre os aplausos que lhe dedica o grupo, na Glorieta de Rubén Darío.

O financiamento da JMJ é outro dos pontos de atrito durante esses dias. "A tensão com que alguns madrilenos receberam a visita de Bento XVI é produto da situação econômica do país. Uma celebração como esta não sai de graça", assinala Asia, uma moça de trinta e poucos anos, da Malásia, que despendeu 1.300 euros para estar nas Jornadas. "A mim, me move minha fé". Para apoiar essa afirmação, chama a atenção para a lista de igrejas em que tem se ajoelhado nos três últimos dias: "A Almudena, os Agostinianos e a Basílica de Atocha". Este último templo espera a chegada de seiscentos peregrinos, mas ainda está vazio. "A maioria das crianças chegam amanhã, no momento estão ocupando as vagas das casas de acolhida em outras províncias", explica o zelador do Colégio Nossa Senhora de Atocha, que empresta um ginásio e dois salões de baile.

Raimunda deixou sua casa em Viso Del Marqué (Cidade Real) para quatro jovens do Gabão e do Haiti. "Ninguém me deu nenhuma peseta, mas um bom cristão tem de ter as portas abertas a qualquer um", disse, convencida, enquanto tenta comunicar-se com gestos com uma das crianças. "Por boa vontade não será!", exclama.

Os donos dos bares de Vallecas não têm para si tão claro que o altruísmo seja recompensa suficiente, e muitos têm rejeitado a oferta da organização de dar aos participantes dois pratos por cinco euros - que é o custo que cobre o bilhete dos peregrinos. Outros, como o proprietário de La Moderna, na avenida Cidade de Barcelona, viram o negócio claro: jarras de sangria e uma porção de bravas por oito euros para os peregrinos que queiram raspar o bolso. "Tem-se que fazer o agosto", exclama com confiança o garçom.

Maria Briceño, uma venezuelana que contratou seu pacote de visitas no Corte Inglés, reclama que tudo se mede em benefícios-chave: "Por que se tem de ganhar dinheiro para a fé? Isto é uma festa para compartilhar experiências entre crentes, nada mais".

Essa é a filosofia que preside a peregrinação de quatro franciscanos de Indiana (EUA) que avança sob o sol de Madri com suas túnicas de lã marrom e os pés descalços. Os monges explicam que vivem da caridade e nada mais, ao pisar na praça Armería, as pessoas lhes enchem as mãos de barrinhas energéticas ou barras de chocolate. É a primeira vez que assistem a uma Jornada Mundial da Juventude, informa Inês Santaeulalia. Chegaram ali vindos de Burgos, justamente depois de fazer uma visita a Lurdes (França). Na metade da tarde ainda não sabiam onde iam dormir, mas tinham uma reunião com algum superior no Tryp-Ambassador - de quatro estrelas - para receber instruções. Esperam que no hotel lhe deem apenas isso, instruções, por que eles sempre dormem ao relento.

O sacerdote Jesus de las Heras é otimista. "Tenho a impressão de que é um acontecimento", declara, em alusão à presença e à atividade dos 137 mil jovens estrangeiros que se distribuíram pelas 67 dioceses, antes de confluir para Madri. "A festa, a marcha, aconteceu em toda Espanha", acrescenta. São os jovens que seguem o lema "Sim, esta é a juventude do Papa". "É uma juventude alegre, que vai com seu iPhone, com seu BlackBerry, como fazem os demais mesmo que com uma motivação diferente", continua ele.

O epicentro da Jornada Mundial da Juventude estará em Quatro Ventos, onde se habilitaram 110 hectares do aeródromo (o equivalente a 48 campos de futebol) para acolher os peregrinos, segundo explicou a diretora de execução, Rosa Pérez.

O cenário que Ignácio Vicens desenhou para que o Papa Bento XVI celebre a eucaristia no domingo ocupa 190 metros de comprimento por vinte de altura, segundo explicou a diretora de Infraestrutura, Eva Hernández. Essa construção espetacular supera em muito o tamanho da maior infraestrutura que já se montou para um macroconcerto. Até agora a banda U2 levava a taça como um colosso de 49 x 64 metros, que instalou no Chile, durante seu último giro mundial.

Esse recorde não choca a organização. "Não creio que haja nenhuma outra instância capaz de convocar um milhão de jovens de todo o mundo", ressaltou ontem o arcebispo de Madri. "O Papa merece tudo. É mais que uma estrela do rock", afirma Franco, um italiano do grupo de Ruben Darío, quando se lhe pergunta sobre o desdobramento que supõe a JMJ.

Alguns números da jornada

- Os peregrinos procedem de 193 países, incluindo Irã (6), Mongólia (16), Islândia (17), Arábia Saudita (88), Paquistão (100) China (372), Botsuana (81) e Cuba (79).

- Os Assuntos Estrangeiros expediram graciosamente uns vinte mil vistos para os peregrinos. Cada permissão custa uns sessenta euros.

- Uns dois mil jovens de países em desenvolvimento participam da JMJ graças ao fundo de solidariedade que se nutria com as contribuições dos peregrinos.

- 133.961 peregrinos participam, desde a semana passada, dos denominados dias das dioceses, uma espécie de microjornadas da juventude espalhadas por toda Espanha.

- A estada de Bento XVI durará 79 horas. Em um de seus almoços, 12 jovens o acompanharão.

- O parque de El Retiro acolhe duzentos confessionários portáteis. O Papa tomará a confissão de três peregrinos.

- Quatorze mil sacerdotes concelebrarão a missa com o Papa.

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