Somália: "Não queremos ingerências humanitárias"

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24 Julho 2011

Ali Abdi está agachado debaixo o sol escaldante do campo de refugiados nos arredores de Mogadíscio [capital da Somália], com os braços cobrindo a cabeça apoiada sobre os joelhos: é difícil assumir uma posição que melhor expresse o seu desespero: por causa da seca, ele perdeu todo o gado e a família. Restou-lhe apenas um filho, mas hoje não encontra nada para lhe dar de comer corre o risco de perdê-lo também.

O relato é de Shukri Said, atriz e ativista ítalo-somaliana, publicado no jornal L`Unità, 23-07-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Ele chegou ao campo Safety de Mogadíscio vindo das áreas internas que não estão atingidas pela seca como as regiões do sul do Bakool meridional e do baixo Shabelle. Para essas áreas, a ONU declarou o estado de carestia há poucos dias, depois que, no dia 17 de julho, o Papa Bento XVI chamou a atenção do mundo para o inferno da Somália, a chamada "tempestade perfeita" humanitária em que, ao drama da seca, soma-se o da guerra civil.

O estado de carestia decretado pela ONU é o último grau na escala de gravidade que, no "burocratês" das organizações mundiais, significa que 30% das crianças sofrem de desnutrição de um modo agudo, que a cada 10 mil pessoas pelo menos 2 adultos e 4 crianças morrem de fome, que a população come todos os dias alimentos com muito menos do que 2.100 calorias. Estima-se, no entanto, que na Somália seis crianças já morrem de fome todos os dias. Dez milhões de pessoas estão em risco de carestia.

Ali Abdi escolheu se dirigir a Mogadíscio, porque o Pam, o Programa Alimentar Mundial, continua abastecendo a capital, enquanto não opera desde janeiro passado nas regiões do sul, em grande parte sob o controle dos Al Shabaab, os "jovens" próximos à Al Qaeda que impedem que os "cruzados" ajudem a população. Algumas semanas atrás, parecia que a proibição havia sido retirada, mas ontem um expoente do grupo a colocou novamente em vigor e parece impedir as ajudas internacionais para as oito regiões do sul da Somália.

Ali Abdi se dirigiu para Mogadíscio para não acabar no inferno de Daadab, o maior campo de refugiados do mundo, com os seus 400 mil hóspedes, quatro vezes a capacidade para a qual foi construído, posto perto além da fronteira com o Quênia.

As informações que ele recebera eram dramáticas sobre a aglomeração, as condições higiênicas e a possibilidade de ter acesso aos alimentos. No dia 14 de julho, o presidente queniano, Raila Odinga, permitiu a abertura do campo Ifo II, que a Acnur, a agência da ONU para os refugiados, começou a construir desde 2008 e que está pronto há muito tempo para aliviar a pressão sobre Daadab, que dista apenas 10 quilômetros.

O Quênia temia, com a sua abertura, as infiltração da Al Qaeda e encorajar o afluxo de outros refugiados somalis, atraídos pela "bondade" da estadia, mas hoje o Ifo II já se mostra inadequado para enfrentar a emergência da fome na Somália sempre mais desesperada.

A grande mobilização mundial contra as consequências da seca foi tardia. O alarme foi dado pela ONU apenas no dia 28 de junho passado, enquanto ocorre a pior crise alimentar dos últimos 60 anos. Além disso, a ONU pediu que os países doadores incrementem e acelerem o desembolso dos fundos e até hoje recolheu muitos, mas as ajudas sofrem para chegar às populações exaustas, também pela incerteza sobre os comportamentos dos Al Shabaab, que já qualificaram mais de uma vez os voluntários das ONGs como walking dollars, isto é, mercadorias de resgate.

Não se entende por que não são incrementados ou abertos os campos diretamente na Somália, preferindo-se o apoio dos acampamentos da Etiópia e do Quênia. Há muitas áreas sob a bandeira da estrela de cinco pontas que estão livres da influência dos Shabaab e que poderia ser facilmente alcançadas pelos aviões. Ontem, em Mogadíscio, aterrissou um voo do Kuwait carregado com alimentos, e, na semana passada, o subsecretário Alfredo Mantica, em visita oficial à capital da Somália, prometeu a chegada iminente de um C130 com as ajudas italianas, que são esperadas com ansiedade, porque cada dia que passa significa mais mortes e mais sofrimento.

Certamente, a segurança na Somália ainda é uma meta distante. O site Shabelle.net publicou a opinião do major general Thierry Casper-Fille-Lambie, chefe militar da base de Djibuti, segundo o qual é necessário incrementar as tropas de combate dos Shabaab, porque a força atual da Amisom, a missão da ONU, é insuficiente. Ele estima que são necessários 20 mil homens para libertar a Somália.

Em Roma, no dia 25 de julho, será aberta a Conferência da FAO sobre a crise alimentar no Chifre da África, convocada pela França, como presidente de turno da União Europeia. Esperando que nessa sede se encontre um caminho para enfrentar de uma forma melhor a gestão dessa enorme tragédia.

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