"Mas que conservador! Ratzinger é um reformista"

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28 Junho 2011

A mídia gosta de retratar o pontífice como um tradicionalista, mas palavras (e fatos) mostram que, ao contrário, o Concílio Vaticano II é a "estrela polar" do seu programa.

A análise é do teólogo e jornalista italiano Gianni Gennari, em artigo publicado no sítio Vatican Insider, 28-06-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

"Eu tenho uma grande estima por ele... Aprecio muito a paixão e a inteligência com as quais Bento XVI colocou no centro do seu pontificado a repreensão à modernidade por ter esquecido a dimensão do Divino e por ter reduzido a existência humana a um materialismo plano, sem esperança e sem alegria". Assim Raimon Panikkar, falecido recentemente, padre, teólogo, grande estudioso das religiões e homem do diálogo universal, fala sobre Joseph Ratzinger.

Surpresa para muitos... Pode-se pensar tudo de Panikkar, menos que ele seja um "conservador", mas desde 1980 é costume considerar Ratzinger como um homem de conservação, de resistência ao novo e ao progresso.

A partir desse ano, por mandato de João Paulo II, ele foi "o policial da fé" no ex-Santo Ofício. No entanto, o jovem Ratzinger, teólogo já conhecido, esteve presente no Concílio Vaticano II (1962-1965), "especialista" do cardeal Joseph Frings, arcebispo de Colônia e uma das pontas do "progressismo" conciliar, colega de teólogos como Karl Rahner e Hans Küng.

Agora, Joseph Ratzinger é, há seis anos, Bento XVI, e lhe foi incorporada, sobretudo nos meios de comunicação chamados "seculares", a fama de inimigo do progresso e das novidades...

Será que Panikkar, "profeta do futuro", está equivocado? Ou estão aqueles muitos que não têm a capacidade crítica, senão a honestidade profissional, de conhecer para julgar, de se informar para conhecer, e de vencer a fadiga de ler para se informar? Uma moda muito corrente entre nós construiu um clichê: papa conservador, pontificado tradicionalista, visão negativa e tristemente bloqueada, primavera do Vaticano II enterrada...

É verdadeiramente isso, ou os fatos e as palavras desse pontificado mostram que a moeda tem outro lado, o lado surpreendente da fidelidade ao Concílio na sua substância? Certamente, quem pensa só no fato de que Bento XVI parece ter se estendido a mão conciliadora aos cismáticos lefebvrianos, abertos ou escondidos, pode ver que Panikkar está equivocado. Mas, depois, se olharmos para o fato de que a condição que ele colocou para toda reaproximação foi a da aceitação plena dos documentos do Concílio e que, por isso, houve uma rejeição, então pode-se duvidar do retrato de "conservador" e inimigo implacável de toda novidade. Além disso, ele disse muitas vezes, antes e depois da eleição a papa: "Eu não sou um revolucionário. Sou um reformista!".

Quanto à tristeza, portanto, basta lembrar que, na sua entrevista a Peter Seewald, Luz do mundo (p. 27), Bento XVI declara explicitamente que toda a sua vida de padre, teólogo, bispo e agora papa teve como único propósito o de difundir a alegria cristã, e que as últimas palavras do seu segundo livro de Jesus (p. 324) é justamente "alegria cristã".

Mas o discurso não é só pessoal: a Igreja Católica governada por Joseph Ratzinger está desfazendo as conquistas do Concílio? Não aparece. Em um dos seus primeiros discursos, ele mesmo declarou, como programa do seu pontificado, a aplicação plena do Concílio Vaticano II, definido como "estrela polar", uma das maiores graças que o Espírito Santo deu à sua Igreja no século XX.

Ele desmentiu o Concílio? Certamente não a partir das palavras do próprio papa. Eu sei que há homens da Igreja, até mesmo importantes, que dão a impressão de resistir ainda à novidade do Concílio, mas, como observador atento, encontro sinais em um sentido totalmente contrário.

Tomemos por exemplo o L`Osservatore Romano. Nos últimos anos, li páginas com opiniões positivas, até mesmo todas juntas, sobre homens como o Pe. Milani, Pe. Mazzolari, Pe. Turoldo, Pe. Balducci etc. Mais diretamente e mais recentemente, um teólogo sério e de autoridade como Inos Biffi, no domingo 12 de junho (p. 4), abordou o tema "Igreja e Salvação", perguntando-se o significado da fórmula tradicional "Extra Ecclesiam nulla salus" (fora da Igreja não há salvação).

Sabe-se que ela também pode ser lida - e assim o foi por muito tempo – como a afirmação de que a salvação eterna é somente de quem está dentro das fronteiras da Igreja institucional, católica e romana. Mas também se sabe que essa versão, cara a tradicionalistas e clericais de todos os tempos, contrasta com a doutrina bíblica da salvação de todos aqueles que, livremente, respondem ao chamado de Deus Criador e Salvador, e com a afirmação do chamado universal à santidade, fruto puro do Concílio.

Se os limites de salvação fossem identicamente aqueles visíveis e verificáveis da Igreja Católica como instituição histórica, então a maior parte da humanidade estaria destinada à perdição, e a universalidade da salvação permaneceria como um sonho impossível...

Mas essa não é a doutrina cristã sobre o assunto. Desde sempre, São Paulo ensina que "quem não conheceu a lei", mas age segundo a consciência com justiça e direito, é lei para si mesmo. Desde sempre – basta lembrar o trecho do Juízo Final em Mateus, 25 –, está claro que seremos julgados sobre o amor, e que aquele amor autêntico pelo próximo valerá também como amor a Deus: "O que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes!".

Todo homem, toda mulher, desde sempre e para sempre, no projeto misericordioso e salvífico do Criador, pode alcançar a salvação em Cristo Jesus, mesmo não o tendo conhecido diretamente, mas reconhecendo-o no próximo a ser amado concretamente...

Esse também é o espírito original do Concílio, do discurso inaugural do papa João à Gaudium et Spes. Portanto, hoje assim é o L`Osservatore Romano, enquanto Joseph Ratzinger é bispo de Roma há seis anos e se prepara para também confirmar em Assis, sem confusões nem sincretismos de qualquer tipo, a fraternidade com homens e mulheres de todas as religiões e de boa vontade.

Mas então quais são as fronteiras da Igreja? São conhecidas as da Igreja visível, mas as da Igreja mistério de salvação em Cristo ninguém pode fixar. Doutrina Antiga, certamente, desde os Evangelhos e São Paulo, confirmada por Pio XII na Mystici Corporis, em que ele afirma que à "alma" da Igreja pertencem muitos que não pertencem ao seu corpo visível, e dada como óbvia também por Bento XVI (Luz do Mundo, p. 21), que cita Santo Agostinho: "Muitos que parecem estar dentro estão fora, e muitos que parecem estar fora estão dentro".

Objeção dos conservadores clericais radicais: "Mas que fim tem a `missão` dada por Cristo aos seus desde o início, o dever de anunciar o Evangelho a todos?". Talvez, por isso, seis dias depois – no dia 18 de junho –, ainda Inos Biffi, ainda no L`Osservatore Romano, ainda na página 4, lembra que essa "tarefa irrenunciável para a Igreja não ameaça a liberdade do próximo".

Portanto: hoje, a Igreja Católica, Bento XVI não olha para a história com o retrovisor, talvez ofuscado pelo afã e pelo medo do novo. O vento do Concílio ainda sopra, apesar dos atrasos e das lentidões de todos. Mesmo que jornais e jornalistas, mais ou menos especialistas nas coisas do Vaticano, não se deem conta nem da novidade que sempre bate à porta do homem, também hoje...

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