Países em desenvolvimento garantem eleição apertada de Graziano na FAO

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26 Junho 2011

O governo de Dilma Rousseff conseguiu ontem a primeira vitoria internacional do Brasil nos ultimos tempos, ao eleger José Graziano da Silva para a direção-geral da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), na mais disputada eleição nos 66 anos da entidade.

A reportagem é de Assis Moreira e publicada pelo jornal Valor, 27-06-2011.

O auditório se transformou em alguns minutos numa festa brasileira, no anúncio de que Graziano ganhara por 92 a 88 contra o espanhol Miguel Angel Moratinos. O brasileiro teve um voto a mais do que precisava para conquistar o cargo. Foi uma apertada vitoria dos países em desenvolvimento contra desenvolvidos. Graziano obteve apoio de boa parte da América Latina, África, Ásia e dos países árabes.

O Brasil tinha perdido todas as disputas por cargos internacionais importantes nos últimos oito anos. Foi uma vitória pessoal para Graziano, um dos idealizadores do programa Fome Zero (embrião do que se tornaria o Bolsa Família), como também um reconhecimento do Brasil como país chave na agricultura mundial. Graziano assumirá em janeiro para um mandato de quatro anos em uma entidade que até pouco tempo era praticamente ignorada. O diretor que sai, o senegalês Jacques Diouf, ficou 17 anos no cargo sem que ninguém o incomodasse.

O peso da FAO no cenário mundial mudou com a crise alimentar de 2008 e com a explosão dos preços em 2010-2011. A FAO está hoje também no centro da governança global, obrigada a trabalhar para ampliar a produção agrícola e reforçar a segurança alimentar.

Logo na primeira rodada da eleição, veio a confirmação de que voto secreto é convite à traição: Graziano tinha 88 apoios confirmados oficialmente, mas na urna só apareceram 77. O espanhol Moratinos ficou com 72. Os rumores de compra de votos eram enormes. Teve delegado que sumiu ao invés de votar.

Depois da primeira rodada, abandonaram imediatamente a disputa os candidatos da Áustria (10 votos), Irã (2), Iraque (6) e Indonésia (12). O Brasil pediu suspensão da votação para reunir os países em desenvolvimento. Começou, então, uma batalha processual, em um auditório com clima quentíssimo - fazia mais de 30 graus ontem em Roma. A Hungria, apoiando Moratinos, contestou, até que a votação foi efetivamente suspensa por 30 minutos.

Os ministros brasileiros Antônio Patriota, das Relações Exteriores; Wagner Rossi, da Agricultura, e Afonso Florence, do Desenvolvimento Agrário, percorriam o plenário a caça dos últimos votos. Patriota estava a fundo na disputa. Rossi se reuniu com várias delegações, incluindo a do pequeno Niger, que saiu dizendo que voltaria para discutir "depois da vitória". Florêncio buscou o representante de Tuvalu, minúscula ilha polinésia.

O Brasil também não poupara esforços. No início da semana, a presidente Dilma Rousseff autorizou o governo a doar 100 mil toneladas de milho, 500 mil toneladas de arroz, 100 mil toneladas de feijão, 10 mil toneladas de leite em pó e uma tonelada de sementes de hortaliças para paises pobres.

Quando o Brasil reuniu o G-77, o grupo dos países em desenvolvimento, que é formado por muitos mais países, o clima era de otimismo. Os candidatos iraniano e indonésio pediram a transferência do voto para Graziano. "Por favor, façam isso", implorou o indonésio, que em seguida levantou o braço de Graziano em sinal de vitória. A Argentina e a África do Sul faziam campanha pelo Brasil.

Quando os delegados voltaram para votar, pouco depois das 14 horas, os fotógrafos cercaram Graziano, ignorando Morantinos. Alguns ministros já vinham parabenizá-lo. O ministro chinês da Agricultura nem esperou o resultado para pedir um encontro para hoje. Quando enfim foi divulgada a frase que todos esperavam - "O Sr Graziano é o eleito" -, Moratinos o cumprimentou rapidamente e saiu.

"Deixo de ser o candidato brasileiro para ser o diretor-geral de todos", afirmou Graziano, consciente de que sua vitoria apertada colocará mais pressões sobre ele, com os países divididos sobre uso de etanol, subsídios dos países ricos etc. Países doadores estão impacientes com a lentidão na reforma da FAO. Graziano diz que vai intensificar as operações junto aos países que mais precisam, que são os mais pobres. Graziano vai também enfrentar os efeitos da alta dos preços, que ampliam o numero de mal nutridos, podendo chegar a 1 bilhão de novo.

Estima-se serem necessários US$ 50 bilhões por ano, com investimentos em irrigação, infra estrutura, conservação de recursos natural, pesquisas, sementes, fertilizantes e ajuda alimentar, para eliminar a fome globalmente. "Quem tem fome tem pressa", afirmou Graziano. "A importância da vitoria é extraordinária, o Brasil é um país pelo multilateralismo, em favor da paz e do desenvolvimento", afirmou Patriota, que literalmente molhou a camisa.

Sem jogar para a arquibancada, o governo Dilma articulou um esquema de campanha que funcionou, baseada na ideia de que o Brasil está buscando ganhar a luta contra a miséria, apoia também a agricultura familiar, ampliou a cooperação internacional na agricultura e as relações Sul-Sul. Graziano preferiu falar somente hoje sobre seus planos. Mas deixou claro que vai dar um ímpeto na reforma da FAO, entidade exageradamente burocrática.

Em nota, a presidente Dilma Rousseff disse que "a vitória do candidato brasileiro reflete, igualmente, o reconhecimento pela comunidade internacional das transformações socioeconômicas em curso em nosso país (...) bem como o compromisso do Brasil de inserir o combate à fome e à pobreza no centro da agenda internacional".

Lula é o grande fiador da vitória

"Que pena que o senhor não está aqui", lamentou José Graziano da Silva quando um diplomata o colocou ao telefone com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "Segui seu ditado: lutei como um leão para não morrer como um veado", disse, rindo, passando a relatar a disputa. Ele já tinha falado com a presidente Dilma Rousseff.

Quando o Brasil reuniu o G-77, grupo de países em desenvolvimento, para preparar a votação final, a representante da África do Sul fez um inflamado discurso a favor de Graziano. E arrancou aplausos ao dizer que, se o brasileiro não cumprir o que prometeu, os países podem cobrar de Lula.

Era Lula quem estava na foto com Graziano, na propaganda oficial. Os delegados só falavam do ex-presidente. E foi nesse cenário que o ministro das Relações Exteriores, Antônio Patriota, destacou que os partidários do brasileiro podiam cobrar também da presidente Dilma Rousseff.

Lula não veio para a reta final da campanha porque temeu as reações dos italianos sobre o caso Cesare Batistti, mas sua imagem continua forte na cena internacional. Em todo caso, o governo Dilma conseguiu uma vitoria que o ex-presidente tentou, sem resultado

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