Um Vaticano II sem rótulos

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15 Junho 2011

Depois do Concílio Vaticano II, a Igreja Católica nos países ocidentais experimentou um profundo declínio na participação na missa, a dizimação das ordens religiosas e das vocações sacerdotais, e uma grave crise de autoridade da Igreja institucional, seguidos pela reação a Humanae Vitae.

A análise é de Gavin D`Costa, publicada na revista católica inglesa The Tablet, 09-06-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Alguns culparam, por isso, o aparente affair do Concílio com a modernidade, que, antes do Concílio, havia sido severamente condenada. Um pequeno número desse grupo finalmente moveu-se para o cisma, liderado pelo falecido arcebispo Lefebvre. Outros viram o colapso como inevitável, dadas as profundas correntes de secularização nas culturas ocidentais. No entanto, outros atribuem esse declínio a um fracasso em implementar os ensinamentos do Concílio e a ação de retaguarda de "conservadores centralizadores", amarrando a Igreja a uma rocha pré-moderna, não possuindo nem credibilidade, nem responsabilidade.

Essa é apenas uma amostra das posições tomadas sobre o assunto, mas é ampla a evidência de que a interpretação do Concílio Vaticano II (1963-1965) ainda é profundamente contestada.

Os debates sobre o Concílio têm sido muitas vezes descritos como entre "conservadores" e "liberais", termos gastos que batizaram até grupos acadêmicos envolvidos na interpretação do Concílio. Agostino Marchetto, com justiça, deplora esses rótulos, mas seu livro (The Second Vatican Ecumenical Council: a counterpoint for the history of the council, University of Scranton Press) certamente pode ser lido como uma séria crítica "conservadora", histórica e metodológica, dos cerca de 20 anos de magistério "liberal" sobre o Concílio.

Quando o cardeal Ruini apresentou livro do arcebispo Marchetto em um lançamento oficial em Roma, ele comparou a recente história em cinco volumes de diversos autores sobre o Concílio editada por Giuseppe Alberigo, como Marchetto faz, à famosa história do Concílio de Trento escrita por Paolo Sarpi. Nenhum dos dois mencionou que Sarpi foi colocado no Índice de Livros Proibidos – mas eles sabiam disso.

A acusação feita contra a Escola de Bolonha, da qual Alberigo é um líder intelectual, é que os estudiosos envolvidos com a história leram os documentos vaticanos e os eventos do Concílio com sistemáticas tendenciosidades. As mais básicas dessas propensões foram um fracasso de se confiar principalmente aos procedimentos de 62 volumes sobre a plataforma do Concílio e os próprios documentos conciliares; ser decididamente anticurial; enfatizar a novidade e a diferença sobre a continuidade; diminuir a autoridade dos documentos finais em favor de ver o Concílio como um "evento" (aqui existem vários significados dados a esse termo, mas, fundamentalmente, desvia-se a atenção da interpretação textual dos documentos conciliares, preferindo concentrar-se nos diários privados e em teorias literárias, históricas e sociológicas); ver uma profunda disjunção entre o Papa João XXIII, cuja visão era boa, e o Papa Paulo VI, que crescentemente se afastou da visão de João, enquanto o Concílio avançava sob a sua liderança. Devido a essas inclinações, alega Marchetto, essa enorme história obscurece os ensinamentos do Concílio.

O livro de Marchetto é importante devido à fundamentação que ele dá à crítica do Papa Bento XVI a várias interpretações do Concílio. A maioria de suas 723 páginas são dedicadas a revisar, sob várias temáticas, publicações entre 1992 e 2003, lidando com o contexto do Concílio, sua fase preparatória, as sessões reais, as histórias alternativas do Concílio, a autoridade episcopal e papal (tratada em um dos livros anteriores de Marchetto e um dos seus temas favoritos), uma revisão de diários e de fontes alternativas e, finalmente, três ensaios que resumem a argumentação básica do livro.

O que, de acordo com Marchetto, constitui uma interpretação correta? Primeiro, deve-se assumir a continuidade da doutrina: reforma e mudança acontecem apenas dentro dessa continuidade doutrinária. Marchetto frequentemente menciona Newman, mas não desenvolve as perspectivas de Newman referentes ao desenvolvimento doutrinário em qualquer detalhe. Não há também qualquer discussão sobre o que constitui a doutrina irreformável e reformável e sobre o que constitui opiniões teológicas prováveis ou certas, às vezes vistas como doutrinas.

Em segundo lugar, ler os textos conciliares e os relatos oficiais dos processos no plenário do Concílio, assim como os comentários oficiais sobre os textos, além dos documentos oficiais publicados, tais como as cartas do Papa Paulo VI durante o Concílio. Esses são os "fatos" que deveriam constituir a base da nossa compreensão do Concílio, não os acontecimentos antes, durante e depois, da forma como são construídos a partir de outras fontes.

Marchetto está certo em alertar que mal começamos a interpretar o Concílio, já que os 62 volumes, editados por Vincenzo Carbone, só foram concluídos recentemente. Mas essa cautela também deveria se aplicar às leituras de Marchetto dos documentos e do contexto conciliares, o que exigiria mais argumentos do que ele às vezes apresenta. Ele fala muitas vezes sobre julgamentos desequilibrados e expressões excessivas, supondo que o leitor partilha da sua opinião. Embora, para ser justo, em várias resenhas de livros, como as que Marchetto escreve muitas vezes, sempre operamos dentro de limitações.

Finalmente, Marchetto aponta para alguns primeiros esboços de leituras alternativas à tradição dominante que ele criticou com tanto detalhe. Ele indica Leo Scheffczyk, Annibale Zamberi, Vincenzo Carbone, o trabalho do Instituto Paulo VI da Bréscia, Jean-Marie Roger Tillard, Massimo Faggioli, Giovanni Turbanti e, em parte, Hermann J. Pottmeyer. Pode-se acrescentar os bons ensaios editados por Matthew Levering e Matthew Lamb no mundo de fala inglesa.

Essa é uma importante marca em um debate que está apenas começando. O futuro da Igreja Católica será alimentada pelo Concílio apenas se ele for bem interpretado.

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