"O mundo empresarial está muito à frente dos políticos no que diz respeito às mudanças climáticas". Entrevista com Nicholas Stern

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07 Junho 2011

O seu Relatório sobre o impacto das mudanças climáticas na economia mudou a maneira de se abordar este problema a partir do poder. Foi chamado de exagerado e apocalíptico, mas Nicholas Stern (Hammersmith, Reino Unido, 1946) mostrou em sua vida e em seus estudos que anda com os pés no chão. Stern assume uma importância para o debate sobre a crise climática proporcional ao do Greenpeace e de Al Gore, para citar dois exemplos. O Relatório Stern, produzido por Tony Blair e lançado em 2005, com 700 páginas foi a fonte de consulta dos fóruns mais poderosos na tomada de consciência sobre a gravidade da questão.

Stern saltou para a esfera pública com o trabalho, e o seu trabalho se transformou em base para diversas políticas subsequentes. Ele adverte que se medidas urgentes não forem tomadas, o crescimento diminuirá entre 5% e 20%  a nível global e a desertificação de muitas áreas do planeta resultará em movimentos de massa com os seus respectivos conflitos. Uma política da indiferença e de braços cruzados com a temática ambiental conduzirá à pobreza e a tensões.

A bola está com os líderes mundiais. Medidas vêm sendo tomadas, mas não estão agindo com a urgência que ele gostaria de ver. O mundo empresarial tem reagido melhor na sua opinião. E as novas potências mostram mais determinação na luta contra as mudanças climáticas do que as antigas. Tudo isso Stern diz em seu escritório na London School of Economics, a universidade onde leciona e onde comemorou a notícia do prêmio Fronteiras do Conhecimento concedido pela Fundação BBVA, que receberá no próximo dia 15 em Madri.

Nesses dias anda agitado. Não é o seu time Wimbledon, o clube de futebol, por quem torce que o preocupa. É que se tornou avô. Algo que aumenta a sua consciência: "Se não agirmos rapidamente, a geração nascida agora podem sofrer as conseqüências", disse ele. Se não queremos que a temperatura do planeta aumente cinco graus, algo catastrófico, temos de reduzir as emissões para que  não cheguem ao ritmo atual na percentagem de 550 partes por milhão em 2050. É necessário agir já.

Nicholas Stern concedeu entrevista a Jesús Ruiz Mantilla do El País, 05-06-2011. A tradução é do Cepat.

Não sei se, cinco anos após o seu relatório, a situação no mundo sobre a mudança climática é melhor ou pior. Foram tomadas as medidas necessárias? Estamos mais conscientes?

Olhando para trás, observamos que aconteceram grandes mudanças. Por exemplo, no que diz respeito à política, a economia e aos negócios. Se nos referirmos aos anos anteriores e temos presente o G-8 realizada em Gleneagles (Escócia) em 2005, as principais questões sugeridas para debate por Tony Blair foram a África e o tema da mudança climática. Sobre o primeiro, realizamos um grande trabalho de preparação, o que não aconteceu com o tema das mudanças climáticas. Foi a primeira vez que uma reunião abordou a problemática do desenvolvimento de um continente como a África e se procurou definir medidas de ajuda. Havia uma enorme consciência sobre o tema, o mesmo não aconteceu no que diz respeito às mudanças climáticas. Isso não era considerado um assunto sério e grave para ser tratado. Chirac e Blair eram os únicos que realmente se importavam com o tema. Os funcionários que preparavam estas reuniões tratavam o assunto de forma anedótica, como se ali não fosse o lugar de discuti-los. Para eles era um tema menor. Hoje é uma das questões mais importantes em qualquer agenda política, dos Estados Unidos às novas potências como Brasil, China ou Índia. Em 2007, Angela Merkel, durante a sua presidência da UE, deu máxima prioridade ao tema. Assim , temos visto crescer a preocupação. Não há hoje um único político sério que ignore a problemática.

Nem mesmo a crise econômica o relegou a um segundo plano?

Neste novo contexto, a atenção dos líderes com o tema reduziu. Não é lógico, nem aconselhável, porque se dispersou a atenção exatamente no momento em que se requer mais esforço. O mundo desenvolvido tem desviado a atenção, especialmente os Estados Unidos. Se você olha para os países mais industrializados, tem sido assim. Mas há outros, volto a insistir, como o Brasil, Índia, China, que têm abordado melhor o problema.

No caso da China, a que razões se deve o interesse. Desenvolveram uma série de indústrias de energia renovável.

Eles têm se saido muito bem. A China está sendo dirigida por engenheiros, a maioria vem de universidades de renome, tais como Tsinghua, nos últimos anos.

Eles tomaram o problema a sério?

Desde o começo. Estão bastante familiarizados com os riscos. A China é muito vulnerável. A população das zonas costeiras e ao lado do Himalaia encontram-se em situação alarmante. Grande parte de sua água vem dali e sabem que estão em perigo. Eles aprenderam velhas lições para as novas regiões em permanente crescimento. O antigo desenvolvimento baseado em exportações e importações não é mais suficiente  e buscam novos sistemas de crescimento que favorecem o consumo de seu próprio mercado, assim como formas de energia limpa. Estão colocando o cérebro a funcionar, com inventividade e propostas de inovação constantes.

Práticos e reais?

Sim. É preciso observá-los de forma diferente em relação a nós, europeus. O revés da crise econômica afetou-nos tão profundamente que os outros estão procurando novas formas de crescimento, baseado em alternativas para o meio ambiente. Devemos aprender que uma boa política econômica procura novas maneiras de desenvolvimento quando os modelos estão esgotados. É o que aconteceu com a revolução industrial, se analisarmos, veremos que contou com investimentos em inovação e criatividade.

Encontrar alternativas para o que causa o mal é natural. Quando foi que a poluição do carvão em Londres levou a sociedade a buscar outros modelos de energia. Isso foi na época de sua infância, correto?

Quando eu ia para a escola na década de cinqüenta, havia períodos em que eu tinha que ir a pé porque o ar era tão pesado e espesso que os ônibus não podiam trafegar. Você percebia que algo estava errado. Agora é muito mais profundo porque os danos são maiores e há o inconveniente de que é global. Além disso, não se vê como se via a poluição e não se percebe a poluição atmosférica.

Quando os cientistas pregam o apocalipse, querem ganhar a nossa fé?

As provas são racionais.

Fé na razão?

Eu evitaria essa palavra fé e a substituiria por compromisso. Compromisso com a racionalidade.

Perfeito.

Minha opinião sobre as posições políticas mudaram radicalmente desde 2005 e 2006. Algumas coisas melhoraram, com avanços e recuos por parte dos EUA e posições hesitantes da UE. Mas no que diz respeito ao mundo empresarial, produziu-se um fenômeno extraordinário. Grandes empresas estão 10 ou 15 anos à frente e estão cientes do problema. Sabem que é preciso baixar sensivelmente as emissões e se esforçam para inovar. Os carros fabricados na Europa há cinco anos são menos poluentes. Quem teria pensado que as grandes marcas teriam modelos híbridos em tão pouco tempo? Estão se antecipando e a criatividade é notável em áreas como a transmissão de energia elétrica por baterias, como novos materiais de construção civil. Empresas como a Wal-Mart ou Dupont têm poupado milhões de euros em energia. São mudanças radicais

São mais confiáveis do que os políticos?

O mundo empresarial está se mexendo, e faz isso de forma rápida e eficaz. Está à frente dos políticos no que diz respeito as mudanças climáticas. Nem todas, mas aos poucos vai se impondo como um grande problema. Os cientistas também têm levado uma importante conscientização para a área privada. Há avanços na política, na indústria e na área científica, mas principalmente nas duas últimas.

As catástrofes também aumentam a consciência, ainda mais quando o perigo fica bem perto.

Neste aspecto podem ser visto novos fenômenos, novos registros: o aumento da temperatura na Rússia é maior do que nunca. Assim como as inundações no Paquistão, são dramáticas. É preciso tomar cuidado para não cair no catastrofismo, porque tudo é uma questão de probabilidades e não se devem tirar conclusões generalizadas. Mesmo assim, a ciência nos diz que esses eventos se tornaram cada vez mais comuns, se não tomarmos medidas adequadas. Devemos tirar conclusões cuidadosas da catástrofe. É fundamental não exagerar para perverter argumentos, porque a realidade em si já é suficientemente grave.

Não admira que seja tão cauteloso. Quando surgiu o famoso relatório, rotularam-lhe de catastrofista. Mas, pelo visto hoje, você até tem sido otimista em suas conclusões. Interpretaram-lhe mal?

Bem, eu vou te dizer uma coisa. Acusaram-me disso, mais eu fui  extremamente cuidadoso.

Digo que foi otimista porque naquela época, você veio dizer-nos que estávamos em tempo de tomarmos medidas.

Eu continuo otimista. Hoje temos uma perspectiva mais clara sobre o alcance do problema e estamos desenvolvendo muitas alternativas. Assim, em relação ao que somos capazes de fazer permaneço otimista. Mas eu não tenho certeza de que realmente faremos aquilo que é preciso fazer, ainda temos tempo para reagir, mas estou começando a duvidar de que estejamos sendo o suficientemente rápido. Novamente observamos uma preocupante negligência e falta de coragem.

Você diz que há negligência, porque você mesmo percebeu isso dentro do governo.

Bem, planejei ficar certo tempo no governo. Eu sou um professor universitário, a política em minha vida foi um parênteseis. Entrei na Universidade quando tinha pouco mais que 20 anos. Essa tem sido minha vida, como funcionário público passei mais de três anos e meio da minha vida. Tenho que dizer que foi um período apaixonante.

Na política?

Fui, repito, um funcionário público feliz. A política? O que não é político?

Mas, certamente, agora prefere a sua vida como um avô. Seus netos viverão em um planeta mais limpo do que a nosso?

Espero. Se não acelarmos o que é preciso fazer se produzirão grandes movimentos migratórios e isso agudizará os conflitos.

Mas esta tem sido a história da humanidade. Um movimento perpétuo.

Não nesta escala. Não nestas dimensões. Falamos de  centenas de milhões de pessoas afetadas que vivem em partes do planeta que se tornarão inabitáveis. A Espanha pode tornar-se um outro deserto do Saara, em cem anos, uma parte do mundo que eu amo e admiro. Bangladesh poderá ficar submersa; a Califórnia transformada em outro deserto. Estas são mudanças que irão provocar um movimento de massas. Isso é o que poderá acontecer se não agirmos rapidamente. Conhecemos a história suficientemente para saber que as migrações originam tensão, e a este nível vai ser sério, grave, dramático. Se não nos colocamos em marcha para resolver o problema, a geração que virá pela frente irá sofrer.

A partir de um observatório das gerações futuras e da liderança como a London School of Economics, o que pensam os jovens? Eles estão preparados para enfrentar esses problemas?

Muito. Os jovens desta geração vivem intensamento o momento, mas eles também se mostram inquietos e preocupados com o que pode vir acontecer. Imaginam o mundo quando terão 40 ou 70 anos. 20 anos atrás, eram muito menos preocupados com essa temática. As percepções mudam, é normal. Agora, há uma consciência maior e os jovens de hoje cobram de nós se agimos de forma negligente. Eles levam muito a sério, pelo menos com aqueles com quem tenho conversado na universidade. Quanto a mim, repito, não peço uma conscientização do problema em si, que está evidente que existe, mais sim um passo a mais: a certeza de que é necessário agir rapidamente, a falta de convicção sobre a urgência do problema é que me preocupa .

A lentidão é então o nosso pior inimigo?

Nunca estivemos com uma temperatura de 5 graus acima do normal desde 30 milhões de anos, algo que nós como espécie desconhecemos porque os Homo sapiens habita a Terra há apenas 200.000 anos e nossa civilização como a conhecemos remonta 7.000 anos. Precisamos agir com urgência. Nós temos 10 ou 15 anos, caso contrário, rumamos para um  futuro sombrio.

Não é que estejamos nos dirigindo para o fim do mundo, mas sim para um mundo diferente.

Isso mesmo, e para isso é preciso romper a cadeia atual baseada no consumo, produção e emissões. Se continuarmos assim, vamos emitir 50 bilhões de toneladas por ano, o que deterá  o nosso desenvolvimento e o nosso crescimento. Nós precisamos reduzir as emissões para cerca de 20 bilhões, se conseguirmos, vamos progredir, caso contrário, seremos vencidos pela mudança climática e isso trará empobrecimento absoluto. Um leva ao outro, se não pararmos, ambos nos derrotarão.

Quem sabe seja o momento de aprender ideias e iniciativas das novas potências. De países como a India e a China, onde você trabalhou.

Na China, por 20 anos, e na Índia, muito mais. A colaboração entre a China e a Espanha em matéria de energia renovável é exemplar. Resultará em benefícios a curto prazo.

De sua experiência na Índia, o que você aprendeu?

Eu trabalhei em Palanpur, numa aldeia que visito uma vez por ano desde 1974. Já fizemos seis estudos sobre a situação dessa localidade, criei raizes observando suas mudanças. A macroeconomia precisa ser pesquisada no "campo". O que você aprende em tais comunidades é que a criatividade transforma qualquer lugar do mundo. O papel dos políticos é possibilitar que a condição objetiva dessa criatividade possa acontecer e dê frutos. Isso é o que me interessa na esfera pública. O entusiasmo pela vida, pela família, a beleza, a música transforma as pessoas e é curador. Esse é o caminho, porque se não lhes dão as condições, o que emerge é a brutalidade e a violência. Nós não podemos ser ingênuos e achar que esse lado obscuro não nos ameaça.

Os contrastes da vida, como no futebol que você tanto ama.

Sim, desde a infância. Sou torcedor do Wimbledon, mas que nada tem a ver com o Barcelona, o melhor time de futebol que eu vi na minha vida. A seleção do Brasil pode aproximar-se dele, mas não chega perto. Eu nunca vi nada parecido.

_____________

Nicholas Stern

Acadêmico e economista, alcançou enorme notoriedade mundial com o relatório que leva seu nome por pedido do governo Blair. Trabalhou nas universidades de Oxford e Warwick, bem como o Massachusetts Institute of Technology, a École Polytechnique, de  Paris, o Instituto Indio de Estatística e a Universidade Popular da China. Foi vice-presidente do Banco Mundial e recebeu o prêmio Fronteiras do Conhecimento da Fundação BBVA.

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