O planeta é capaz de suportar mais dois EUA?

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06 Junho 2011

"De acordo com as tendências atuais, o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional esperam que o produto econômico global cresça entre seis e sete vezes entre 2005 e 2050. Desse modo, o PIB total da Ásia cresceria dos cerca de US$ 30 trilhões atuais para cerca de US$ 230 trilhões. Esse é um número impressionante. Mas ele é realmente desejável –ou mesmo possível?", escreve Chandran Nair, fundador e presidente-executivo do Instituto Global para o Amanhã, um centro de estudos pan-asiático, e autor de “Consumptionomics: Asia’s role in Reshaping Capitalism and Saving the Planet”, em artigo publicado no jornal International Herald Tribune e reproduzido pelo Portal Uol, 07-06-2011.

Eis o artigo.

Tente imaginar um mundo com mais três Estados Unidos. Três potências econômicas gigantes, com cidadãos que compram, vendem e consomem, tudo na busca de suas versões do Sonho Americano. Difícil imaginar? Mas é nesta direção que os economistas dizem que estamos seguindo.

O amplo consenso é de que a China superará os Estados Unidos para se tornar a maior economia do mundo em duas décadas. E em 2050, a Índia será igualmente grande.

Essa perspectiva empolga muita gente – as do mundo dos negócios acima de tudo, mas também os governos asiáticos. Após décadas de trabalho árduo e luta, centenas de milhões estão à beira da abundância da classe média.

De acordo com as tendências atuais, o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional esperam que o produto econômico global cresça entre seis e sete vezes entre 2005 e 2050. Desse modo, o PIB total da Ásia cresceria dos cerca de US$ 30 trilhões atuais para cerca de US$ 230 trilhões.

Esse é um número impressionante. Mas ele é realmente desejável – ou mesmo possível?

Se aos Estados Unidos se juntarem duas outras massas econômicas tão grandes (ou mesmo maiores, já que segundo as tendências atuais a economia americana triplicaria em tamanho até a metade do século), nosso planeta se tornará inimaginavelmente estressado.

Nós já ultrapassamos a capacidade regenerativa do planeta, mas isso não costuma ser computado em projeções econômicas sobre o crescimento.

Veja o exemplo da energia. Se os chineses e indianos usarem tanta energia per capita quanto os americanos, o consumo total de energia deles seria 14 vezes maior do que o dos Estados Unidos.

Mesmo se os asiáticos se restringirem ao menor uso de energia dos europeus, eles ainda assim consumiriam de oito a nove vezes mais energia que os Estados Unidos atualmente.

Independente do modo como olhemos, o mundo não pode suportar tamanho crescimento do uso de energia. As formas convencionais de geração de energia produziriam carbono em tamanho volume que nosso planeta estaria condenado a uma mudança climática inimaginável, enquanto as alternativas –até mesmo a energia nuclear– simplesmente não são viáveis dentro dos prazos mencionados.

Ou veja o exemplo dos carros. As estimativas sugerem que se a China, Índia e outros países em desenvolvimento atingirem o mesmo nível de propriedade de automóveis do Ocidente, o número de carros poderia chegar a 3 bilhões no mundo, quatro vezes o total atual, em quatro décadas. De onde viria o combustível para esses veículos e qual seria seu impacto ambiental?

Cálculos semelhantes podem ser feitos para tudo, de frangos a iPads. Colocando de modo simples, este mundo não possui o suficiente para mais dois Estados Unidos movidos pelo consumo.

Políticos, economistas e empresários permanecem em negação, usando a muleta da tecnologia, do livre mercado e das finanças para gerar mensagens de inovação e esperança. Mas esperança não é um plano.

Os governos asiáticos devem rejeitar as visões tacanhas daqueles que pedem para que os asiáticos consumam incessantemente –seja por economistas e líderes ocidentais, que desejam que a região se transforme em um “motor de crescimento” e assim reequilibrar a economia mundial, seja por governos asiáticos, convencidos de que economias em expansão constante são o que suas populações precisam.

Isso não é o mesmo que sugerir que as pessoas permaneçam pobres. Também não é um argumento contra o desenvolvimento econômico. Em vez disso, é um pedido para moderação no consumo, canalizado de modo a não aumentar a demanda da base de recursos; não esgotar ou degradar nosso meio ambiente; não produzir mais emissões e poluentes, e nem colocar em risco o sustento e saúde de milhões.

Para que a Ásia obtenha prosperidade para a grande maioria de sua população, os países da região devem encontrar formas alternativas de promover o desenvolvimento humano e econômico. O que a Ásia deve priorizar são incentivos que recompensem atividades “mais é menos” – aquelas que, diferente da anterior, não desvalorizem recursos nem externalizem seus verdadeiros custos. Isso seria um afastamento do capitalismo extremo atual, um remodelo que atenda às necessidades de um século 21 saturado.

Esses incentivos precisam ser poderosos. De novo, considere a China. Para que atinja sua meta de ser “moderadamente próspera” até 2050, com um PIB per capita real de aproximadamente quatro vezes o número atual, ela estima que teria que promover um aumento de sete vezes na eficiência do uso de recursos. A Índia está diante do mesmo desafio. Independente da natureza da política, ambas precisarão de uma intervenção forte e ousada do governo, especialmente contra os interesses adquiridos. Essas medidas precisariam ser complementadas por regras draconianas, restringindo o consumo de uma série de produtos, particularmente combustíveis fósseis, pesca e produtos florestais.

Grandes investimentos em infraestrutura pública também seriam necessários para dar às pessoas o transporte, água e saneamento, saúde e educação que muito necessitam. A segurança alimentar e a segurança além da agricultura industrial devem ser uma prioridade.

Adotar um panorama que coloque a gestão de recursos no centro de todas as políticas não será fácil para a Ásia, especialmente em sociedades que foram instruídas nas últimas décadas que a prosperidade só pode vir por meio das formas convencionais de crescimento econômico movido pelo consumo.

Mas se os governos da região puderem se erguer à altura deste desafio, serão aqueles que tomam decisões em Pequim, Nova Déli e Jacarta que determinarão se nosso mundo terá um futuro – e não, como tem sido o padrão nos últimos dois séculos, as capitais da Europa e dos Estados Unidos.

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