O motor da industrialização brasileira gira em velocidade muito baixa, diz Wilson Cano

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06 Junho 2011

A questão regional brasileira é um dos temas caros ao economista Wilson Cano, professor colaborador voluntário do Instituto de Economia (IE) da Unicamp. Há vários anos, ele tem se debruçado sobre o assunto, buscando compreender melhor, entre outros, aspectos relacionados à regionalização da produção capitalista no Brasil. Um dos seus livros, Desconcentração Produtiva Regional do Brasil 1970- 2005, lançado em 2008 pela Editora da Unesp, trata justamente das profundas mudanças nos determinantes da vida econômica do país no período. Agora, Cano prepara-se para iniciar uma nova pesquisa acerca da temática. Sua disposição é investigar o que ocorreu nesse campo entre meados dos anos 2000 e os dias atuais. “Estou desenhando o projeto de pesquisa, que deverá envolver um grande número de pesquisadores e diversas instituições. O trabalho ainda não foi concluído porque estou aguardando a publicação completa do Censo de 2010”, revela.

Na última semana, o docente fez uma pequena pausa nos seus afazeres para falar sobre o novo estudo ao Jornal da Unicamp. Na entrevista que segue, ele afirma que o motor da industrialização brasileira está “murcho” e adverte para o risco de o país continuar apostando todas as fichas na exportação de commodities.

A entrevista é de Manoel Alves Filho e publicada pelo Jornal da Unicamp, 06 a 12 de junho de 2011.

Eis a entrevista.

Como o senhor começou a trabalhar com o tema da desconcentração produtiva?

Eu tenho trabalhado com diversos temas ao longo da minha carreira acadêmica. Na Unicamp, me pediram para examinar a questão regional brasileira e também a questão da urbanização. Já escrevi alguns livros sobre essas matérias. Nós temos que entender que o Brasil, entre os anos de 30 e 80, teve toda a força e a direção do seu crescimento voltado e centrado para o processo de industrialização. Foi isso que trouxe progresso e modernizou o país. Graças à política econômica, principalmente a adotada por Getúlio Vargas, houve a integração do mercado nacional. Ou seja, antes você tinha ilhas, uma chamada Nordeste, outra Sul, outra Sudeste e assim por diante. A partir desse processo, o arquipélago foi unificado em um só território. O mercado nacional foi integrado. A industrialização, por sua vez, estava fortemente concentrada em São Paulo, que detinha em 1980, 53% da produção industrial brasileira. Depois de 80, aconteceu uma série de coisas. O Brasil levou diversos tropeções. De 80 para cá, esse processo mudou radicalmente.

Foi a tal década perdida...

Os anos 80 foram marcados pela crise da dívida. Foram anos de baixíssimo crescimento. Nesse período, a indústria apenas rastejou, não cresceu. De 1989 até hoje, houve a manutenção de uma política macro-econômica de corte neoliberal. Que diabo de coisa é essa? É algo que trabalha com a abertura comercial do país. Antes nós tínhamos um protecionismo à indústria nacional. Hoje, não. Desregulamentamos a entrada e a saí- da de capitais, tanto o nacional quanto o internacional. Antes, havia controle. Além disso, privatizamos muitas empresas estatais, algumas delas importantíssimas nessa questão regional, como é o caso da Vale do Rio Doce. A ação do Estado encolheu bastante. Desde então, nunca mais fizemos planejamento econômico de nada.

E o que ocorreu nos anos subsequentes?

Com o processo de abertura comercial, nós passamos dos anos 90 até 2003 também rastejando. Nosso crescimento foi simplesmente medíocre no período. Até os anos 80, o Estado Brasileiro e mais as estatais respondiam por mais da metade do investimento total do país. Quando veio a crise dos anos 80, e isso arrebentou com as finanças públicas, o peso do Estado caiu violentamente. Então, o investimento ficou praticamente nas mãos do setor privado. Ocorre que o setor privado, para investir, quer ter horizonte promissor, quer certas garantias, precisa de taxa de juros razoável. Nos anos 80, tudo isso foi muito incerto, e a partir do Plano Real, nossa taxa de juros tornou-se cavalar, a maior do mundo, e, assim, o empresário pensa dez vezes antes de fazer qualquer investimento. Ele fica entre aplicar em títulos da dívida pública, que lhe garante 12%, contra os 5% que ganharia abrindo ou incrementando um negócio. Então, de 80 para cá, os determinantes do crescimento econômico nacional mudaram radicalmente. Esse crescimento baixou de 7% para menos de 2% entre 80 e 2003. De 2004 para cá, crescemos um pouquinho mais, mas também não foi lá essas coisas.

Quais as implicações dessas mudanças para as regiões brasileiras?

Isso tudo resultou no seguinte: as regiões estavam se integrando e o crescimento delas estava envolvido no processo de industrialização. Ao mesmo tempo, o governo federal olhava as regiões e tinha uma política de desenvolvimento para elas. Depois de 80, essas coisas mudam radicalmente. O motor do desenvolvimento deixa de ser a industrialização. Como o governo não tem mais recursos, porque precisa pagar a dívida, a política nacional de desenvolvimento regional foi suprimida. Surge então a exportação de commodities. Estas, mesmo quando crescem e envolvem uso de tecnologia, contribuem para um tipo diferente de modernização. A modernização da indústria é contagiante, penetra em todos os segmentos da sociedade. Já a modernização da agricultura não tem grande capilaridade. Além disso, a agricultura é muito mecanizada e emprega pouca gente. Então, quem vai empregar o pessoal na economia urbana do país? É o setor de serviços. Ocorre que no setor de serviço, em um país como o nosso, predominam as atividades simples, que não reque- rem elevada qualificação de mão de obra e que, portanto, pagam baixos salários. Essa mudança esgarçou os nexos que existiam entre as regiões brasileiras. Alguns foram até partidos.

Poderia explicar melhor esse fenômeno?

Vamos tomar como exemplo a indústria automobilística, que se fixou originalmente em São Paulo. Antes, nós fabricávamos a maior parte das autopeças necessárias. Todo o esforço produtivo era interno. Com a abertura, cresceu a importação de carros e peças. E depois, com a guerra fiscal e a abertura comercial, ocorreu uma grande desconcentração dessa indústria automobilística. As fábricas foram para o Ceará, Minas Gerais, Bahia, Paraná, Rio Grande do Sul e Goiás. E todas elas aumentaram a importação de insumos e de carros prontos. Então, o esgarçamento se dá no sentido de que os nexos de mercado vão sendo rompidos ou fragilizados. Se você fosse fabricar tudo aqui, seria uma coisa. Mas não é isso que está sendo feito. Hoje, estão fazendo muita montagem. No campo da eletrônica foi pior ainda. O nosso déficit comercial na importação de componentes eletrônicos é gigantesco. Além disso, a guerra fiscal acelerou o esgarçamento. Como o governo federal não tem recursos para transferir para as periferias, ele fecha os olhos e deixa o pessoal fazer a guerra fiscal. Ou seja, cada um tenta defender o seu prato, mas no final todos perdem.

E em termos de urbanização, quais as consequências?

A urbanização também decorreu do processo de industrialização. Hoje está diferente. O que cresce na periferia do país é soja, boi, minério de ferro. Essas atividades contribuem pouco para a urbanização. Explicando melhor: a industrialização exige um operariado que tem certa qualificação, exige um nível de educação, requer sistema de saúde mais eficiente para dar conta da demanda. Exige também infraestrutura: energia elétrica, comunicações, estradas etc. Ou seja, requer uma modernização muito maior do que a da agricultura. Então, não somente os determinantes do desenvolvimento da economia regional foram mudados, mas também os da própria urbanização. As cidades passaram a ter um metabolismo diferenciado.

Os problemas decorrentes da urbanização também sofreram alterações?

A despeito dessas diferenças no processo de urbanização, o novo modelo trouxe as mesmas mazelas do modelo anterior. Antes, as grandes cidades ficaram entupidas. De 80 para cá, as cidades médias passaram a crescer mais que as grandes. A taxa de crescimento populacional foi caindo ao longo das décadas. Estávamos com 1,6% e agora perto de 1%. Lembrando que chegamos a atingir a taxa de 3% perto década de 60. Cheguei a Campinas em 1967. A cidade tinha 300 mil habitantes. Isso aqui era o paraíso, você estacionava o carro em qualquer lugar, andava de noite sem medo de ser assaltado. A cidade tinha escolas excelentes, bons hospitais, o ar era limpo etc. Hoje a cidade é completamente diferente. Então, a mesma deterioração urbana registrada em São Paulo e no Rio de Janeiro vai grassando pelo país todo. Hoje, você não precisa mais ir a uma cidade de 1 milhão de habitantes para ser sequestrado, para encontrar gente fumando crack na esquina, para encontrar mendigo pelas ruas. Isso é encontrado no Brasil inteiro. A urbanização se espalhou, mas se espalharam também todos os efeitos nocivos desse processo.

E o que ocorreu do início dos anos 2000 para cá, a situação se agravou em termos de desenvolvimento?

Estou desenhando um projeto de pesquisa para investigar justamente os acontecimentos desse período. O trabalho ainda não está pronto porque estou aguardando a publicação dos dados completos do Censo de 2010. Vai ser um estudo de fôlego, que envolverá muitos pesquisadores e diversas instituições. A idéia é fazer uma abordagem multidisciplinar, visto que a questão envolve uma série de fatores, como demografia, urbanização, meio ambiente etc.

Mas há uma tendência que o senhor já tenha detectado em relação ao desenvolvimento econômico nacional?

De 2003 para cá, houve outra mudança. Os otimistas acham que foi algo que veio para ficar. Eu penso que não. Penso que é um cenário altamente suscetível de ser alterado. Estou falando do efeito China. Como a China acelerou ainda mais o seu crescimento, a demanda do país passou a ser qualquer coisa em torno de 25% de tudo o que possamos imaginar no mundo, de parafuso a comida. Além disso, também tivemos a questão da especulação no mercado financeiro internacional. Esses dois fatores jogaram o preço das commodities para cima. Então, nós estamos nadando de braçada em termos de exportação de commodities. Só que isso está se casando com problemas que não foram resolvidos. Com a abertura comercial e financeira, esse país ficou de janela escancarada. Como aqui se paga a maior taxa de juros do mundo, o capital internacional entra aqui por essa janela. Ou seja, esse capital está ganhando o maior juro do mundo. E isso, face aos saltos juros, contamina as contas públicas, que é muito alta. O que ocorreu nesse período: valorizou-se a taxa de câmbio, barateando-se sobremodo o dólar. Com isso, a indústria nacional perdeu competitividade lá fora. Se você olhar a pauta de exortações do Brasil, de 95 para cá, o peso dos produtos industriais mais nobres, classificados como manufaturados, caiu de 55% para 40%.

Nos últimos cinco anos, o comércio exterior da indústria de transformação passou de um superávit para um déficit de US$ 65 bilhões! Ou seja, estamos perdendo oportunidades. Ao mesmo tempo, o motor forte da industrialização está murcho, girando em velocidade muito baixa. Eu não acredito que essas commodities vão manter esse mesmo patamar de preço para o resto da vida. Mesmo porque, a própria China está cuidando de atenuar o fenômeno. Hoje, cerca de 150 mil chineses estão trabalhando na África. Eles foram para lá para produzir grãos, explorar a pecuária, produzir petróleo etc. O país está abrindo frente de fornecedores de matéria-prima para ele próprio, como estratégia de bloquear a elevação dos preços. Por outro lado, manter essa enxurrada de dólar entrando no país é arriscado. Isso vai explodir as contas externas brasileiras. Não adianta nada o governo falar que as reservas do país estão na casa dos 350 bilhões de dólares. Ocorre que as dívidas brasileiras, que não estão relacionadas à dívida externa, cresceram assustadoramente. Além disso, há na Bolsa de Valores, em aplicações de títulos em carteira, cerca de 300 ou 400 bilhões de dólares. Esse é um dinheiro que pode sair do país de madrugada. Como a crise financeira internacional não está resolvida, as medidas saneadoras não estão sendo adotadas. Ou seja, estamos vivendo um período de incertezas. Parte da minha futura pesquisa discutirá essa questão e fará uma reflexão de que caminhos poderemos seguir.

O governo federal anunciou que parte dos recursos do pré-sal serão investidos para fortalecer a indústria nacional. Como o senhor analisa esse compromisso?

Embora as estimativas sejam otimistas – algumas são da ordem de 150 bilhões de barris –, o petróleo do pré-sal ainda não está jorrando. Ainda vai levar quatro ou cinco anos para o país começar a produzir. A presidente Dilma deve estar imbuída do mesmo espírito do presidente Lula, ou seja, de não exportar tanto petróleo bruto, e tentar exportar mais subprodutos com valor agregado. Mas amanhã, com a eventual posse de um governo mais liberal, essa política pode mudar de rumo. E aí podemos nos transformar em um país exportador de petróleo e ficarmos suscetível à chamada doença Holandesa. O controle disso tem que estar na mão do Estado.

O único país capitalista que precisou fazer isso foi a Noruega. Ela criou toda uma institucionalidade estatal para o petróleo e controla o seu fundo soberano. Se o pré-sal for promissor, nós teremos recursos adicionais para dar conta dos nossos problemas, que são imensos. Desde 80 o Brasil está atrasado. Nós chegamos a investir 25% do PIB. Hoje, esse índice está em 19%. Nós deixamos de realizar muita coisa, como portos, moradias, saneamento, etc. Para restaurar o país, segundo próprio governo, o investimento teria que passar de 19% do PIB para algo em torno de 26%. Hoje, porém, o país não tem esses recursos.

O país tem condições de voltar a se desenvolver a taxas menos tímidas?

A resposta é muito difícil. É preciso consultar os empresários e perguntar a eles se estão dispostos a investir no país. Perguntar se eles querem retomar as fábricas antigas ou construir algo novo. A resposta provavelmente vai ser: depende. Certamente o empresariado vai querer saber quais as condições, quanto poderão ganhar e que garantias de longo prazo poderão ter. Atualmente, estamos financiando empresários que dão emprego lá fora. O BNDES deu mais de 10 bilhões de reais para um frigorífico. E deu um dinheirão para outros grupos nacionais que investem lá fora. Nós precisamos criar emprego aqui dentro. Não é um problema trivial de ser enfrentando.

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