Wojtyla: ''santo já'' ou ''santo não''? Um debate

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30 Abril 2011

Karol Wojtyla curvado sobre o báculo, testemunha da fragilidade da condição terrena. Um padre sofredor, próximo dos últimos do mundo, embaixador de um forte sentimento de fé. Porém, em um pontificado longuíssimo, foi também um chefe de Estado cujas ações foram objeto de críticas e levantaram polêmicas.

A reportagem é de Silvia Truzzi, publicada no jornal Il Fatto Quotidiano, 28-04-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

No processo de beatificação, iniciado imediatamente no momento da sua morte, no dia 2 de abril de 2005, ao grito de "Santo já", algo foi esquecido. Às vésperas daquele 1º de maio que o verá como beato, discutimos a respeito com Paolo Flores d’Arcais, considerado um dos mais importantes críticos de esquerda da Itália, ateu confesso e diretor da revista MicroMega, e Marco Politi, vaticanista e autor do livro Sua Santidade: João Paulo II e a História Oculta do Nosso Tempo (Ed. Objetiva, 1996), de coautoria de Carl Bernstein.

Eis a entrevista.

De João Paulo II ficou a imagem de um Papa humano, próximo dos fracos, bom. O que foi esquecido?

Marco Politi – O Papa bom continua sendo João XXIII. Wojtyla é o primeiro Papa geopolítico, que entende a globalização. Aquelas viagens, que no início pareciam uma espécie de turismo frenético, revitalizaram o sentido de unidade da Igreja. É o primeiro pontífice que se apresenta na sua fisicidade também de homem, o primeiro que usa a palavra "eu". Consegue manter unida, como disse Bill Clinton, a capacidade de falar a todos: aos muçulmanos, aos judeus, aos agnósticos. Uma relação com o mundo que também inclui polêmicas, críticas. Ele uniu o discurso religioso ao apelo pelos direitos humanos, a solidariedade econômica, os direitos do Terceiro Mundo.

Paolo Flores d’Arcais – As imagens populares são as do Papa sofredor. "Santo já" é o grito que nasce depois de meses de exposição midiática de um sofrimento autêntico, sempre mais evidente e vivido até o extremo. Isso toca o coração dos fiéis ou não, até porque Wojtyla havia sido o Papa "atleta da fé". Fascinou também os não crentes, a meu ver de forma totalmente equivocada, por um equívoco de fundo. Isto é, Wojtyla conseguiu se apresentar como pontífice pacifista. Politi fala de "direitos humanos". Na realidade, é o oposto: ele foi o inimigo dos direitos humanos enquanto produtos da democracia e da modernidade, dois séculos e meio de lutas do Iluminismo até hoje.

É o Papa que coloca no centro dos direitos humanos a "vida" como ele a entende (e também Ratzinger, mais do que nunca): da concepção à morte, o homem não tem nenhum direito à autodeterminação. Por isso a violenta cruzada de Wojtyla contra o aborto, que ele definiu como "o genocídio dos nossos tempos". Se não me lembro mal, ele usa essa expressão em uma das tantas visitas à Polônia, de retorno de Auschwitz.

Portanto, é evidente o curto-circuito simbólico que ele quer expressar: é o holocausto dos nossos tempos. Ele estabelece uma equação entre o responsável de um aborto e as SS responsáveis pelos fornos crematórios. Esse é impacto que ele quer criar. Também no plano dos aspectos sociais, a sua crítica do capitalismo nada mais é do que a crítica da pretensão do homem a decidir sobre si mesmo, da qual a desmesura do lucro como único Deus é só uma das expressões. Mas essa denúncia não impede que o Papa avalize, por exemplo, de maneira trivial o regime de Pinochet, apresentando-se na sacada junto com o ditador (foto). E os gestos simbólicos, para um pontífice midiático como ele, são cruciais.

Não houve só o episódio de Pinochet, mas também a oposição à Teologia da Libertação na América Latina e a vontade de isolar o bispo Romero, morto depois barbaramente enquanto rezava a Missa. Um julgamento sobre o chefe de Estado que tanto fez contra os regimes do ex-bloco soviético.

Marco Politi – Ele foi um grande líder político. Mas também uma personalidade complexa, um místico. Na realidade, ele não queria nem ser padre, queria ser monge. Era um filósofo da história: eis por que, depois da queda do comunismo, ele não se inebriou com a vitória da parte "capitalista", mas colocou o problema do capitalismo desenfreado. E disse expressamente a nós, jornalistas, durante uma viagem: "Não sei se é bom que tenha permanecido uma única superpotência".

Os elementos negativos de um longo pontificado são fatos que é justo julgar. Um líder que deixa a sua marca na história não é um "santinho". Acrescentaria outras: a luta impiedosa contra a Teologia da Libertação na América Latina, a contradição entre o fato de ser no plano político-social o porta-voz dos direitos humanos e a repressão sistemática dentro da Igreja do dissenso doutrinal, graças ao seu braço direito que era Joseph Ratzinger. Ele criou uma leva de bispos escolhidos mais pela obediência do que pela capacidade crítica. Deixou Romero completamente sozinho. Eu estava em El Salvador com ele quando ele foi pela primeira vez ao túmulo e o definiu como um "zeloso pastor", como se fosse um pároco de aldeia. Só em uma segunda viagem, quando já havia mudado a situação política, ele começou a elogiar Romero. E, no entanto, com tantos beatos por ele proclamados, Romero ainda não foi feito santo.

Mas permanece a capacidade de Wojtyla de abrir o diálogo com as outras religiões. Ele não queria que, como o século XX havia sido marcado pela Guerra Fria leste-oeste, o século XXI fosse marcado pelo confronto entre cristianismo e Islã. Ele trabalhou para que as religiões condenassem juntas a manipulação do nome de Deus usada pelo terrorismo. Foi o primeiro Papa a proclamar um grande "mea culpa" pelos erros e horrores na história da Igreja. Bastam só esses fatos para considerá-lo, laicamente, como um grande personagem histórico.

Paolo Flores d’Arcais – A grandeza histórico de um personagem prescinde das avaliações positivas ou negativas. Eu considero Karol Wojtyla como o maior obscurantista do século XX. Um grande obscurantista pode desencadear também efeitos positivos do ponto de vista de um progressista como eu. É certo que a queda do Muro de Berlim não teria ocorrido com as mesmas modalidades e nos mesmos tempos sem o Papa polonês. Mas é o único efeito colateral positivo do grande obscurantismo de João Paulo II. O inimigo é o Iluminismo: esse é o fio de ouro de toda a sua pregação. A presunção, monstruosa segundo ele, de que o homem tome nas mão seus próprio destino, prescindindo da obediência a Deus. Não se pode imputar essa afirmação extremamente ortodoxa a um Papa. Mas o Concílio Vaticano II havia marcado um elemento de absoluta novidade, de abertura à crítica do mundo.

O aniquilamento da Teologia da Libertação não é um dos elementos de um percurso contraditório, mas faz parte da coerência do pontífice. O Pe. [Giovanni] Franzoni é o único padre conciliar que testemunhou contra a beatificação de Wojtyla: ele defende que Romero poderia ter sido feito cardeal. E jamais teria sido assassinado. Não sabemos se é verdade, mas certamente teria sido um belo desafio contra um poder que o queria morto. O "mea culpa" sobre os erros da Igreja refere-se a "pecados" já muito distantes.

Reconhecer, entre mil distinções, que se equivocaram com Galileu quatro séculos depois é água fresca, quando contemporaneamente defendem Maciel e os Legionários de Cristo até o fim. As primeiras denúncias, muito circunstanciadas, contra os Legionários remontam a alguns anos antes da eleição de Wojtyla. Por 26 anos, o Papa rejeitou qualquer pedido de intervir. Schönborn contou que Ratzinger apresentou o problema. E explica: a Cúria venceu. Venceu porque Wojtyla assim havia decidido. E o que dizer do bispo de Boston, Bernard Law, que havia encoberto o maior escândalo de pedofilia na sua arquidiocese? Foi investido com o título de Arcipreste da Basílica de Santa Maria Maior em Roma!

Acrescentamos a santificação do padre Escrivá, isto é, do Opus Dei, e o espaço crescente que foi concedido ao Comunhão e Libertação. Não esqueçamos a santificação de Pio IX, que condenou à morte dois patriotas italianos e foi protagonista do caso Mortara: o menino judeu sequestrado para que recebesse uma educação católica forçada. Juntando todos esses elementos, não se pode dizer que o seu papado foi contraditório. Ao contrário, ele é linear, sob a insígnia da contraposição entre obediência à lei de Deus e ao verdadeiro Satanás que é a pretensão humana à autonomia. Nesse quadro, é verdade, temos o extraordinário efeito colateral, libertador, da queda dos regimes comunistas.

Marco Politi – Responsabilidades, culpas, méritos de João Paulo II são os atos. Na memória popular, aqueles três milhões de pessoas que se colocaram na fila para ver o seu corpo (e eram em maior parte não praticantes), não se desenvolve a ideia do Papa obscurantista. Ele abriu novos horizontes para o catolicismo. A relação com os judeus: reconheceu Israel e fechou o capítulo do antissemitismo, dirigindo-se ao muro de Jerusalém e fazendo ato de arrependimento pelo antijudaísmo secular da Igreja. Pôs com força a questão dos direitos sindicais no final do século XX, especialmente depois da queda do comunismo. A sua atividade geopolítica não se exauriu com a queda do comunismo. A autocrítica sobre os erros do passado não se limitou a Galileu. Ele reconheceu, pela primeira vez, que a Igreja não é infalível como havia se apresentado, em uma apologética contínua. Reconheceu as responsabilidades nas cruzadas, nas guerras religiosas, na destruição de Constantinopla pela mão dos católicos.

Diferentemente de outros Papas, que frequentemente fizeram declarações sobre a paz simplesmente exortativas, ele exerceu, sobre a aventura de Bush no Iraque, uma ação diplomática contínua, sistemática, por oito meses. O efeito foi que, no Conselho de Segurança das Nações Unidas, o México e o Chile, países-chave para decidir a maioria, votaram não a Bush. Os Estados Unidos e a Inglaterra não conseguiram ter o carimbo da ONU sobre a operação no Iraque. Também na Itália, onde o governo Berlusconi aprovava – mesmo não participando da operação – a política de Bush, e em toda a Europa a maioria da população foi claramente contrária à guerra. Aqui sentiu-se o papel de Wojtyla.

Mesmo que depois a invasão tenha ocorrido, ele – como autoridade moral – indicou que a operação era falimentar, porque alimentaria o fundamentalismo. Esses são atos que permanecem no plano histórico. Outras responsabilidades, indubitáveis, não anulam o resto. Uma pontualização ainda: não é confiável e não há provas de que Wojtyla, sabendo da vida pessoal de Maciel, o tenha protegido conscientemente. Existem fortes indícios, incluindo a intervenção de Schönborn, de que o seu entorno tenha lhe escondido os fatos.

Olhemos por um instante o nosso país: que Papa foi Wojtyla para a Itália?

Marco Politi – O seu papel foi muito negativo. Ele confiou a política italiana ao cardeal Ruini, que derrotou aquela parte da Igreja que queria se concentrnar na missão religiosa. A gestao Ruini significou um total nivelamento, o sufocamento de qualquer voz de dissenso e reflexão crítica nas organizações sociais católicas: da Ação Católica às Acli [Associações Cristãs dos Trabalhadores Italianos]. Perderam a voz, criou-se um clima que o historiador Pietro Scoppola chamava de afasia dos católicos. Ruini inclinou a Igreja às operações políticas mais prejudiciais para o crescimento da sociedade civil: a abstenção no referendo sobre a fecundação artificial, a sabotagem da tentativa do governo Prodi de aprovar uma lei sobre os casais de fato, a luta contra o testamento biológico que ainda hoje bloqueia uma lei existente em outros países, porque a maioria berlusconiana apoia, porém, o Vaticano para cobrir seus próprios abusos.

Paolo Flores d’Arcais – Assino embaixo de tudo o que Marco disse. Para Wojtyla, as coisas que contam verdadeiramente são – para usar as suas próprias palavras – as "estruturas do pecado" que tem sua incubação no iluminismo e dão lugar aos vários versantes do fenômeno da modernidade. A ele, interessa muito mais a questão do testamento biológico ou da pesquisa sobre células-tronco a ser impedida, com relação a todo o resto.

E, portanto, eis porque ele remodelou todo o episcopado italiano: as Igrejas têm relações com os governos em que se privilegiam esses aspectos. Depois, se esses mesmo governos fazem patifarias incríveis em outros planos, isso conta menos. E, então, pode-se defender Berlusconi em todos os modos como se defende Pinochet. E procurou-se reduzir ao silêncio todos os fermentos das várias Igrejas locais ativados pelo Concílio. Não consigo ver elementos de grandeza em sentido positivo. Sobre a abertura ao judaísmo, lembro novamente a beatificação de Pio IX: para um Papa que falou por símbolos, foi um tapa na comunidade judaica. Os direitos sindicais foram reafirmados, mas sem tirar disso nenhuma consequência prática, visto que, na América Latina, todas as forças da Igreja coenvolvidas na defesa dos direitos dos trabalhadores eram as que defendiam a Teologia da Libertação.

Permanece o choque com Bush sobre o Iraque: não é uma coisa de pouco valor, mas é a chave de preocupação pelos direitos das religiões. Wojtyla é o Papa que propõe às outras religiões algo mais do que um diálogo, uma santa aliança: todas as religiões unidas contra a modernidade. Isso se expõe no caso Rushdie: não houve condenação pela fatwa contra o escritor. Disse-se, ao contrário, em inúmeras ocasiões, incluindo artigos no L`Osservatore Romano, que não se devia permitir que Rushdie insultasse os fiéis, mesmo que a condenação à morte tenha sido criticada.

O milagre do Papa Wojtyla foi encontrado: o da irmã curada. Mas havia outros prontos. Disse-se que a beatificação foi uma operação de marketing religioso. De acordo?

Paolo Flores d’Arcais – A questão da santidade refere-se à Igreja dos fiéis. Um ateu como eu não tem título nem voz a respeito. Pode simplesmente falar do Papa como presença mundana nos episódios históricos e, portanto, também do seu governo da Igreja em relação à sociedade. Posso só reportar aquilo que alguns fiéis defendem contra a santidade, como o Pe. Franzoni e Hans Küng, o mais notável teólogo católico. Há também grupos eclesiais de base que são contrários a essa operação. A santidade deve se basear na prática das famosas sete virtudes, cardeais e teologais, de forma heroica. Esses notabilíssimos fiéis, ponto a ponto, destroem a teoria da santidade. Franzoni considera a impunidade garantida a Marcinkus e a ação para impedir a investigação da verdade sobre a quebra do banco Ambrosiano como um menosprezo às virtudes da prudência e da fortaleza. E imputa a Wojtyla o fato de não ter ouvido a Igreja dos fiéis sobre duas questões fundamentais: a presença das mulheres e o celibato dos padres. Sobre a humanidade de Wojtyla, depois, eu ficaria atento: penso no caso Romero.

Marco Politi – A questão técnica da beatificação me apaixona pouco. Interessa-me entender por que, na memória popular, vasta e transversal, Wojtyla continua sendo uma figura fascinante. Acho compreensível, também para um público que não seja católico, o fato de ele ser posto como personalidade crucial entre os séculos XX e XXI. A História é complexa, não é uma foto em preto e branco. Pode-se muito bem dizer que Wojtyla sonhava com a aliança das religiões para bloquear o direito ao aborto e, ao mesmo tempo, reconhecer que trabalhava por uma colaboração entre as religiões para os fins da paz e de um desenvolvimento econômico globalização sustentável. Isso é interessante.

A beatificação refere-se só à Igreja. Não acredito, porém, que se trate de marketing religioso. Corresponde a um sentimento popular. Algo que vai além do fenômeno midiático. João Paulo II testemunhou uma fé fortemente sentida. Lembro que, durante a sua viagem à Terra Santa, uma policial israelense, evidentemente crítica sobre aquilo que ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial, me disse: "A Igreja Católica não me interessa, de fato. Mas esse é um homem de Deus". As pessoas de outras fés também ficaram tocadas pela intensidade do seu sentimento religioso, unido a uma carga de humanidade absolutamente tangível. A memória popular seleciona justamente. É absolutamente verdade que ele considerava os últimos quatro séculos como inspirados por um programa anticristão. Mas muitíssimos católicos são iluministas no seu cotidiano e depois apreciam a capacidade de Wojtyla de cruzar uma fé autêntica com a sensibilidade social.

Na Itália, por exemplo, ele defendeu a unidade do país. A sua última mensagem foi a vontade de não esconder o sofrimento, de levá-la ao exterior. Uma mensagem ao mesmo tempo religiosa: a vontade de se identificar com a Paixão de Cristo. E laica: uma reafirmação de que o homem sofredor tem uma dignidade e um papel. Enfim, as mensagens "caro papai... caro vovô" difundidas no funeral revelam que ele personificou uma figura paterna, hoje em crise.

 

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