EUA mantiveram 150 inocentes presos em Guantánamo, revela WikiLeaks

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25 Abril 2011

Pelo menos 150 suspeitos levados à prisão americana de Guantánamo desde 2002 eram inocentes, revelam alguns dos mais de 700 documentos confidenciais do governo dos EUA tornados públicos ontem pelo site WikiLeaks. Os registros detalham ainda a utilização de métodos violentos nos interrogatórios na prisão, o sistema de classificação por grau de periculosidade dos presos e a transcrição de alguns interrogatórios.

A notícia é do jornal O Estado de S. Paulo, 26-04-2011.

De acordo com os documentos, em muitos casos os suspeitos foram detidos após serem confundidos com pessoas procuradas ou simplesmente porque estavam no lugar errado e na hora errada. O Pentágono qualificou o vazamento dos documentos como "infeliz".

Entre as principais revelações que vieram à tona, estão um sofisticado plano para atacar o Aeroporto de Heathrow, em Londres. O complô estava sendo articulado em 2002 por Khalid Sheik Mohamed, mentor dos atentados de 11 de Setembro.

Os relatos também detalham técnicas usadas por agentes americanos para identificar militantes treinados pela Al-Qaeda. Se, por exemplo, um homem detido usasse um relógio de pulso da marca Cassio modelo F91W, cresciam as suspeitas de que ele tivesse participado de um curso para fabricar bombas - no qual os alunos recebiam os objetos.

Nos relatórios sobre detidos, feitos entre 2002 e 2009, agentes da inteligência militar dos EUA avaliaram as histórias dos presos e narraram as tensões entre captores e cativos.

O WikiLeaks teve acesso aos documentos, mas uma outra fonte - não revelada - os forneceu ao New York Times. As informações demonstram que a maioria dos 172 presos que restam em Guantánamo foi classificada como sendo de "alto risco" para os EUA.

Mas um número ainda maior de prisioneiros que já partiram de Cuba - cerca de um terço dos 600 já transferidos para outros países - também foi considerado de "alto risco" antes de sua libertação.

Os documentos praticamente não falam sobre o uso de táticas de interrogatório polêmicas, como privação de sono e exposição prolongada a baixas temperaturas. Segundo interrogadores, vários prisioneiros teriam inventado relatos falsos sobre abusos.

Missão suicida

Os prisioneiros que especialmente preocuparam os EUA incluíam supostos integrantes da Al-Qaeda, militantes de uma missão suicida abortada na última hora e detidos que prometeram a seus interrogadores que se vingariam.

Os dossiês também mostram a coleta improvisada de informações secretas em zonas de guerra, que levaram à prisão de inocentes em casos de erros de identificação ou simples infortúnio. Em maio de 2003, por exemplo, forças afegãs capturaram o preso 1051, um afegão chamado Sharbat. Ele negou qualquer envolvimento, dizendo que era um pastor.

Interrogadores e analistas concordaram, dizendo que sua história era consistente com seu conhecimento da criação de animais e sua ignorância de "conceitos políticos e militares simples". Mas, mesmo assim, um tribunal militar o declarou um "combatente inimigo" e ele só voltou para casa em 2006.

Autoridades do governo Barack Obama criticaram a publicação dos documentos sigilosos, que foram obtidos pelo WikiLeaks, mas fornecidos ao New York Times por outra fonte. / NYT

Líbia

Abu bin Qumu passou mais de 5 anos preso em Guantánamo, acusado de integrar a Al-Qaeda. Hoje, é um dos principais rebeldes na luta contra Muamar Kadafi

PRINCIPAIS SEGREDOS

Al-Qaeda planejou ataque a Heathrow

A Al-Qaeda chegou a iniciar os preparativos para cometer um atentado no aeroporto londrino de Heathrow, com a mesma estratégia do ataque do 11 de Setembro, indicam documentos obtidos pelo WikiLeaks e publicados pela revista alemã Der Spiegel. O "cérebro" dos atentados de 2001, Khalid Sheik Mohamed, formou em 2002 células para preparar o ataque. A ideia era desviar um avião pouco após a decolagem e jogá-lo contra um dos terminais de Heathrow, um dos principais aeroportos europeus.

O "relógio de pulso dos terroristas"

Militares que avaliam a periculosidade dos presos de Guantánamo são orientados a identificar um modelo de relógio de pulso Casio como sinal de ligação com terrorismo, diz o documento "Matriz de indicadores de ameaça para combatentes inimigos".

Ex-detento é nº 2 da Al-Qaeda no Iêmen

Said Shihri, que foi capturado no Paquistão em 2001 e enviado a Guantánamo, foi solto seis anos depois, após convencer os americanos que ele iria trabalhar na loja da família na Arábia Saudita. Tornou-se o n.° 2 da Al-Qaeda na Península Arábica.

A má sorte dos iemenitas detidos

Arquivos referentes às dezenas de prisioneiros do Iêmen em Guantánamo indicam que eles eram soldados que foram para o Afeganistão antes dos atentados de setembro de 2001 para receber treinamento básico militar, não terrorista.

Entre os presos, um agente britânico

Um dos documentos secretos revelados indicou que entre os presos em Guantánamo estava um detido que tinha sido recrutado por autoridades britânicas e canadenses para trabalhar como agente secreto por suas "conexões com militantes".

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