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26 Abril 2011

Por uma série de concatenações, o padre é hoje uma das questões mais espinhosas para o catolicismo romano. Ele é o protetor que deve presidir uma comunidade por sacramento e não por liderança.

A opinião é Alberto Melloni, historiador da Igreja italiano e professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia, em artigo publicado no jornal Corriere della Sera, 22-04-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Por uma série de concatenações, o padre é hoje uma das questões mais espinhosas para o catolicismo romano. Construído no Concílio de Trento com um profundo remodelamento da sua fisionomia anterior, ele foi o fulcro de um poder e de uma atenção secular, que se exauriu bem antes que a queda das vocações, iniciada com o século XIX, certificasse a necessidade de uma metamorfose mal diagnosticada e tratada ainda pior.

Depois da busca ansiosa por uma "teologia do laicato", no fundo simétrica e subalterna a uma visão clerical da Igreja como poder, o Vaticano II trouxe novamente para o centro da eclesiologia não a noção, mas sim a experiência da comunhão. Porém, excetuando-se algumas passagens da constituição sobre a liturgia de grande lucidez, ele não conseguiu fazer com que derivasse da teologia "eucarística" do bispo uma figura do padre.

E, na Itália, a publicidade do oito por mil [norma pela qual o Estado italiano reparte 8‰ de todo o imposto de renda entre as diversas confissões religiosas]—estudada com fineza no livro Chiesa e pubblicità. Storia e analisi degli spot 8x1000, do Pe. Dario Viganò (Ed. Rubbettino) — fornece uma radiografia afetuosa e impiedosa das consequências que pairam sobre o padre, sobre o qual se sugere, porém, uma compreensão periférica com relação à transmissão da fé da qual ele é o protetor que preside uma comunidade por sacramento e não por liderança.

Durante o pontificado de Wojtyla, inseriu-se nesse panorama mutável e difícil a ideia de que não mais dos seminários, mas sim dos movimentos poderia vir um "novo" clero (e, neste caso, um novo episcopado pós-montiniano). Um padre menos solitário, mas por sua natureza "brandizado" [de brand, marca]: e que, portanto, quando chega a postos de poder, deve demonstrar que não está lutando pela promoção da sua própria marca. E, ao mesmo tempo, um padre dentro das tempestades mais variadas (para os Legionários de Cristo, os trágicos crimes do fundador; para outros, as desenvolturas nos negócios dos condiscípulos) vê sua própria tarefa singular comprometida por uma suspeita finamente obscurecida.

O que acontece de específico e de sadio dentro desse mundo é, ao contrário, mais difícil de entender – por isso, o livro, que será publicado no dia 16 de maio, La casa, la terra, gli amici. La Chiesa nel terzo millennio (Ed. San Paolo, 136 páginas) de Dom Massimo Camisasca, dirigido aos membros da fraternidade sacerdotal San Carlo, de Roma, onde vivem e trabalham tantos padres do Comunhão e Libertação - CL, oferece muitos pontos importantes.

Camisasca conhecido sobretudo pela sua história de CL, oficialíssima nas menções e nas omissões. Aqui, o encontramos em uma veste diferente: a de formador que explica aos seus irmãos o sentido de uma vida comum como fundamento de uma espiritualidade do padre nova e antiga. As três figuras do título servem para ilustrar os desafios e os problemas da vida interior à luz de uma experiência pessoal e decisiva, a amizade e o discipulado do Pe. Luigi Giussani, que Camisasca entende bem que não pode ser comunicado se não voltando ao ponto de fundo daquele encontro, isto é, à comunicação da centralidade de Cristo.

É significativo que, assim como tantas experiências espirituais do século XX, nascidas impacientemente com relação às formas antigas, também neste caso sejam as estruturas de fundo da espiritualidade monástica latina que voltam: as da amizade monástica que assume o microcosmo cenobítico como prova e contraprova da luta interior; as da casa na qual – por longo tempo, conta o autor – falta uma capela para que seja claro o fato de que o Cristo só pode ser ouvido, não possuído; e que, no fim, a cria para explica na adoração que "a missão nada mais é do que o dilatar-se do nosso silêncio".

Como é óbvio surgem pelo menos dois nós conectados à parte espiritual do episódio nascido em torno a Giussani: o primeiro que Deus deve fazer parte "do nosso ser e do nosso bem-estar", chave de leitura da ideia de que a experiência religiosa não só possa encontrar seu próprio sentido sob a cruz, mas também deve ser comunicada como algo de disponível à confissão de fé. O segundo descende da ideia de que "o que iniciou com Jesus ainda não está cumprido", mas vê esse cumprimento não no mistério do cosmos e da humanidade, mas sim no destino de uma vivência cristão só externamente específica.

Questões que se cruzam com uma visão mais ampla: porque o risco do espiritualismo "sentimental", justamente denunciado como incumbente a um cristianismo das afetuosidades, é sempre balanceado pelo fato de que a vida cristã não pode existir senão no tempo e, portanto, "no sacrifício de muitas experiências e de muitos erros".

Só voltando de modo lúcido e límpido ao fundamento que salva, porque íntimo e totalmente outro com relação aos balbucios da oração que não sabe nem o que pedir senão aquilo que lhe foi consignado, pode-se, portanto, cumprir a promessa da qual o Evangelho é teste e penhor.

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