Canterbury e Vaticano: o "contra-cisma" da Inglaterra

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10 Abril 2011

"Eu não acordei uma manhã com a ideia de me tornar católico. Foi uma viagem ecumênica, um longo processo, uma lenta progressão. Pensei nisso muitas vezes no passado. Conversei e discuti com as pessoas próximas e queridas a mim. Como sacerdote anglicano, sempre havia lutado para unir ao invés de separar as nossas duas confissões cristãs. E lembro bem como eu e minha mulher, quando éramos jovens, em Liverpool, éramos fascinados pelos serviços católicos. Sentíamos um chamado que nos levava para essa direção".

A reportagem é de Enrico Franceschini, publicada no jornal La Repubblica, 10-04-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eu e minha mulher. Palavras que soariam sacrílegas na boca de um padre católico. Não neste caso. Porque o padre Keith Newton, 59 anos, se casou em 1973 com Gill Donnison, com a qual teve três filhos, Lucy, Tom e James (a primogênita já lhe deu uma neta), tornou-se sacerdote anglicano em 1976, foi pároco de Southwark e Bristol, foi missionário na África por seis anos, em 2002 foi ordenado bispo da Igreja da Inglaterra.

Depois, começou uma outra história: Newton deu o grande salto para Roma, convertendo-se ao catolicismo, junto com sua mulher, no dia 1º de janeiro deste ano, recebendo a ordenação como sacerdote da Santa Igreja Romana duas semanas mais tarde, na Catedral de Westminster, por obra do arcebispo Vincent Nichols, primaz dos católicos ingleses, com a bênção do Papa Bento XVI que, no mesmo dia, nomeou-o chefe do Ordinariato de Nossa Senhora de Walsingham, fazendo-lhe líder do novo e crescente rebanho dos anglicanos convertidos do Reino Unido.

Newton é o filho pródigo, a ovelha perdida mais preciosa entre aquelas que voltaram ao redil. Mas não a única. A messe mais rica é a de algumas semanas atrás: no dia 12 de março passado, 900 anglicanos participaram do Rito de Eleição, primeiro passo rumo ao catolicismo.

Mesmo que os católicos do Reino Unido sejam apenas 4,2 milhões contra os 25 milhões anglicanos, as paróquias que retornam para a Santa Igreja Romana estão em crescimento. Dia após dia, sobretudo os expoentes da high church inglesa, isto é, a ala da Igreja da Inglaterra sempre mais conciliante com relação a um retorno ao Vaticano, se aproximam um pouco mais ao Tibre.

Mérito também de um contexto cultural favorável que teve os seus picos em 2007 com a conversão do ex-primeiro ministro Tony Blair, a visita no ano passado de Bento XVI e a beatificação de John Henry Newman, o grande filósofo e teólogo anglicano convertido em 1845.

Tudo isso passa por cima das evidentes exceções que uma figura como a de Newton deveria levantar: um padre católico que também é marido, pai, avô, em violação às rígidas normas sobre o celibato que devem ser observadas segundo o Vaticano, às quais o pontífice faz uma exceção justamente para os sacerdotes anglicanos que voltam para o seu rebanho, permitindo-lhes conservar "a identidade e as tradições" do culto anterior. Dentre as quais está a regra que permite que os padres tenham mulher e filhos.

O paradoxo é que tudo isso gira ao redor das mulheres, nesse retorno das ovelhas perdidas à Roma: por causa das (suas) mulheres, Henrique VIII criou a Igreja da Inglaterra, por causa das mulheres (padres e bispos) os sacerdotes como o padre Newton decidiram se converter ao catolicismo, sobre as mulheres (suas esposas) o Vaticano decidiu fechar um olho neste caso. Ou, melhor, os dois.

"Minha mulher e a minha família me foram de grande apoio durante todo o meu ministério", diz o padre Newton, "e sei que continuarão me apoiando nesta nova viagem. Estou feliz porque a minha esposa recebeu a santa comunhão católica junto comigo, no dia 1º de janeiro passado. Foi mais difícil para os meus pais. Meu pai agora está morto, minha mãe não compreendeu profundamente a minha decisão, mas a respeita. Eu nasci e cresci como anglicano. No início, assumimos a fé da nossa família, é assim para todos. Mas eu sempre senti o chamado do catolicismo. Em seguida, vivi a ordenação das mulheres como padres e bispos da Igreja Anglicana como uma escolha equivocada. Porém, você não se torna católico porque algo não lhe agrada na Igreja da Inglaterra. Você se torna porque mais coisas lhe convencem na Igreja de Roma".

O padre Newton é um intelectual, formado em teologia no King`s College de Londres, com um mestrado no Christchurch College de Canterbury: o Papa Ratzinger não o escolheu por acaso como chefe dos anglicanos convertidos.

"Olho para os meus 35 anos de ministério anglicano com orgulho e gratidão. Foi a Igreja Anglicana que me alimentou na fé cristã. Foi dentro dela que eu descobri, quando era ainda adolescente, a minha vocação. Não vejo a minha conversão como uma ruptura, mas sim como parte de uma contínua peregrinação de fé iniciada com o batismo. Sinto falta dos fiéis anglicanos que não me seguiram. Confortam-me aqueles que quiseram ficar do meu lado nessa viagem, convertendo-se também. Eu gostava de ser bispo, mas no meu coração continuo sendo principalmente um pároco. Quantos padres anglicanos farão como eu? Por enquanto, cerca de 50, acredito. Houve e haverá momentos difíceis. A nossa escolha compreensivelmente agradou alguns e irritou outros aqui na Inglaterra, mas foi aberto um novo capítulo. E o percorreremos com fé, esperança e caridade".

 

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