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09 Abril 2011

"Há uma certa transcendência no cotidiano do mundo moderno, justamente porque a modernidade é superficial e não chegou às estruturas profundas da sociedade e da personalidade. Foram essas estruturas profundas que se manifestaram no massacre", escreve José de Souza Martins, sociólogo, em artigo publicado no jornal O Estado de S.Paulo, 10-04-2011, ao comentar o massacre do Realengo.

Eis o artigo.

A modernidade chegou ao Brasil na manhã dessa quinta-feira, na plena indistinção entre ficção e realidade. Foi na sala de aula de d. Leila, na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, que apenas iniciava as lições do dia. A modernidade é na essência assim, no esperado inesperado. A rotina das balas perdidas nos fala disso todos os dias.

A imagem de uma câmera de vigilância mostrou Wellington Menezes de Oliveira, de 23 anos, transitando calmamente de uma sala para outra, revólver na mão, a imagem seguida da correria de crianças em desespero na busca da saída. Quando ele entrou na sala de d. Leila, os alunos, divertidamente, acharam que era uma arma de brinquedo. Só acordaram quando viram o sangue correr, a morte chegando.

Wellington fora aluno da escola, era um tipo fechado, que em casa passava longas horas na internet. Cidadão da sociedade da imitação e da indistinção entre o virtual e o real. Naquela manhã, Wellington havia apertado a tecla errada. Eis a modernidade em osso e pó, resíduo e imitação, teatro e tragédia, cópia de outros acontecidos, jeito de ser alguém sendo ninguém.

Mas há detalhes nisso tudo para se compreender o incompreensível. A começar de que o ato teve forma e conteúdo sociais, definidos e determinados. Não foi propriamente loucura. Nele se propõem as autenticidades profundas do nosso ser coletivo, aquilo que ainda somos mesmo não sabendo. Resquícios de uma religiosidade arcaica, mas viva. O que ali se viu foi um rito sacrificial medonho, perfeitamente delineado e explicado na carta-testamento do assassino. O mundo da modernidade se constituiu pelas formas superficiais modernas e ligeiras (como a da escola), sufocando os conteúdos e concepções das crenças arcaicas.

Wellington foi minucioso na expressão das últimas vontades, nos pedidos e recomendações que fez. É aí que estão os primeiros indícios do rito. Não se trata de um documento confuso nem se trata de um documento de teor fundamentalista e muçulmano. O texto é muito claro: explica, documenta e situa culturalmente o crime. Ali estão seus valores de referência, relativos à pureza do corpo e à sua purificação ritual para o sepultamento. Esse é o nó de todo o complicado caso.

Wellington pede que seu corpo não seja tocado por impuros, os não castos, os adúlteros e fornicadores, o que é próprio da tradição do sagrado. Pede que o corpo seja despido, banhado, enxugado e vestido com um lençol branco, deixado numa bolsa em uma das salas da escola. A família de seus pais adotivos era de testemunhas de Jeová, particularmente preocupados com a natureza religiosa da água na purificação do corpo. Há influência de costumes judaicos nessa tradição e não é incomum que cristãos façam recomendação semelhante. Há uma certa transcendência no cotidiano do mundo moderno, justamente porque a modernidade é superficial e não chegou às estruturas profundas da sociedade e da personalidade. Foram essas estruturas profundas que se manifestaram no massacre.

Wellington pede ritos de purificação do corpo para se apresentar perante o Eterno. Pede que um fiel cumpra o rito sacerdotal da intercessão, que ore por ele e por ele peça perdão, "rogando para que na sua vinda Jesus me desperte do sono da morte para a vida". Não são raros, no Brasil, os casos de sacrifício de crianças para assegurar a eternidade de quem o pratica. O ato de Wellington foi o da preparação da ressurreição.

Aparentemente, todo o processo se situa na biografia marcada pela perda dos pais biológicos e posterior perda dos pais adotivos, em especial a mãe. Após a morte dela, Wellington deixou a casa da família e recolheu-se à solidão de uma casa de Sepetiba, rito comum de purificação dos anacoretas. Preparava-se para a morte e o tenebroso transe, para reencontrar a mãe. Pede, aliás, para ser sepultado ao lado dela, na recusa extrema da orfandade, por ele concebida como mutilação, imperfeição, temor de muitos no cristianismo arcaico em face do Dia do Juízo. O ataque às crianças na escola de Realengo foi seletivo, meninas de preferência a meninos e adultos, porque elas, as virgens, as primícias, simbolizam a pureza na relação com o sagrado. Wellington lavou com sangue propiciatório o caminho da sua eternidade, para reencontrar a companhia da mãe na espera do dia em que o Senhor separará as ovelhas e os bodes, para nascer de novo.

O mais complicado aspecto desse crime é o da quebra da tradição que o inspirou. Wellington armou-se até os dentes, manejou com destreza as armas que levava, deu tiros certeiros. As testemunhas de Jeová, procedência religiosa de Wellington, repudiam as armas e o serviço militar por meio da objeção de consciência. Além de rastrear a origem do armamento, é fundamental decifrar essa quebra de tradição religiosa e a conexão que o assassino estabeleceu entre a crença e a opção pela violência das armas.

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